Construção da subjetividade na adolescência: havia um Blog no meio do caminho

Construção da subjetividade na adolescência: havia um Blog no meio do caminho

Colégio Bandeirantes

17 Agosto 2015 | 07h21

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Nesses versos do conhecido poema “Procura da poesia”, Carlos Drummond de Andrade ensina que o aspirante a poeta deve ingressar no mundo da palavra, pois só a intimidade com ela conduziria à expressão poética.  A partir desse ensinamento de Drummond, gostaria de propor aqui uma reflexão sobre a hipótese de um movimento contrário: o que fazer quando o mundo das palavras é que nos penetra? O que fazer quando somos invadidos por elas, barulhentas, agitadas, chocando-se umas contra as outras?

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Apropriar-se da linguagem verbal é próprio do ser humano. Mas se existe uma fase em que tudo o que parecia sedimentado se agita, para se ressignificar, via de regra, de forma turbulenta, essa fase é a adolescência.  Se é verdade que ser humano é sentir-se visitado pelas palavras, mesmo sem tê-las convidado, ser adolescente é sentir-se num labirinto de espelhos sonoro, com perdão da sinestesia, pois elas, as palavras, vêm de todos os cantos. É sentir-se no epicentro de um mundo polifônico ao se ouvirem discursos de forma sistemática, às vezes conflitante: o dos pais; o da escola; o de cada professor; o dos amigos; o dos meios de comunicação – muitas vezes, sem conseguir parar para ouvir o próprio discurso. Ou sem ter a oportunidade de encontrá-lo, de criá-lo.

A busca por um discurso, que é a busca pela subjetividade e pela identidade, é uma das experiências mais intensas da fase adolescente. “O que eu penso, afinal? Que opinião tenho sobre esse assunto? Como me expresso, no mundo? Como – e qual – é minha voz? O que tenho a dizer, e como o farei? Por que quererão – ou não – me ouvir?”

É nesse momento que costuma ocorrer uma invasão do jovem pelo “reino das palavras” de que a Poesia se constitui. Se é preciso uma ideia, há várias. Se é preciso lápis e papel, ou um teclado qualquer, há muitos deles, invariavelmente à mão (mais este que aqueles). Ainda assim, faltará organizar as palavras de modo a dar forma ao que é caos, matéria em estado bruto, amorfa. Os versos virão, então, ao socorro. Reunirão a necessidade de dizer “eu” à pausa para a reflexão. Esta, por sua vez, será necessária para que se encontre, nos recursos desse “dispositivo móvel” que é a linguagem, o meio de expressar esse universo subjetivo tornando-o minimante objetivo, acessível ao mundo exterior. Garantidos o “eu” e o encontro consigo mesmo; o teclado do celular; a reflexão e a seleção de palavras capazes de fazer do caos um cosmo qualquer, faltará ainda algo: o onde. Onde se “expor cruamente”, para usar as palavras do poeta? Como levar as palavras a um outro, para que elas não sejam apenas signos escritos ou digitados? Como afirma Sartre, o objeto literário é “um estranho pião, que só existe em movimento. Para fazê-lo surgir é necessário um ato concreto que se chama leitura, e ele só dura enquanto essa leitura durar. Fora daí, há apenas traços negros sobre o papel.” O sentido do texto, e o próprio sentido de se escrever só se completa com a leitura de um outro.

É aí que entra em cena um Blog como suporte. Sem avaliação, sem nota, sem tema pré-definido, sem regras. “Posso escrever sobre o que eu quiser?” “Pode”.  E lá está o texto publicado no Blog, acessível à comunidade (aos pares, professores, funcionários, diretoria, pais…) e, como tudo o que cai na rede, acessível a realidades transoceânicas.  No Colégio Bandeirantes, esse Blog é o Palavrarte, criado em 2012 pela equipe de Português e nascido da sensibilidade de professores que há muito vinham percebendo a necessidade dos alunos de expressarem, para além de textos acadêmicos, sua subjetividade e seu senso estético, ambos confluentes na literatura, de modo amplo, e na poesia, de modo específico.  Quando se tem a certeza de um meio e de um público leitor, escrever “o que vem à cabeça” ou o que se sente vai muito além de um exercício subjetivo: é exercício linguístico, portanto, intelectual e artístico, já que envolve escolha e disposição de palavras; exploração da expressividade; investigação de possiblidades estruturais; tratamento lúdico de elementos visuais e sonoros e todo um horizonte de possibilidades de recepção do texto.

O Palavrarte, cujo nome deriva justamente desse uso artístico e subjetivo da palavra, é trabalho coletivo na mais pura acepção da palavra, uma vez que sua existência se garante pela colaboração de alunos, professores e funcionários. As publicações vão desde atividades desenvolvidas em aula (projetos, prática dos mais diversos gêneros de texto) até as participações voluntárias e de tema livre, que englobam não só o texto escrito, mas também vídeos e música. Para atender a essa diversidade, o Blog possui várias seções, dentre as quais se destacam “Na sala de aula” e “Prata da casa”, respectivamente destinadas  a atividades relativas a conteúdos trabalhados na disciplina – ou até mesmo interdisciplinares – em todas as séries do Ensino Fundamental II e do Médio e às produções livres de alunos, professores e funcionários. Sim! Porque o Palavrarte proporcionou a descoberta de muitos talentos poéticos entre professores de diferentes disciplinas e entre funcionários, particularmente entre os inspetores do colégio, alguns dos quais se revelaram visceralmente poetas. A divulgação dos textos fica por conta da página do Palavrarte no Facebook, que tem quase 1.300 seguidores.

O Palavrarte, para além da publicação e divulgação de textos da comunidade, tem promovido eventos que já são ansiosamente esperados. Um deles é o concurso anual, voltado para os terceiros anos, em que o tema dos textos é o poeta Fernando Pessoa. Mais uma vez, a ideia nasceu da experiência. Sempre percebemos como o estudo da obra desse poeta diz muito aos alunos. O apelo estético de sua poesia e, sobretudo, o convite à reflexão, o questionamento a que levam as provocações da heteronímia vinham se mostrando, há muito, fonte de inspiração ao levar alguns alunos a espontaneamente produzirem textos sobre o poeta português, ou poemas “à Fernando Pessoa”. Criamos então o concurso, promovido, divulgado e premiado pelo Blog. As três edições do concurso surpreenderam pela profundidade e originalidade dos textos, que se apresentaram nos mais variados gêneros, de poema e crônica a cartas, e-mail e até conversa em grupo de whatsapp.

Outro evento promovido pelo Blog é o sarau de despedida dos alunos do terceiro, ao final do ano.  Numa época de dúvidas, pressão, cansaço, calendário de exames vestibulares, esse sarau é uma oportunidade de repousar, por um momento, na gratuidade, no exercício lúdico e estético da leitura de poemas, da música, das homenagens a colegas e professores.

O orgulho do Palavrarte, do trabalho feito em equipe e da disposição de toda a comunidade para movimentar o Blog são os motivadores desse artigo, nascido também da intenção de compartilhar uma gratificante experiência de escrita, de liberdade, de espaço para a expressão de quem quer que se sinta visitado pelas palavras, especialmente dos adolescentes em busca de seu discurso, vale dizer, de seu “eu”. A partir dessa experiência, percebemos que podem as palavras visitar os adolescentes, pois serão bem-vindas: como bem-vindos serão seus textos no Palavrarte.

Marise Hansen
Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes