Reflexões sobre a bipolaridade paternal dos “netos de Woodstock”

Colégio FAAP

05 Janeiro 2018 | 13h51

Para abrir esta reflexão, nada mais obrigatório do que um mea culpa: se questionarei algumas atitudes dos “netos de Woodstock”, como denominei os nascidos nos anos setenta, faz-se necessário dizer que são eles produtos da nossa educação.

Descabida a discussão sobre a necessidade de pais e mães trabalharem e não é dessa condição que decorrem os problemas que apontaremos. Preocupa, e muito, as notícias que nos chegam, através dos adolescentes, de certas atitudes incoerentes e desconcertantes de alguns pais e que refletem de forma muito negativa nas famílias.

Em posts anteriores mencionamos o excesso de zelo de alguns pais que, por certo sentimento de culpa, protegem em demasia seus filhos como forma de compensar esse absenteísmo inelutável de nossos dias. Esta seria, a nosso ver, uma das polaridades apontadas que, nos casos mais agudos, gera uma linha de produção de jovens inseguros e de socialização muito difícil, dentre outras sequelas.

Há que se mencionar que esse protecionismo excessivo, muitas vezes, é usado como fator de atenuação de outra atitude polar, o abandono dos filhos justificado pelo direito dos pais serem felizes e, aqui, o fel da situação nos queima a boca e a consciência. Tem sido mais frequente do que poderíamos suportar, famílias desfeitas e filhos semiabandonados pela justificativa de que “todos têm  direito à felicidade”. Atitude de gritante egoísmo que, em fatos menos agudos do que o abandono, se manifesta num espectro de descasos e descuidos da família.

O busílis dessa questão é o das responsabilidades da paternidade que, ao que parece, ficam, mais e mais, relegadas a um plano inconsequente: por mais multifacetadas que sejam as atuais conformações familiares, nada justifica o crescente desinteresse pelos filhos. Parece que está se insinuando um perigoso modismo: receber os bebês como encantados objetos de consumo e preteri-los na adolescência quando os desafios da educação obrigam os pais a um engajamento mais intenso e complexo.

Mesmo que alguns leitores, se é que os tenho, se melindrem com tais considerações, relembro que seria uma “tendência observada”, que preocupa, pelo crescimento. Além disso, a dedicação extremosa de outras famílias aos filhos faz com que a comparação torne ainda mais agudo o comportamento do polo oposto.

É muito provável que a nossa “geração de Woodstock” não tenha dado o exemplo proporcional ao seu discurso quanto aos deveres inalienáveis da felicidade dos filhos em prioridade da dos pais. Meus detratores, com razão, dirão que pais infelizes não criam filhos felizes, mas isto não significa felicidade de uns apesar da dos outros.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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