O mundo é uma invenção sua

O mundo é uma invenção sua

COLÉGIO SANTA MARIA

08 Agosto 2017 | 07h30

Autoria: Gilberto Soares de Carvalho

 

Na distribuição disciplinar dos conteúdos escolares, coube à geografia a árdua tarefa de explicar o mundo para a juventude ansiosa por domá-lo pelas unhas. Mas por mais que nos esforcemos, este mundo nos surpreende e invade a sala de aula, questionando as narrativas congeladas nos livros didáticos e verdades do professor, academicamente embasado. Como nos lembrava o poeta Fernando Faro: “o mundo é uma invenção sua, você o faz bonito, você o cola de coisas”.

 

Na introdução deste musical televisivo da década de 80, a arte apontava o caminho para um mundo em que a crise se torna regra e a estabilidade se quebra no próximo pôr-do-sol. Como no famoso ditado popular que afirma que crise é oportunidade, se vivemos um período que é uma crise, como afirmara Milton Santos, vivemos também em um período em que cada vez mais o futuro se abre no presente.

 

Então, como explicar aos jovens um mundo cada vez mais aberto e instável? Como dizer-lhes ou cobrar-lhes numa prova, certezas que não se sustentam até o final do ano letivo? Há que se buscar o essencial, que nada mais é do que o tempo presente, a nossa humanidade e as possibilidades de encontro que a sala de aula favorece.

 

O filósofo Rancière nos alerta para os riscos do mestre sábio para a educação de nossos jovens, visto que ao tomar para si as certezas do mundo, por mais dialógico que desenvolva sua metodologia, reafirma a brutalidade da sociedade em que vivemos, ao anular as possibilidades de emergência do novo. Inspirado na experiência do professor Jacotot, que em meio às turbulências da Revolução Francesa, concluiu que a única verdade entre o professor e o aluno é o livro. É o prazer da descoberta que mobiliza a aprendizagem e cabe ao professor apenas questionar com rigor a interpretação da narrativa materializada nas frias páginas do objeto-livro.

 

No cotidiano atual, as imagens assumem esse papel de narrativa do mundo. São milhares delas disputando a verdade. Aquelas que se impuserem pelo volume e insistência ganham o troféu, por mais que não guardem relação alguma com a materialidade espacial e temporal. Vencem pelo cansaço. É a tal da pós-verdade.

 

E é nesse contexto que os alunos do 7º ano do Santa Maria desenvolvem desde o começo do ano atividades relacionadas à linguagem fotográfica. São propostos dispositivos que estimulam os alunos a fotografarem, ora orientados para planos detalhes e gerais da sala de aula, ora de forma livre, ora buscando objetos que permitam ilustrar um conceito trabalhado em sala de aula. Assim, produzem-se imagens tão diversas quanto os alunos ali presentes.

 

E o que temos para analisar é apenas a verdade da imagem e suas múltiplas interpretações. E a cada etapa, novas descobertas da linguagem fotográfica levam os alunos e alunas a ampliarem seu senso crítico em relação às imagens, tomando-as mais como fragmentos de um mundo do que verdades pré-concebidas. Começam a entender que a imagem não pode se descolar do ser humano que a elaborou, e é a partir daí que passamos a entender o mundo.

Primeira atividade de fotografia – plano geral e plano detalhe da sala de aula – Autor: Matheus Fernandes

 

Terceira atividade de fotografia – redes geográficas e paisagem – Autor: Munir Zoghbi

 

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