As perguntas que os alunos nos fazem e o que fazemos com elas

Colégio Equipe

01 Dezembro 2015 | 09h00

Em texto publicado neste blog, relatamos uma experiência de alunos do 7º ano num trabalho de campo. (link)

Naquela oportunidade, demos ênfase à abordagem dos trabalhos de campo no Colégio Equipe, sobretudo nos que diz respeito à metodologia de ensino. Deixamos indicado naquele texto que os alunos do 7º ano, ao realizarem entrevistas com pessoas que encontravam de forma aleatória no centro da cidade de Santos, haviam percebido que muitos de seus entrevistados apresentavam baixo nível de escolaridade. Em alguns casos, nível mais baixo que a escolaridade que eles já têm. Esse fato os intrigou e fez com que os educadores do colégio destinassem tempo didático para que eles encontrassem as razões daquilo que notaram com suas pesquisas ser um problema social. Vejam como os alunos relataram esse processo.

1O uso dos registros no campo

Com o Colégio Equipe, em um trabalho de campo cuja questão problematizadora era “Santos: porta aberta para quem e para onde?” realizamos visitas a locais históricos importantes para fazer registros que seriam usados nas aulas. Um desses registros foram entrevistas com pessoas que estavam na Praça Mauá localizada no centro histórico da cidade.

2Entrevistadores e entrevistado na Praça Mauá

Nos trabalhos de campo do colégio, todos os dias, à noite, realizamos uma plenária que tem como objetivo socializar os registros realizados no dia. Ela é dividida em três momentos: no primeiro, em grupos, compartilharmos e discutimos as respostas das atividades do dia; no segundo, nos mesmos grupos, respondemos questões propostas pelos professores e, no terceiro, com todos reunidos num auditório, compartilhamos as respostas dessas questões.

3Socialização em uma das plenárias

Durante a socialização das atividades do segundo dia – dia em que fizemos as entrevistas -, reparamos que a maior parte dos entrevistados tinha baixa escolaridade, fato que nos chocou, pois esperávamos que pessoas mais velhas que nós tivessem escolaridade mais alta. Durante as entrevistas, tivemos vontade de saber se isso afetava a qualidade de vida dos entrevistados, mas não perguntamos, pois não sabíamos como. Isto porque achamos que poderíamos constrangê-los.

4Alunos durante as entrevistas

Depois que voltamos do trabalho de campo, analisamos os dados das entrevistas e produzimos gráficos sobre o perfil dos entrevistados. Com isso verificamos que a hipótese de que a escolaridade deles era baixa se confirmava. Então, surgiu uma nova questão: por que a escolaridade deles é tão baixa? Com isso em mente e com a ajuda de Mariana Doneux, nossa professora de Projetos, marcamos uma entrevista com Ausonia Donato, diretora pedagógica do Colégio Equipe, que é especialista em educação e saúde pública.

Para fazer a entrevista, elaboramos individualmente perguntas que seriam feitas para Ausonia. No dia 26 de agosto, nossa entrevistada veio à sala de aula para conversarmos sobre educação em Santos e no Brasil. Como aprendemos muito com nossa entrevista, resolvemos escrever este texto para ser publicado. Assim, pensamos que os leitores poderão ampliar também seus conhecimentos sobre educação.

A relação entre escola e o mundo do trabalho foi um dos temas conversados. Queríamos saber um pouco mais sobre pessoas que abandonam a escola ainda quando crianças. Ausonia nos disse que muitas crianças abandonam a escola para trabalhar e ajudar os pais que não têm condições de sustentar a família. Nossa hipótese é que isso ocorre principalmente nas regiões mais pobres do país. Quando se tornam adultas essas pessoas não conseguem bons empregos, pois não têm um bom currículo e acabam trabalhando em serviços menos qualificados e com baixos salários. Nas entrevistas que realizamos em Santos notamos que algumas pessoas com baixa escolaridade trabalhavam, por exemplo, como auxiliares de limpeza. Conseguimos com isso perceber como pode ser o futuro de algumas pessoas que abandonaram a escola no passado.

