A pergunta é inspiração para aula

A pergunta é inspiração para aula

Colégio Bandeirantes

18 Junho 2015 | 09h23

Em 2010 uma jornalista me perguntou o que é que eu fazia bem em sala de aula. E eu respondi sem pestanejar: perguntas! Ela pediu para assistir a duas aulas minhas para ver como eu fazia as perguntas e eu permiti. Na matéria que saiu pouco depois na revista para a qual ela trabalhava, havia referência ao livro Aula Nota 10, que estava sendo lançado. O meu jeito de fazer perguntas na aula, verificado pela jornalista, podia ser tomado como exemplo de aplicação das técnicas descritas na obra. Outros professores, entrevistados por ela, também foram citados como exemplos de profissionais, que desconheciam o livro, mas que empregavam algumas das técnicas que eram ali apresentadas. Claro que comprei o livro e verifiquei com alegria que havia muita coisa que eu já praticava e outras que achei muito úteis e que, de imediato, comecei a usar. Recomendo sempre que posso para quem é professor.

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imagem: Júlia Aluotto de Oliveira

Cabe esclarecer: a segurança na resposta que dei para a moça, “perguntas!”, não foi resultado de algum talento inato. Os cuidados ao preparar cada aula e respectivas perguntas, ao longo de alguns anos de magistério, me deram mais confiança e tornaram minhas aulas melhores do que aquelas do início de minha carreira.

Preparação é tudo. E acredito que as perguntas são a alma de uma boa aula. É por meio delas que o professor sabe se o aluno está entendendo a matéria; são elas que dão a base da interatividade entre professor e classe, são elas que tornam a aula interessante e é da resposta errada ou incompleta que nasce a verdade, o esclarecimento e o aprendizado.

Há em uma pergunta dois aspectos: um é o técnico, que diz respeito à qualidade da pergunta; outro é o modo como ela é enunciada. Ambos são indissociáveis e devem ser sempre motivo de atenção e de cuidados para se alcançar a reciprocidade dos alunos e o sucesso da aula. Às vezes não paramos para analisar criteriosamente como fazemos as perguntas. Por isso mesmo,gostaria de fazer alguns comentários que, espero, possam servir para qualquer matéria.

Nunca faça a pergunta para a turma toda (agradeço ao Guilherme, que é professor de Geografia no Band e me deu essa dica quando eu estava começando). Porque é claro que todos responderão ao mesmo tempo. Imagine isso em uma sala com 40 ou 50 alunos: o professor não entenderá vários respondendo simultaneamente coisas diferentes; os alunos que não estavam entendendo o assunto ficam mais confusos; alguns vão dar risada e tirar o foco da aula e sempre vai ter aquele aluno que vai reclamar: “eu disse a resposta e o professor não me ouviu”. Pode parecer óbvio, mas não é: faça a pergunta, aguarde um segundo e, individualmente, chame um aluno. Por exemplo: “Quais seriam as medidas necessárias para o cálculo do volume da pirâmide… (espere um segundo) … João? O segundo de espera tem o efeito de prender a atenção dos alunos, pois cada um fica na expectativa de ser ele o aluno que vai ser chamado para responder.

A pergunta tem que ser, antes de mais nada, um convite ao diálogo. Portanto, a entonação tem que ser normal, sem dar ênfase a uma ou outra palavra, sem ter um tom muito grave ou sério. Penso que o tom tem que ser amistoso, quase como aquele de quem está perdido e precisa de uma informação. Não acho correto a pergunta adquirir o caráter de desafio ou de ameaça como, por exemplo “Vamos ver se vocês sabem…” ou “Aposto que ninguém lembra de…” Claro que há contextos e contextos e por vezes essas “ameaças” são alguma brincadeira com a turma. O problema é quando a turma não entende que é brincadeira (ou então a ameaça é de verdade!).

Não se deve dar dicas disfarçadas na pergunta. Por exemplo: o professor pergunta: “Então esse movimento é perió… ó… ó…” e a turma emenda “…DICO!”. Apesar de concluírem corretamente, não é possível afirmar que a turma entendeu. Contraexemplo: o professor desenha um retângulo na lousa e pergunta para o João que polígono é aquele. Reparou? O professor sequer menciona que é um quadrilátero. É um bom modo de perguntar, porque o João pode responder que é um quadrilátero, o que não está errado, apenas incompleto. E isso também é bom, porque o professor pode fazer outras perguntas para completar a resposta: aquele quadrilátero tem algo de especial? O que se pode dizer sobre os lados dele? E se desenharmos os segmentos que ligam os vértices opostos? Epa, o que é vértice? Etc.

