Expressão Corporal: encontros com o brincar

Expressão Corporal: encontros com o brincar

Colégio Oswald de Andrade

15 Dezembro 2015 | 16h28

Na última semana de aulas na Unidade Girassol do Oswald, as crianças do G5 fizeram uma apresentação para as turmas de 1º e 2º ano, como finalização do projeto “Circo”. O projeto faz parte das aulas de Expressão Corporal, coordenadas pela arte-educadora Janaína Peresan.

Apresentação do projeto

Apresentação do projeto “Circo” (dezembro/2015)

Na entrevista a seguir, Janaína conta sobre esse trabalho, desenvolvido há quatro anos com alunos do G2 da Educação Infantil ao 1º ano do Ensino Fundamental I.

Quais as intenções das aulas de Expressão Corporal no Oswald?

O objetivo do trabalho de modo geral é o encontro para o brincar. O brincar é o fundamental. Eu vejo muitas diferenças entre brincar que você aprende e o brincar que você apreende. O aprender passa, por exemplo, pelo aumento de repertório. Já o apreender acontece quando uma ação ganha um significado novo para você. O meu trabalho tem sempre essa ideia: não tanto o que as crianças aprendem com as brincadeiras, mas o que eles podem apreender. O objetivo é esse encontro com a experiência.

Como você percebe essa diferença, entre aprender e apreender, na criança?

Consigo sentir o que faz sentido para ela. Isso passa pela alegria, pelo envolvimento. Quando você está envolvido, você se desenvolve. Consigo perceber pelas coisas que as crianças me trazem também. Algumas dizem “Jana, fiz isso em casa”. Ou quando uma mãe fala que o filho não para de cantar uma música que escutou na escola, ou que ele coloca todo mundo na sala e apresenta uma peça, uma brincadeira. A criança também é um sujeito que transmite informações e não só as recebe. Estamos o tempo inteiro nessa troca.

Qual o seu papel nessa troca?

Eu me coloco como uma brincante com eles, não sou uma professora que está lá passando uma ideia uma brincadeira. Eu sou a brincadeira com eles. Meu corpo é um corpo acessível, eu me abaixo para falar com as crianças. Se eu tiver que virar um gato ou fazer uma acrobacia, eu faço. O corpo de uma pessoa brincante tem que ser um corpo com essa potencialidade de recepção e de doação também.

O trabalho de Expressão Corporal é mais individual ou mais coletivo?

Cada ser é único. Mas eu trabalho muito com o coletivo, porque acredito que o indivíduo dentro do coletivo tem uma possibilidade de transformação muito maior. O indivíduo não vai deixar de ser um indivíduo, com todas as suas particularidades e características, só que o poder do coletivo é grande, intenso.

Como são trabalhadas questões como o medo, por exemplo, nas brincadeiras desenvolvidas nas aulas?

A gente sempre trabalha o medo, porque sempre existem esses personagens que estão no imaginário das crianças: a bruxa, o lobo, o tubarão. A criança que teatraliza esse medo tem uma possibilidade maior de se descobrir, de descobrir limites e possibilidades que aumentem sua capacidade de lidar com as dificuldades. Vamos supor que eu vou fazer uma brincadeira, e tem uma criança que morre de medo do lobo. Se eu acreditar que eu sou um lobo, ela também vai acreditar. Lógico que faço isso brincando, então fica um limiar de que eu não sou o lobo, mas estou brincando de ser. Uma das brincadeiras possíveis é a de convidar a criança que tem medo para ser o lobo com você. Ao teatralizar, ela enfrenta esse medo, porque vê possibilidades de lidar com o lobo, por exemplo, a partir de uma outra perspectiva.

Como o trabalho com o corpo contribui para o desenvolvimento da criança? 

É difícil falar sobre isso, porque nós somos corpo. Em uma brincadeira em que a criança que está envolvida, o corpo dela está envolvido. É a presença que importa. Esse trabalho corporal não é metódico, não é linear, existe a brincadeira como provocadora de ações, de relações.

Como você entende que se manifestam, durante a vida adulta, essas experiências vividas na infância?

Acredito que as experiências são para sempre. Uma criança bem assistida, bem estimulada, em um ambiente acolhedor, favorável para a criatividade, para a imaginação, tem possibilidades de experienciar o que o corpo dela pode fazer. Há pessoas que não tiveram essas possibilidades, enquanto crianças, de experimentar tantas maneiras de se expressar, de se movimentar, de se comunicar com o corpo. E em algum momento elas percebem isso, sentem alguma limitação. O que eu quero com as aulas é oferecer possibilidades de a criança se descobrir nesse corpo. Há movimentos que a gente faz e que nunca saem da nossa cabeça, porque o corpo registra, fica na sua memória corporal. Isso ninguém tira de você. É a experiência que te atravessa, que perpetua no tempo, e, se fez sentido para você, já está marcada na suas células, na sua alma, na sua vida.

Os adultos da escola participam desse trabalho de alguma forma?

Sim, muito. Eu provoco os adultos também, as professoras, auxiliares, famílias. Parece que tem um estado em que a gente entra, como adultos, de muito mais rigidez, menos movimentação, em todos os sentidos, não só fisicamente. Falta uma movimentação que é a de se colocar à prova. Vamos ficando adultos e achamos que temos que acertar tudo sempre. Mas quando o adulto que lida com a criança também se coloca à prova, se coloca como um brincante, com possibilidades de errar, ele não está ali para ser um exemplo perfeito, mas para ser um exemplo de ser humano. Entendo que para a criança compreender que o ser humano é diverso, é plural, eu preciso mostrar que também sou. Por exemplo, se eu não gosto de algo, eu falo. Se eu gosto, falo também. É uma questão de estar presente, de ser verdadeira.

No vídeo abaixo, Janaína Peresan conta como são as aulas de Expressão Corporal para cada faixa etária:

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