5Ausonia Donato em sala de aula

Ausonia nos contou que Neidinha, sua empregada doméstica, sempre teve vontade de estudar, mas nunca teve chance quando criança, pois desde cedo precisou trabalhar. Na casa de Ausonia, há uma estante cheia de livros e Neidinha sempre se encantou com eles. Resolveu então procurar uma escola para aprender a ler. Ela se matriculou em uma escola pública, mas não aprendeu a ler como havia sonhado. Hoje, Neidinha têm dois filhos, um deles está na segunda série do Ensino Médio e outro foi reprovado, sem saber o motivo, na primeira série do Ensino Médio. Até hoje Neidinha fica bem triste por não ter tido um ensino de qualidade.

Mas, então, como melhorar a educação? Ausonia nos disse que existe uma lei que garante a todo ser humano o direito à educação, porém essa lei não é cumprida integralmente e um dos exemplos disso é a falta de escolas. De acordo com nossa entrevistada, os colégios poderiam ser mais atraentes, valorizar os professores e ter alunos motivados, transporte para levar e buscar os alunos de suas casas, etc.

Ausonia nos contou de experiências bem sucedidas. David Capistrano da Costa Filho, que foi secretário de Saúde em Santos, realizou muito bem seu trabalho em hospitais públicos do Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, ele acabou sendo eleito prefeito da cidade e seu mandato foi de 1993 a 1996. Quando era prefeito, Capistrano soube que naquele ano 50% dos alunos de uma escola pública haviam sido reprovados. Decidiu investigar o problema da seguinte maneira: perguntou aos professores dessa escola o que havia acontecido e eles lhe disseram de suas dificuldades para ensinar. Como solução para esse problema, ele decidiu contratar professores para dar aulas extras nas férias, pessoas que tivessem dispostas a enfrentar o desafio de ensinar aqueles que não tinham aprendido. Para escolher os professores era feita a seguinte pergunta: “o que vocês acham dos pais dos alunos que foram reprovados?”. Se a resposta do candidato à vaga contivesse algum tipo de preconceito, ele não seria convocado, pois educação não combina com preconceito.

Lembrar da história de David Capistrano fez Ausonia nos contar sobre a relação que há entre pessoas de baixa escolaridade, baixa renda e baixa saúde. Segundo ela, aqueles que têm baixa escolaridade acabam tendo dificuldade em conseguir um emprego com bons salários, fixo ou não. Pessoas com baixa escolaridade também são com frequência não alfabetizadas, assim sendo, não conseguem ler, por exemplo, os panfletos distribuídos em postos de saúde com o objetivo de prevenir doenças. Por isso são mais vulneráveis a contrair doenças com mais facilidade.

Ausonia nos contou, também, uma experiência muito tocante. Quando ainda era estudante realizou uma entrevista com duas crianças de 7 anos não alfabetizadas, moradoras de lugares diferentes da cidade. Uma de suas perguntas foi: “o que é uma surpresa para você?”. A resposta para a criança de classe alta foi: “surpresa para mim é quando meu pai me leva para nosso sítio”. Já para a criança de classe mais baixa, a resposta foi: “surpresa é quando meu pai volta para casa e traz pão”. As respostas tão diferentes dessas crianças emocionaram muito nossa entrevistada.

Aprendemos com as entrevistas que realizamos em Santos, com a análise dos dados e com a conversa com Ausonia Donato que a educação em Santos e no Brasil precisa melhorar muito para que a qualidade de vida das pessoas também melhore.

Acesse o site de nossa revista: http://www.colegioequipe.g12.br/revistaEletronicaSantos/2015/

6Alunos do 7º ano 2015 do Ensino Fundamental II

Celina Fernandes
Orientadora Pedagógica e Educacional, foi escriba do texto coletivo.