Cavernas eletrônicas e os trogloditas digitais

Colégio FAAP

25 Janeiro 2018 | 14h00

É aconselhável que, antes de abordar este tema, me obrigue a assumir minha condição de “tecnorresistente” confesso, mas reativo à minha própria condição: sou de uma geração que, apesar das resistências ao fetichismo tecnológico, se curvou com dificuldade às suas vantagens.

Já entenderão esse introito estranho. Poucas coisas são mais incômodas, desagradáveis, deselegantes, impróprias e inadequadas do que, estando num grupo, enfrentarmos uma reunião de digitadores nos excluindo sem nenhum pudor e, nunca é demais ressaltar, sem diferenças de idade, raça, credo ou orientação sexual. Lamentavelmente!

Antes que alguém diga que essas são as ferramentas irrecusáveis da pós-modernidade, me permitam algumas questões essenciais.

No que esse enclausuramento virtual melhorou as relações humanas a ponto de evitarmos o próximo quando, de fato, ele está próximo?

Apesar de reencontrarmos nas redes sociais pessoas de há muito distantes, o quanto o reencontro passou de informações saudosistas, que findaram em comentários banais e que pouco acrescentaram em termos de riqueza humana?

Desde quando a falta de atenção ao próximo presente deixou de ser grosseria? Se, ao invés de um celular, fosse aberto um livro ou jornal, haveria o mesmo beneplácito ao mal educado?

Em que medida os outros são obrigados a tolerarem interferências externas e constantes em nossas conversas, como se outros assuntos fossem, sempre, mais importantes do que nossa conversa?

Penso que todos temos respostas óbvias e comuns a essas questões. No entanto, condenamos os mais jovens quando, seguindo os exemplos dos mais velhos, repetem tais padrões de comportamento. Não são poucas as vezes que assistimos pais repreendendo seus filhos por não lhes darem a atenção desejada.

Fico especialmente aguilhoado quando presencio pais repreendendo seus filhos por não prestarem atenção às aulas quando, muitos desses mesmos pais, em nossas apresentações, consultavam, sorrateiramente, suas mensagens.

Enquanto uma civilização continuar a preterir o próximo em favor de dispositivos eletrônicos fica muito difícil justificar o uso das incríveis possibilidades da tecnologia.

Se não quisermos uma geração de trogloditas digitais, há que desligarmos nossos celulares e recriarmos o diálogo humanamente desejável e insubstituível.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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