“Quem naturaliza o insucesso não é educador!”

“Quem naturaliza o insucesso não é educador!”

Natália Venâncio

30 Setembro 2015 | 19h04

 

foto 3 - simpósio   foto 1 - simpósio (002)

foto 5 Lucia Santaella   foto 6 ballet Stagium

Sexta e sábado, 25 e 26 de setembro, foram dias de muito conteúdo no Marista Arquidiocesano. Isso porque o Colégio, em parceria com a FTD Educação, Umbrasil (União Marista do Brasil) e Rede de Colégios do Grupo Marista promoveram o 1° Simpósio Marista de Tecnologia, Educação e Linguagem. Grandes nomes da educação compartilharam seus conhecimentos e suas práticas de ensino.

A abertura do Simpósio ficou ao encargo da coordenadora psicopedagógica Kátia Helena Alves Pereira que refletiu um pouco sobre o cenário no qual nos encontramos: “É o tempo das tecnologias educacionais, das novas possibilidades do saber, dos diferentes espaçotempos da escola (o virtual e o estrutural), da quebra de hierarquia”, afirmou a educadora.

Outra contribuição importante da abertura foi dada pelo Diretor Geral do Arqui, Ascânio João Sedrez. Segundo ele, o fundador da Instituição Marista, Marcelino Champagnat, há quase 200 anos, antecipou a necessidade de utilizarmos os melhores recursos na arte de educar. A frase tratava da seguinte ideia: “Amar as crianças e os adolescentes é dedicar-se totalmente ao seu ensino e empregar todos os recursos para educá-los integralmente”.

Fernando Moraes, gerente de novas mídias da FTD Educação, contribuiu com dizeres sobre a importância que o livro impresso teve na educação, as novas relações com a leitura, com a produção de textos e com as novas formas de escrever. De acordo com Moraes, o tempo entre a escrita e a leitura encurtou. “Em um mundo de telas, dá para lutar contra o clique?”, questionou o pedagogo e Mestre em Tecnologias Educacionais.

A Professora Maria Lucia Santaella, pós-doutora em comunicação e semiótica, extremamente reconhecida e um dos nomes mais esperados do dia, arrancou aplausos da plateia. “O tema geral deste evento é o tema da minha vida. Estudei por anos semiótica, fui aluna dos poetas concretos e, é fato, toda linguagem se corporifica em alguma tecnologia”, afirmou Lucia Santaella.

As mídias locativas – dispositivos tecnológicos móveis – os quais carregamos, ganharam destaque no discurso da Professora. Suas indagações passaram pela criação de conteúdos educativos nestas mídias. “Trata-se de um caminho promissor, estamos falando de integração social (conteúdo e linguagem; letramento e educação). O computador não é uma ferramenta, é uma extensão da nossa inteligência”, acrescentou a linguísta. Segundo ela, demos um salto antropológico e, por conta disso, o ser humano tem de ser repensado. “Agora conversamos por imagens, acabou a soberania da linguagem verbal”.

A sexta-feira acabou em grande estilo com os dançarinos do Ballet Stagium no Salão Nobre. A coreografia “Choros” de Décio Otero e direção de Marika Gidali teve cores, ritmo, alegria e músicas de Pixinguinha, Waldir Azevedo, Catulo da Paixão Cearense, Joaquim Callado, entre outros artistas.

O sábado foi um dia repleto de atividades. Na parte da manhã, houve mesa de debate sobre “Tecnologias de que falamos e o que fazemos das tecnologias em Educação?” com mediação de Marcia Maria Rosa, diretora educacional do Colégio Marista de Chapecó, SC, e com os debatedores João Mattar e Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida; palestra de Patricia Peck Pinheiro, especialista em Direito Digital, sobre segurança na internet. Na parte da tarde, os participantes dividiram-se em 3 eixos. No eixo voltado às novas competências envolvendo a tecnologia, metodologia e a didática, houve palestra com a especialista Vani Moreira Kenski e relatos de experiência sobre “Aula invertida e Blackboard” feitos pelo Colégio Marista Paranaense, de Curitiba; sobre a plataforma para formação de professores de Língua Portuguesa feito pelo CENPEC (Educação, Cultura e Ação Comunitária); e ainda sobre aula invertida por Ivys Urquiza. No eixo das Tecnologias e Linguagens, Roxane Rojo ministrou palestra sobre Novos multiletramentos na escola e houve relatos de experiência do Marista Arquidiocesano sobre a implementação do livro digital no 7° ano do Ensino Fundamental; relato da Escola Villare sobre Luz e Sombra e, por fim,  sobre o uso de WhatsApp pelo Colégio Marista de Londrina. No tema Tecnologias e sociedade,  a especialista Silvia Fichmann debateu   com os cases do Centro Marista de Inclusão Digital (CMID), na cidade de Santa Maria, RS e com o Projeto Imprensa Jovem, da Comunidade Heliópolis.

A finalização do 1º Simpósio Marista de Tecnologia, Educação e Linguagem ficou por conta do Professor José Pacheco, educador, escritor e ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal. O educador não trouxe material pronto. De um modo inusitado, disse que sua palestra seria norteada pelas perguntas da plateia. A primeira foi sobre aula invertida e a resposta foi bastante polêmica: “Andei por muitos lugares nos Estados Unidos e notei, em se tratando de educação, muito marketing, reinvenção de moda ou escolanovismo reciclado.

“O que temos, na grande maioria, são dispositivos pedagógicos ultrapassados. Nossos alunos são do século XXI, os professores do século XX e as escolas do século XIX. Aula não tem fundamento científico, aula não tem fundamento. Temos que sair dos quadradinhos, recusar o modelo do século XIX. Quem naturaliza o insucesso não é educador. Todos os jovens aprendem e, para tal, o professor deve construir um projeto com os alunos”, acrescentou o Professor José Pacheco.

Pacheco termina entusiasmadamente – característica bem marcada deste grande educador, que acredita na possibilidade da aprendizagem por projetos –  dizendo: as tecnologias devem servir para humanizar as relações na escola!

Enfim, dias fortes de reflexões e trocas de experiências. Evento de formação aberta que contagiou muitos educadores despertando o desejo de estudar sempre e mais. Espaçotempo diferenciado e privilegiado para quem ama educar.