O texto narrativo e a importância do universo simbólico

Colégio Santa Maria

10 Novembro 2017 | 07h30

Autoria: Adriano Silva dos Santos

 

Sempre que se pensa em Ensino Médio, palavras como “vestibular” e “Enem” despontam no horizonte, afinal, trata-se da etapa escolar que imediatamente precede esses processos seletivos que serão encarados em breve pelos adolescentes. Assim, torna-se uma das tarefas da escola preparar os alunos para esses momentos. Em se pensando em Língua Portuguesa, a temida prova de redação ganha relevância especial. Como todos os vestibulares pedem textos dissertativos-argumentativos (e apenas alguns poucos dão a opção da narrativa), o Ensino Médio do Colégio Santa Maria trabalha por dois anos (2ª e 3ª séries) esse gênero, com o intuito de desenvolver as habilidades do raciocínio lógico, da argumentação, da proposição de soluções para uma determinada questão.

No entanto, além da responsabilidade de preparar os alunos para os vestibulares e o Enem, o Ensino Médio deve, principalmente, ajudar os estudantes a desenvolver ferramentas que lhes permitam enfrentar o mundo de maneira saudável, principalmente num momento em que tantos adolescentes tornam-se reféns da depressão, sem projeção de futuro, sem ver significado num mundo que se mostra tão cheio de ódio e tão carente de diálogo. Por isso a 1ª série do Ensino Médio do Santa Maria trabalha o texto narrativo, que permite acesso ao aspecto simbólico do ser humano, aquele “cantinho” que sempre está soprando alguma coisa em nossos ouvidos,  a partir do nosso inconsciente.


Quantas vezes lemos um poema, uma história, ouvimos uma música, observamos uma pintura e aquela obra nos emociona sem que saibamos o porquê? E se alguém nos falasse, dissertativamente e objetivamente, o que essas obras dizem, não seria a mesma coisa, não mexeria tanto com nosso universo interior. É o nível simbólico, como defendeu o pesquisador Joseph Campbell, um dos grandes responsáveis por encontrarmos sentido em estarmos vivos. Daí a importância dos mitos em todas as culturas, narrativas que, simbolicamente, diziam algo sobre o mundo, a vida, o ser humano.

Colocar nossas vidas sob a perspectiva da “jornada do herói” (termo cunhado por Campbell para falar sobre a estrutura essencial de histórias de todas as culturas) permite, por exemplo, perceber a importância dos problemas e obstáculos que precisamos enfrentar para seguir adiante na caminhada. Esse novo ponto de vista é o “relegere”, palavra latina de onde vem “religião”. Ou seja: uma nova maneira de ler as coisas, de enxergar a vida. E isso é transformador.

Fazer com que os alunos escrevam narrativas é abrir a porta para que, simbolicamente, lidem com questões profundas, que, muitas vezes, são até inconscientes. É ajudá-los a trazer à tona um aspecto do ser humano que tem sido negligenciado em nossa sociedade da pressa, da utilidade, da multitarefa, do individualismo. E, muitas vezes, do ódio e da indiferença ao outro.

Com atividades envolvendo música, discussões sobre dilemas, análise de filmes e leitura de contos, tentamos fazer com que os alunos acessem esse universo simbólico que, se bem aproveitado, pode ajudar a construir um adulto consciente de si, do outro e do mundo. Um adulto muito mais seguro, por ter significado. E isso é extremamente importante numa sociedade em que estamos perdendo nossos adolescentes para a apatia e a depressão.