A Educação em campo
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A Educação em campo

Ao acreditar em seus alunos, professora do Paraná dribla barreiras e leva aos jovens uma nova perspectiva educacional

Todos Pela Educação

23 Agosto 2017 | 11h05

Valdirene – finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa

Por Denise Crescêncio, do Todos Pela Educação

Hoje é um dos dias da semana em que a professora Flávia Casa Grande, 39 anos, despede-se com um “até logo” de sua pequena Ivaiporã (PR), cidade conhecida como a capital do milho, e percorre aproximadamente 1h30 até o município de Jardim Alegre (PR), onde leciona.

Flávia é professora  de língua portuguesa há 15 anos. Atualmente trabalha no Ensino Fundamental e Médio da rede estadual paranaense, no Colégio Estadual José Marti, localizado no assentamento rural 8 de Abril, em Jardim Alegre.

Em 2014, pela primeira vez, ela teve o grande desafio de orientar seus alunos durante a Olimpíada de Língua Portuguesa, o que foi bastante desafiador tanto para os alunos quanto para ela. “Nós, professores de língua portuguesa, temos dificuldade em incentivar o aluno a escrever”, comenta.

Os jovens do assentamento 8 de Abril fazem parte do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST). São estudantes do campo que enfrentam algumas dificuldades de aprendizagem, pois muitos vêm de escolas itinerantes – ou seja, percorreram vários lugares até conseguir um pedaço de terra para chamar de seu. Para essa comunidade, a prioridade é o trabalho: primeiro ajudar no desenvolvimento da família e depois os estudos.

Por conta disso, a valorização do estudo nessas famílias ainda é uma questão frágil. O trabalho infantil, aponta Flávia, é um assunto delicado de se discutir durante as aulas, pois para muitos alunos, infelizmente ele é comum. Os pais veem isso como uma tradição: é preciso ensinar aos filhos o cuidado com a terra e as responsabilidades do campo.

Por isso, a professora conta que, em diversas situações, precisou conversar com as famílias dos estudantes sobre as tarefas de casa. As tarefas de ajudar no lote, ordenhar vacas e outras atividades demandavam muito tempo dos alunos e, com isso, não sobrava tempo para que fizessem as lições escolares. “Lá na comunidade, quando o estudo  interfere no trabalho, ele acaba ficando de lado”, conta Flávia. Por exemplo: em época de colheita, os adolescentes costumam faltar por diversos dias, o que requer da escola adaptação a esse processo, com remarcação de provas e entregas de trabalho para não prejudicar os estudantes.

Consciente das dificuldades, Flávia inscreveu seus alunos na Olimpíada de Língua Portuguesa. Mas, sabendo que, ao final, somente um aluno representaria o colégio, eis que surgiu uma inquietação: e os demais estudantes? Como valorizar também o trabalho deles? A partir desse questionamento, a professora propôs a eles uma pesquisa na comunidade sobre as histórias vividas por seus familiares no lote, com o objetivo de produzir um livro com todas elas. Como um dos gêneros estabelecidos pela competição é o de “memórias literárias”, os jovens participariam da olimpíada e também teriam suas histórias registradas em um livro.

Mesmo não sabendo como seria, Flávia considerou importante que os estudantes escrevessem textos sobre eles mesmos, pensando em suas trajetórias no lugar em que vivem e, assim, relembrando e retomando as suas próprias histórias.

“Sempre tinha um aluno que falava: ‘Nossa,  professora, meu avô contou coisas que eu nem sabia que tinham acontecido… coisas que ele nunca havia comentado’, o que me surpreendeu’”, relata.

Após finalizada, a obra produzida pelas turmas de Flávia foi disponibilizada na biblioteca da escola. Um orgulho coletivo.

“Alguns textos ficaram muito bem escritos, outros um pouco menos, mas eu ficava orgulhosa ao comparar o primeiro texto de cada um deles com o último, porque eu vi que cada aluno conseguiu evoluir dentro da própria dificuldade”, aponta ela.

Colégio Estadual José Marti

Destaque

Depois de aproximadamente dois meses de preparação com as turmas para a Olimpíada de Língua Portuguesa, uma finalista saiu justamente daquela escola. Com “Um segredo revelado” a aluna da 8º série do Ensino Fundamental Valdirene Prestes Santos foi premiada no gênero “memórias literárias”, na qual era preciso resgatar a memória de alguém que tivesse relação com a comunidade. Em seu texto, ela narra, com base em uma entrevista com uma trabalhadora rural, a ocupação do MST na antiga fazenda Sete Mil, entre 1997 e 2014, que hoje se tornou o assentamento 8 de Abril e ocupa 40% da área da pequena Jardim Alegre. O texto pode ser lido na página 80 do livro oficial da olimpíada. A escola, que não tinha laboratório de informática, recebeu do projeto o material para a montagem dos equipamentos após a vitória de Valdirene.

Ela, que desde pequena escreve poemas, até hoje se corresponde com a ex-professora Flávia. “Até as mensagens eletrônicas que ela me envia são temperadas com poesia”, afirma a professora.

Flávia conta que, apesar de ter sensibilidade para a escrita, a aluna não tinha em casa  liberdade para traduzir seus anseios em textos. Ela era obrigada a esconder suas poesias, pois o pai não gostava. Para ele, poema era coisa para mandar para “namoradinho” e, caso encontrasse poesias da filha em casa, sua atitude era rasgar ou queimar.

Professora Flávia e aluna finalista Valdirene

A premiação de aluna, sem dúvidas, serviu de trampolim para alguns estudantes galgarem na nova perspectiva, ou seja, acreditarem mais em si mesmo com dificuldades. Mas trabalhar a autoestima deles não foi tarefa fácil, lembra Flávia.

Alguns acham que a vida longe do assentamento é muito difícil e que fazer uma faculdade é algo muito distante deles. “Há uma certa resistência, instaurada alí que precisa ser vencida. Eles se sentem vulneráveis, acreditam não estar preparados para dar vida a seus sonhos”, afirma Flávia. Mesmo assim, pouco a pouco, a professora, cheia de orgulho de seus alunos, transmite a eles a segurança de que precisam e escreve com eles uma história humana e cheia de protagonismo.