Período de Acolhimento na Educação Infantil

Período de Acolhimento na Educação Infantil

Colégio Oswald de Andrade

25 Fevereiro 2016 | 16h14

Passagem do âmbito privado para o público, a entrada na escola representa um marco importante no desenvolvimento da criança. Na entrevista para o Blog dos Colégios, a coordenadora pedagógica Ieda Abbud conta como o Oswald entende o período de acolhimento na Educação Infantil.

O que o momento de entrada na escola representa para a criança? Quais as diferenças entre o espaço da casa e o espaço da escola?

Essa passagem do âmbito familiar para a escola representa um marco muito grande no desenvolvimento e no crescimento da criança porque é uma passagem de um âmbito privado, mais reduzido, do núcleo familiar, para o espaço escolar, que é por excelência um espaço público, coletivo, com muitas crianças e adultos. Esse marco representa uma ruptura na vida da criança; é quando ela passa de um estatuto de filho para um estatuto de aluno. Embora a gente lide com esse aluno como uma criança, ele ganha um novo papel social nessa passagem. Esse é um momento marcante não só para as crianças, mas para as famílias também, por isso a gente cuida tanto desse momento.

Quais são as maiores inseguranças dos pais nesse momento?

Principalmente na primeira experiência de colocar o filho na escola, a grande insegurança é a separação, a ideia de ficar longe sem saber exatamente qual é a atenção e o cuidado que o filho vai ter em um espaço que é coletivo. O modelo que os pais têm de cuidado é aquele que eles dão para as crianças e que em geral é uma interação de pelo menos um adulto para uma criança. Imaginar como é cuidar de um grupo de crianças gera uma apreensão, porque não é algo fácil de se conceber a partir da experiência individual doméstica. Cuidar de um filho já parece suficientemente difícil para imaginar que uma professora e uma auxiliar vão dar contar de um número maior de crianças durante um período todo. Tem também outras inseguranças associadas a essa questão: “será que meu filho vai gostar?”, “será que ele vai ter segurança nesse espaço?”, “será que ele vai se alimentar, se não é a alimentação com a qual ele está acostumado?”, “o que eu faço se ele chorar?”, “como fico sabendo como foi na escola se ele não fala ainda?”.

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E como é o diálogo com as famílias nesse momento?

A troca com os pais é fundamental. É bastante importante que eles contem como está a criança em casa, porque essa entrada é um período que mobiliza todo mundo. Tudo é novidade! A criança fica em um estado de alerta mais intenso enquanto ela está na escola, e isso mexe com a rotina dela em casa. Ela pode ter mais sono em horários diferentes, pode ficar mais irritada.

A criança vive essa separação sempre de forma ambígua, porque ao mesmo tempo em que ela quer viver essas experiências na escola, ela também sabe que está perdendo um tempo com a mãe e o pai. Aqui é importante falar do papel do choro, que pode aparecer em diversos momentos, na despedida dos pais, durante o dia em momentos de transição de um espaço a outro, no momento de reencontro com os pais. O esforço em todas essas situações é de compreender o seu significado para apoiar a criança e poder falar sobre os sentimentos que estão em jogo.

Como se dá a permanência da criança na escola neste início? Ela é diferente para cada aluno?

Temos uma ideia de um processo que vai ampliando o tempo de permanência da criança na escola e diminuindo a presença do adulto que a acompanha. A intenção é que ela vá progressivamente se vinculando ao professor, prescindindo da presença física do pai e da mãe no mesmo espaço e que vá conseguindo ficar mais tempo na escola. Esse é um plano geral para esse processo, mas o tempo em que a criança vai ser capaz de ficar sozinha na escola, sem a presença de um adulto de referência e pelo período todo, pode ser bastante variável. A partir da vivência de cada dia, vamos planejando o dia seguinte e avaliando. Isso é bastante personalizado conforme o processo de cada criança, e isso não se dá de forma linear. Não existe uma regra. Cada família é uma, cada criança é uma.

