PÓS-VERDADE

Colégio Santa Maria

26 Setembro 2017 | 07h49

Autoria: Lucas Limberti

A democracia no Brasil passa por momentos de fragilidade e o Colégio Santa Maria apresenta-se como um espaço de debate para a construção do pensamento crítico com Ciclo de Palestras sobre o tema e, para tanto, convida o jornalista Francisco Bicudo para responder perguntas feitas por toda a comunidade escolar e explanar temas importantes para a contemporaneidade.

O ciclo de palestras “Caminhos da democracia brasileira” que ocorre no Colégio Santa Maria desde 2014 ganha, no presente ano, uma amarração com os Projetos desenvolvidos pelos professores em sala de aula, sobretudo na EJA – Educação de Jovens e Adultos, que organizou uma projeção temática norteada por três eixos – Sociedade do descarte; Sociedade do Consumo e Sociedade do espetáculo.

Na quarta-feira, dia 13/09, o eixo norteador foi a “Sociedade do espetáculo” e o jornalista e professor universitário Francisco Bicudo trouxe o subtema “Os limites da democracia em tempos de espetacularização”. A estrutura do encontro contou com uma mesa de pais dos alunos do Colégio, alunos e professores mediando perguntas próprias e da plateia que contava com toda a comunidade escolar.

Esta modalidade de palestra por meio de sabatina trouxe um dinamismo na interação entre o entrevistado e as inquietações dos presentes que colocaram temáticas que circulavam nessa atmosfera da relação ente democracia e os processos políticos sustentados pela mídia em geral.

A primeira questão levantada foi o conceito de “pós-verdade”. Segundo a Universidade de Oxford nos Estados Unidos esta foi a palavra do ano de 2016 eleita para o “Oxford Dictionaries” (Dicionário de Oxford). Este substantivo diz respeito a circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm menos importância do que crenças pessoais. O funil temático se deu na veiculação de notícias falsas desde a eleição de Donald Trump, presidente estadunidense até a operação Lava jato no Brasil.

O lugar da mídia nesse contexto é um espaço a ser discutido, pois influencia resultados políticos e ferem a clareza no discernimento dos sujeitos nas suas escolhas ideológicas nas eleições. Nesse sentido, a linguagem é responsável por boa parte desses encaminhamentos, uma vez que as insinuações, os pressupostos e subentendidos, a descontextualização e a inversão de relevâncias são responsáveis por essa “pós-verdade” na veiculação de notícias políticas no Brasil.

A questão dos debates políticos aparece como um tema importante, segundo Francisco Bicudo. Se tivéssemos três programas semanais de debate não obrigatório na TV, talvez o esclarecimento das propostas e ideologias dos candidatos ficassem mais claras.

Além disso, a fragilidade dos processos democráticos no Brasil foi analisada sob a perspectiva dos pesos e medidas que mudaram de acordo com os indicativos partidários em voga na situação governamental antes e pós impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O alarde de muitas perguntas durante a sabatina resvalava ou tocava diretamente na questão dos caminhos do conservadorismo na sociedade brasileira, de que maneira ela atua na mídia e como reverbera na democracia. Nesse sentido, Bicudo lembrou da Alemanha de Hitler e de que maneira uma sociedade minimamente informada se deixou levar – de maneira legítima -, pela barbárie do nazismo. Apontou para algumas pesquisas que revelam 25%  da população brasileira afeita a candidatos, um em especial, que defende políticas fascistas e antidemocráticas.

Outro apontamento mostrou as táticas de guerrilha de alguns movimentos conservadores que se valem da internet para veicular posturas que, se mal avaliadas, dão um tom geral da opinião pública brasileira. Como exemplo, o jornalista citou a censura artística do caso relacionado ao encerramento de uma exposição em Porto Alegre (RS) sobre a temática LGB&T, depois de um movimento que ganhou mão única nos últimos tempos. Os sujeitos minimamente preocupados com a democracia deveriam se posicionar a altura com essa situação de censura perfumada de tempos obscuros da história brasileira, como é o caso da ditadura militar, para muitos, algo esquecido nas páginas dos livros de história. “Eu encerrei minha conta neste banco”, afirma Bicudo em sua rede social, exemplificando a postura crítica e coletiva que se deveria ter diante das pressões aos direitos humanos, laicidade da política e a fragilidade da democracia.