Uma geração tarja preta: a medicalização das diferenças

Colégio FAAP

22 Janeiro 2016 | 10h07

Se o sapateiro não deve ir além da chinela, isso não o impede de ter opinião quando, sob muitos aspectos, é chamado a participar.

Com essa justificativa, nós educadores, que não somos terapeutas, ou médicos, nos damos pleno direito de indagar, de forma crítica, essa onda de jovens enquadrados em diagnósticos cada vez mais sofisticados e, em sua maioria, submetidos a drogas que passaram à categoria de “material escolar” pela frequência com que jovens são, com elas, medicados: hiperativos, disléxicos, portadores de déficit de atenção, de síndrome do pânico, de depressivos e mais algumas síndromes de difícil nomenclatura, criaram uma geração que caminha, perigosamente, à beira da morbidez.

Negar os avanços das ciências em sua capacidade de identificar distúrbios fisiológicos ou psicológicos, além de rematada ignorância, seria cegueira imperdoável naqueles a quem cumpre se armar de todos os instrumentos para encarar os desafios de educar nestes tempos de imponderabilidade. Porém, desconfiar de excessos, sobretudo quando os mesmos podem comprometer com alguma gravidade vidas é uma obrigação de famílias e educadores, até mesmo para  reforçar ou amenizar os parâmetros das condutas clínicas.

Nunca é demasia insistir sobre a consciência que temos da evolução das metodologias científicas para a criação de protocolos que forneçam aos terapeutas segurança para os seus diagnósticos, mas jamais será descabida a preocupação com os equívocos de comprometimentos: se não tratar um jovem é uma monstruosidade, não será menos desumano submetê-lo, sem uma grande margem de segurança, a drogas de efeitos psicotrópicos.


Nós que temos décadas de “estrada” na educação, nos obrigamos a um exercício diário e cada vez mais delicado de análise comparativa do perfil de nossos jovens, no contexto de sua própria história: em tempos profundamente mais conturbados e complexos, a experiência anterior deve ser submetida a criteriosa análise para não nos conduzir a posições reacionárias a priori.

A partir dessas preocupações, é que nos damos o direito de acusar os excessos que “medicalizam” comportamentos os quais, muitas vezes, apenas fogem do desejável: ou por excesso de zelo, ou por consciência de culpa, ou modismos, as famílias amplificam desvios próprios da idade, mas estranhos às suas experiências de vida. Efetivamente, o contexto atual de nossa civilização exige, como nunca, cuidados especiais para com os jovens que, efetivamente, podem necessitar de apoio terapêutico. O que nos leva a estas reflexões são os inúmeros casos que chegam às escolas, amparados em complexos laudos e, após a cuidadosa inserção em uma cultura de cordialidade, se libertam dos comprimidos: em classes pouco numerosas, trabalhadas lideranças e sociabilidade dos grupos, com professores atentos e dedicados, aquele que parecia um “aluno problema” mostrou como atenção e compreensão ainda são os mais eficazes remédios para muitos comportamentos fora dos padrões.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

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