Identidade e alteridade no mundo em movimento – o projeto

Colégio Ítaca

21 Agosto 2015 | 12h50

Chimamanda Adichie: O perigo da história única (Parte 1)

 

Talvez nunca, na história do homem, tenham-se compreendido tanto todas as grandes e pequenas diferenças que podem constituir o ser humano, auxiliados que somos hoje pelas ciências diversas que se debruçam sobre o assunto. Talvez, também, nunca se tenha exposto e discutido tanto tais diferenças, quaisquer que sejam sua natureza.  No entanto, tudo isso tem servido pouco (ou, pelo menos, muito lentamente) para que os homens reconheçam genuína e legitimamente a naturalidade de tais diferenças e passem a não temê-las/ignorá-las/rejeitá-las/desrespeitá-las. Nesta contemporaneidade em que há busca constante por liberdade, por emancipação e por alforria, neste mundo em que (quase) todos podem exercitar o direito de sair às ruas, postar na internet ou unir-se para gritar pelo que querem ou não querem, nas mais diversas áreas da vida, como se justifica ainda a intolerância com o  outro, em tudo que ele pode trazer de diferente?  Ah, então, é preciso tolerar e aceitar todas as diferenças, inclusive quaisquer atos perpetrados em nome da religião esta ou aquela, da tradição deste ou daquele povo? Na verdade, quais as raízes dessa intolerância? E seus limites?

Pensando nessas questões  (muitas já discutidas inclusive, em aulas diversas), surgiu o projeto Identidade e Alteridade, com os alunos do Ensino Médio. O foco é a construção das identidades nesse nosso mundo globalizado, entendendo que essas só se estabelecem em relação de alteridade, isto é, o gênero, a etnia, a classe social, a religião etc com os quais nos identificamos só se consolidam a partir daquilo que não somos.

E, inevitavelmente, esse foco se estende também para a discussão de muitos dos conflitos mais atuais do nosso mundo, ligados justamente à questão: o preconceito, por exemplo, como expressão de uma identidade que só se afirma rebaixando, excluindo, oprimindo o outro. A discriminação, as estigmatizações de extração biológica ou social, as violências – simbólicas ou não – passam, em grande medida, por essas relações conflituosas em que identidades hegemônicas, por assim dizer, procuram controlar ou simplesmente suprimir figuras com identidade historicamente subalternas. Diante disso, alguns temas são inescapáveis ao debate: o racismo, a homofobia, o fundamentalismo religioso, o elitismo…

Na palestra O perigo da história única, cuja parte inicial abre este nosso texto e serviu de partida para as nossas primeiras discussões no projeto, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie parte de sua realidade de africana radicada nos Estados Unidos para mostrar como as histórias que se contam no cotidiano podem estar cheias de  determinismos que servem para reproduzir a intolerância e as desigualdades tão gritantes em nosso tempo. Ao mesmo tempo, diz ela, “quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso”. É para se refletir…

O trabalho que se originou a partir daí, em decisão conjunta com os alunos, foi, em princípio, a verificação das marcas da construção cotidiana de possíveis “histórias únicas”, observando-se a mídia em suas mais diversas editorias (como cultura, comportamento, economia, política, ciências…). Posteriormente, grupos de estudantes, unidos por interesse e não por turmas ou séries, produzirão artigos de opinião, noticias, charges, reportagens que comporão um jornal (Jornal Movimento ou Mundo em Movimento) para ser veiculado em toda a escola e também distribuído às famílias (inclusive com uma versão online). No percurso, já estão (re)descobrindo que, como nos dizia o pedagogo Paulo Freire, ao contrário do que nos contam como destinos inevitáveis, “o mundo não é, ele está sendo”. É preciso ver/sentir/entender esse mundo mais amplamente.