Critérios de avaliação: as ameaças da ditadura da caneta vermelha

Colégio FAAP

01 Dezembro 2017 | 18h57

Há sessenta anos, vivendo em escolas, nunca consegui superar minha preocupação com relação a critérios de avaliação: instrumentos de aprovação ou reprovação de seres humanos.

Dirigindo um Colégio que, desde o seu nascedouro, sempre se pautou pela avaliação do estudante como um todo em desenvolvimento, nos damos conta de que isso só tem sido possível graças a um corpo docente e pedagógico de excelência que sempre superou as antigas permanências rançosas das avaliações cartesiano-aritméticas que assombram a educação.

O mais difícil é mostrar aos leigos que, para o cumprimento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e na busca do melhor pedagógico, o que deve ser considerado, é o desenvolvimento global do estudante, e saber se, apesar das notas, ele, ao final de um período letivo, reúne condições de seguir seus estudos em etapa superior.

Tal análise de desempenho escolar só é possível nas instituições onde o aluno é constante e cuidadosamente observado; onde a sua individualidade, dificuldades e potenciais sejam considerados; onde todos os seus esforços de crescimento sejam acompanhados e computados, enfim, onde o seu crescimento global e intelectual como ser humano seja o fator essencial de avaliação e não a mera e falaciosa indicação da retenção de conteúdos.

Como o mais pernicioso corolário dessa síndrome avaliativo-aritmética, temos a neurose dos décimos de nota. Chega às raias do ridículo, assistirmos educadores discutindo décimos de nota para considerar um aluno aprovado ou não, como se a caneta vermelha fosse a espada da justiça inequívoca.

Num “esforço acaciano”, tentou-se substituir as avaliações aritméticas por conceitos, mas como o princípio ficou inalterado, os “sábios da educação” logo numeraram os conceitos fazendo com que o inferno se lotasse de mais algumas boas e inoperantes intenções.

Reforço: tentar quantificar o desempenho humano sempre foi uma das mais arriscadas, inadequadas, imprecisas e perigosas tarefas. Sempre foi causa de distorções de muito difícil correção e de consequência nefastas. Reprovar um aluno por décimo de ponto é um verdadeiro crime contra a humanidade.

Qual professor admitiria que sua aula fosse avaliada de zero a dez com duas casas além da vírgula? Que ser humano pode ser juiz solitário de um destino jovem?

Daí a importância vital dos conselhos de classe para uma avaliação global e a menos enviesada possível.

Terminaria – este artigo – parafraseando um provérbio árabe: se Deus julgasse os homens como certos professores, estaria sozinho no paraíso.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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