O papel da escola em tempos de pós-verdade

O papel da escola em tempos de pós-verdade

Colégio Anglo 21

19 Maio 2017 | 17h22

*Felipe Leal

“Papa Francisco choca mundo e apoia Donald Trump”. A manchete é de uma falsa notícia que teve quase um milhão de compartilhamentos em redes sociais durante as últimas eleições para a presidência dos Estados Unidos. Não foi um caso único, e, para piorar, uma empresa de pesquisa e inteligência estimou que adultos daquele país acreditam nesse tipo de chamada falsa em 75% das vezes. É nesse contexto que surge a discussão sobre a “pós-verdade”, termo eleito pelo dicionário Oxford como palavra do ano de 2016. Como podemos lidar com essa questão em sala de aula?

Primeiramente, é preciso tentar entender o significado de “pós-verdade”. O Oxford registra que pós-verdade é um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos a emoção e crenças pessoais”. Para muitos, essa noção ajudaria a explicar eventos recentes, como a própria eleição de Donald Trump e o “brexit”.

Como em outras expressões do tipo, o prefixo “pós” pressupõe que teria havido anteriormente uma espécie de respeito à verdade e de aceitação dela. Mas será que houve? Lembremos que, na alegoria da caverna, os prisioneiros viam apenas sombras desde o seu nascimento. Porém, como jamais haviam saído, tomavam o que viam como a própria realidade. Ou seja, tratava-se de apontar que as pessoas aceitavam a aparência como verdade, distanciando-se da essência e das ideias. Na era moderna, praticamente todos os principais filósofos dos séculos XVI-XVII denunciaram o desapego generalizado à verdade, apresentando uma maneira de nos reaproximarmos dela. O exemplo mais clássico é a exigência de uma dúvida radical e de um método, feita por René Descartes. Considerando esses antecedentes, haveria alguma novidade que justificasse falarmos de uma pós-verdade?


Talvez o uso original do termo nos ajude a compreender de forma mais precisa o nosso contexto, bem como a maneira de tratar esse tipo de questão na escola. A expressão “pós-verdade” teve seu primeiro registro atual com o dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, em artigo publicado há 25 anos. Os Estados Unidos tinham vivido, há algum tempo, as consequências do escândalo político “Watergate” e terríveis notícias sobre acontecimentos da guerra do Vietnã. Segundo o autor, naquela época, falar a verdade significava trazer más notícias. Cansado, o público teria passado a preferir uma “realidade alternativa” e menos cruel.

Ora, se pensarmos bem, algo análogo tem acontecido no Brasil e no mundo. Vivemos, globalmente, as consequências da maior crise econômica desde 1929, enquanto, no nosso país, há também uma profunda crise política, relacionada a incessantes notícias sobre corrupção. Nesse contexto, será que jovens e adultos não estão cansados de saber da dura realidade, preferindo acreditar em falsas notícias e novos projetos demagógicos?

A escola não pode deixar de abordar essa discussão. No 1º ano do Ensino Médio, um dos temas principais de Filosofia é a epistemologia, ou teoria do conhecimento. É uma questão fascinante, mas, ao mesmo tempo, abstrata e um pouco difícil para os estudantes. Assim, para preparar a apresentação das grandes teorias do conhecimento da antiguidade e da modernidade, decidimos, no Anglo 21, abordar em sala de aula o fenômeno das notícias falsas.

A partir de exemplos concretos, escolhidos pelos alunos e trazidos por eles às aulas, podemos identificar, nos textos, elementos como: motivações dos autores (comerciais, políticas), fontes confiáveis e não confiáveis, características marcantes das notícias falsas e maneiras de identificá-las. As apresentações e discussões se davam ao longo do curso no primeiro período, permitindo abordar diversos aspectos do problema.

Num contexto em que, além de uma resistência à verdade, os jovens convivem com um quantidade de informações nunca antes vista, é fundamental que a escola desenvolva o senso crítico e a capacidade de leitura criteriosa e autônoma. Trabalhar com questões atuais, como as falsas notícias e a pós-verdade, contribui para pensar sobre um dos problemas filosóficos mais fundamentais: se há verdade e quais seriam possíveis critérios para identificá-la. Além disso, auxilia os jovens a perceber o caráter vivo e atual das questões filosóficas. Afinal, a palavra do ano de 2016 pode sim se relacionar com uma metáfora narrativa de quase 2500 anos.

 

 

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