Bullying não é brincadeira de criança!

Bullying não é brincadeira de criança!

Rodrigo

17 Setembro 2015 | 17h44

Tirinha

Autora: Gabriela Argolo  Diretora Pedagógica Currículo Português

Houve um tempo em que ações como hostilizar, empurrar, chutar, bater, provocar e insultar eram consideradas brincadeira de criança. Nesse cenário, era aceitável (e esperado) que os conflitos fossem resolvidos às custas da coragem e resistência das crianças vítimas dos valentões. Os mais corajosos arriscavam sua integridade, devolvendo a agressão de forma mais acentuada, acreditando estar impondo respeito e limite. Os mais resistentes (resilientes!) fingiam não ouvir, não entender, deixavam para lá, na esperança de que os agressores cansassem da diversão que praticavam.

O tempo passou, a ciência do comportamento evoluiu e nomeou a perversidade escondida sob o nome de brincadeira: BULLYING. E, neste sentido, hostilizar, empurrar, chutar, bater, provocar, insultar e espalhar boatos passaram a ser considerados atos de agressão e crime.

A escola é o segundo grupo mais relevante na jornada à vida adulta da criança, é o espaço onde ela experimentará as primeiras tensões, dificuldades, desafios que a convivência coletiva acarretará. Por esse motivo, embora saibamos que o bullying não esteja circunscrito a um lugar, por estarmos trabalhando com crianças em processo de formação, será na escola que as crianças, provavelmente, conhecerão o significado desta ação. Por isso, quanto mais a escola estiver preparada para enfrentá-la, mais eficiente será no seu combate.

Todos os educadores concordam que o ponto de partida é a prevenção. Sabemos também que ambientes hostis, competitivos dificultam a construção de relações fraternas e generosas, virtudes que contribuem significativamente para que as crianças possam ver o outro como alguém que as completa. Tarefa difícil, mas condição sine qua non para a formação de crianças mais solidárias e tolerantes, disponíveis para conhecer e aprender com o outro. A escola precisa criar um ambiente em que a competição e a conquista individual não se sobreponham ao companheirismo, à valorização do trabalho coletivo, ao respeito às diferenças. Este é o primeiro caminho.

Outro aspecto importante é estar atento para distinguir bullying de casos de indisciplina. Bullying  implica alguém  que oprime e alguém que é oprimido. E o que não é a opressão se não a usurpação do direito de alguém ao respeito, à segurança, à dignidade, à liberdade, à tranquilidade? A indisciplina tem seu cerne na dificuldade da criança em respeitar hierarquias, regras e limites. As consequências do comportamento da criança indisciplinada, de forma geral, geram prejuízo acadêmico, aplicação de regras disciplinares e distanciamento dos colegas.

A escola precisa estar atenta para identificar conflitos e comportamentos indisciplinados que têm potencial para se desenvolverem para um diagnóstico de bullying. Achar que o recreio é o lugar em que o bullying se desenvolve e acontece não é adequado. A violência tem meios bem elaborados, complexos e sofisticados para se revelar.

Em uma situação de bullying evidente, o combate precisa ser imediato e contundente. Não há espaço para titubeações. Em muitos casos é importante um plano de intervenção, acionando as famílias envolvidas e criando uma rede de apoio e proteção à criança vítima do bullying. De forma geral, cinco aspectos são reveladores de como a escola está preparada para prevenir situações como essa:

– Ambiente sadio e seguro, permeado de relações pautadas no respeito, companheirismo e na troca de experiência;

– Currículo amplo, que contemple a formação crítica dos alunos a favor das diferenças;

– Projetos em que a temática seja constantemente discutida com os alunos;

– Procedimentos e regras claras no combate a casos de bullying;

– Equipe pedagógica – gestores e professores – bem formada e preparada para atuar na formação integral do aluno.

 

Num país como o Brasil, em que as relações são construídas com muita descontração e intimidade, corre-se o risco das situações de bullying demorarem a ser identificadas e coibidas de forma eficiente e responsável. Por este motivo, há de se redobrar o cuidado.

 

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