Na minha opinião, é aqui que o professor colhe os frutos de seu esforço, pois é nesse ponto que se percebe a preparação da aula, um trabalho solitário, feito nos bastidores e que a maioria das pessoas acha que é simples, mas que exige dedicação. Aqui fica evidente o quanto o mestre esmiuçou o assunto e, portanto, sabe para onde seguir. São nessas perguntas que ele mostra começo, meio, fim e propósito daquele assunto, com exemplos, contraexemplos e perguntas que vão alinhavar toda a aula. Isso exige estudo, preparação, resolução de exercícios, problemas, análise de diferentes bibliografias, diferentes definições e abordagens de um mesmo tema, etc. Essa é a verdadeira arte: o professor tem que saber bem mais do que aquilo que está ensinando.

Não use uma pergunta para advertir um aluno. Se o aluno está distraído, mexendo no celular ou fazendo alguma outra coisa e você tem certeza de que ele perdeu o ponto importante da explicação, não adianta perguntar coisa alguma para ele. Você sabe: ele não vai acertar, vai responder alguma bobagem, a turma vai dar risada e pronto, lá se foi o foco da aula. Dá trabalho, mas o caso é que você precisa chamar a atenção dele, ou conversar com os responsáveis por ele em outro horário. Na aula, acho que concordamos, é inútil e, mais do que isso, contraproducente.

Não classifique suas perguntas como fáceis ou difíceis. Se você disser “Vou fazer uma pergunta fácil” e o aluno acertar, ele vai achar que não teve mérito porque, afinal de contas, a pergunta era fácil. Se ele não souber responder, pior: vai desanimar e achar que não vai entender a matéria, porque não conseguiu nem acertar a pergunta fácil! Faça a pergunta, como dissemos antes, em tom normal, como se estivesse batendo um papo, esclarecendo uma dúvida, ou participando de uma conversa entre amigos.

Dê tempo para que os alunos respondam. Ou seja: não pergunte e dê a resposta logo em seguida. Vivemos apressados e estamos sempre “na correria”. Acontece que os estudantes precisam de tempo para refletir, analisar e elaborar a resposta, porque o assunto é natural para nós professores, que já o estudamos a fundo, mas representa total novidade para os alunos. Portanto, temos que controlar a ansiedade e conduzir o diálogo.

Não se conforme se o aluno disser simplesmente “não sei”. Não à toa, essa é a primeira recomendação do livro que mencionei. O autor apresenta uma técnica que chama de “sem escapatória”. Exemplificando: o professor pergunta para o João quanto é 5 vezes 7. O João responde “não sei”. O professor não pode deixar por isso mesmo, nem pode dar a resposta. O professor deve, em vez disso, perguntar para outro aluno a mesma coisa. Se esse outro aluno responde corretamente, 35, então o professor volta-se para o João: “Então, João, quanto é 5 vezes 7?”. O João não tem como esquivar-se e não tem motivo para não repetir a resposta do outro aluno. Ou seja, o João não tem escapatória: na sua aula ele vai ter que responder. Claro que há outros desdobramentos possíveis e eles são discutidos no livro, mas o importante é o fato de que uma situação que começa com a esquiva do aluno termina com esse mesmo aluno dando a resposta correta.

Ipsis litteris. Fiquei encabulado quando li essa técnica no livro, porque vi que às vezes eu cometia o erro que era ali apresentado, que é o seguinte: o professor faz uma pergunta, os alunos levantam a mão e o professor escolhe um aluno para responder. Porém, antes que o aluno responda, o professor refaz a pergunta. O problema é que ele a refaz, mas ele a modifica! A mudança pode ser até muito sutil, mas, para o aluno, vai parecer ser outra coisa, ou seja, ele vai ficar confuso, porque ele se preparou para responder à pergunta do modo como foi formulada da primeira vez e agora ele precisa rever e, talvez, reformular sua resposta. Resumo: se o professor vai repetir a pergunta, que seja a mesma pergunta, Ipsis litteris.

“Uma pergunta de cada vez” é uma dica, que sempre usei desde que comecei a lecionar. Se o professor embutir duas perguntas em uma só, duas consequências indesejadas ocorrer: a primeira é que o aluno vai escolher e responder apenas uma das duas perguntas; a segunda é que será mais difícil para o professor organizar a sequência das perguntas de acordo com as respostas. É bom que o professor seja simples, formulando uma pergunta de cada vez e, sempre que for possível, em um grau crescente de dificuldade.

É bem provável que você, caro professor, que esteja lendo esse texto, já pratique todas ou a maioria das técnicas aqui descritas. Mas desconfio que seja igualmente provável que muitos outros, principalmente os iniciantes, por desconhecimento dessas técnicas, não as utilizem. Às vezes um procedimento que adotamos em sala de aula, funciona e nos parece simples e óbvio. Simples e óbvio para nós! Pode ser que, para outros professores, não seja tão óbvio assim e talvez eles nunca tenham pensado naquele procedimento.

É por isso que devemos nos unir para trocarmos ideias a respeito das boas práticas em sala de aula. Apesar do pouco tempo e a despeito da pouca literatura a esse respeito mas, sobretudo, por tantas perguntas que ainda faltam ser respondidas.

Carlos N C Oliveira
Coordenador de Matemática
Colégio Bandeirantes