Por que o Oswald nomeia esse período como “acolhimento”, em vez de “adaptação”?

Isso tem a ver com a preparação da escola para essa entrada. Passamos a nomear esse momento como acolhimento porque não é só a criança que vai precisar se ajustar a uma nova realidade, mas a escola precisa se transformar para receber essas crianças. Todas as informações que colhemos na entrevista inicial com os pais, sobre a história da criança, a rotina, as brincadeiras preferidas, são compartilhadas com os professores. Eles planejam uma rotina escolar que vai considerar essas características. No caso dos alunos menores, costumamos preparar muitas atividades na área externa, porque é um espaço mais flexível, que é mais atraente para as crianças e que permite uma diversidade maior de experiências.

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Por que a diversidade de experiências é importante?

Para que a criança tenha opções. Considerando as características da faixa etária de 2, 3 anos, são crianças que precisam de movimentação. A área externa traz muitos desafios corporais, e isso é atraente nesse momento. É um espaço que permite brincadeiras com água, com tinta, com areia. A água é um elemento bastante interessante para essa faixa etária, por ser um recurso importante da brincadeira com o qual a criança se sente bem no ambiente. Já o ambiente interno, onde elas também ficam em alguns momentos, tem um outro lado que é o de uma organização, de um acolhimento, de limites espaciais que também são necessários. Nesses primeiros dias a rotina é bastante flexível para permitir que aqueles que não estão bem na área externa possam ficar num ambiente interno, mais silencioso, mais restrito, que pode trazer mais segurança. É por isso que as salas, especialmente para os menores, são no térreo, perto da área externa, o que permite o uso dos dois espaços ao mesmo tempo.

Qual a importância do brincar nesse momento de acolhimento?

A brincadeira pressupõe algumas condições para acontecer, uma delas é a criança se engajar em uma atividade livremente. Nada que é imposto à criança se configura como uma brincadeira. Muitos momentos envolvem esse livre engajamento. É nesse sentido que o espaço externo é valorizado, porque é onde ela pode se sentir livre para escolher brincar daquilo que ela está precisando brincar. Uma criança que escolhe brincar com água mostra que esse elemento está fazendo sentido para ela naquela fase, naquele dia, e ela vai se sentir bem nessa atividade. Também é importante a presença dos brinquedos trazidos de casa, como um elemento que pode apoiar a criança a fazer a transição da casa para a escola.

Grupo 2 A Bernardo Douek, João Lucas Tatit, Nina Montagna, Pedro Cohen, Otávio Lima e Tom Mendes

Aos poucos, o convite do professor às brincadeiras coletivas vai incitando essa participação de forma prazerosa também, porque já há um vínculo com esse adulto. Quando o professor fala “vamos ouvir uma história na roda?”, eles já sabem do que se trata, por isso ficam mais tranquilos de entrar no grupo. A regularidade da rotina, dessas experiências, vai dando para a criança essa autonomia de conseguir antecipar o que ela vai viver, aprender, descobrir. Nesse primeiro momento o vínculo com o professor e com o grupo é um aspecto fundamental, porque é o que dá segurança para a criança se distanciar dos pais, confiar, experimentar e se arriscar nas experiências que o professor está propondo. Aos poucos esses vínculos vão sendo ampliados, no contato com outras crianças, de outros grupos e idades. E a brincadeira é um elemento central nesse processo.

Pode dar alguns exemplos dessas brincadeiras?

Nas brincadeiras de faz de conta, que remetem ao cotidiano da casa, a criança tem um espaço para expressar seus sentimentos sobre a separação. Ao observar as ações das crianças nessa brincadeira, o professor amplia sua percepção de como a criança está vivendo esse momento. Algumas brincadeiras, em especial para aos pequenos, permitem elaborar emocionalmente e cognitivamente a separação, como é o caso das brincadeiras de esconder e achar, com as crianças ou objetos. Dessa forma a criança irá percebendo e sentido-se mais segura quando vê que as coisas e pessoas desaparecem e depois reaparecem.