Música do Mundo ou Mundo da Música?

COLÉGIO SANTA MARIA

23 Março 2018 | 07h30

Autoria: Maurício de Albuquerque Leite

É muito comum ver alunos usando fones de ouvido, curtindo suas músicas favoritas ao chegarem à escola, transitando pelos espaços e compartilhando bandas e artistas recém descobertos. A música permeia o universo escolar e é uma ótima ferramenta para tentarmos compreender as grandes questões atuais da adolescência. Desta forma, trata-se de um excelente tema para ser discutido em sala de aula. Por exemplo, a questão da valoração das diferentes produções artísticas promovidas pelos meios de comunicação. Será possível afirmar que uma música é melhor que a outra? O fato de uma certa canção ter sido baixada milhões de vezes me obriga a apreciá-la? E quanto à classificação das inúmeras produções musicais ao redor do mundo? Estas e outras questões sobre o tema certamente podem gerar discussões interessantíssimas, podendo resultar em projetos realmente transformadores entre os nossos jovens alunos.

Incitado por um breve exercício proposto em um livro didático, convidei meus alunos da 3ª série do Ensino Médio do Santa Maria a discutirem durante nossas aulas de Inglês os diferentes aspectos relacionados à utilização do termo World Music. Tomei essa decisão partindo do princípio de que os alunos são um grande mercado consumidor da cultura pop hegemônica, produzida na Europa e na América do Norte. Artistas considerados estrelas internacionais promovem turnês milionárias em solo brasileiro e ocupam posições de destaque nas listas das canções mais baixadas e compartilhadas do país. No entanto, grandes artistas nascidos em países considerados em desenvolvimento, como Brasil, Índia, Colômbia, entre outros, ainda recebem a pecha de pertencerem ao gênero World Music (ou World Fusion, Global Fusion, Ethnic Fusion, Worldbeat). Considerei importante estabelecer um contraponto, pensando se essa nomenclatura faz sentido, já que todos fazemos parte do mundo da música… ou será que não?

Há muitas hipóteses sobre a origem do termo World Music. No entanto, há um senso comum de que o termo foi cunhado na primeira metade dos anos 1980, para voltar os olhares da indústria musical para o resto do planeta. A intenção foi puramente comercial, para tentar facilitar a promoção de vários artistas e torná-los mais vendáveis.

Desde então, porém, com a disseminação da rede mundial de computadores e das redes sociais, os estilos musicais se apresentam cada vez mais híbridos e diversificados. Por um lado, ficou infinitamente mais fácil descobrir bandas interessantes nos lugares mais remotos do planeta; por outro lado, no entanto, torna-se cada vez mais difícil classificar toda essa prolífica produção cultural em gêneros musicais tradicionais. Para tornar toda essa mistura ainda mais complexa, há também exemplos de muitos artistas internacionais que bebem na fonte da World Music. Por exemplo, a banda pop americana Black Eyed Peas tocando com o brasileiríssimo Sérgio Mendes, os ingleses do Coldplay lançando canções com instrumentos de percussão indiana, a cantora americana Demi Lovatto trabalhando em parceria com o porto-riquenho Luis Fonsi, entre outros.

Fiquei extremamente surpreso com os resultados das discussões e das informações trazidas pelos alunos. Resumidamente, chegamos à conclusão de que o processo de rotulação de diferentes produções artísticas provenientes de diferentes partes do mundo com World Music pode ser uma forma disfarçada de colonialismo cultural, absolutamente sem sentido, que pode prejudicar artistas simplesmente por causa de suas origens.

Portanto, na próxima vez que entrar em uma loja ou acessar um site de streaming de músicas, observe a forma como os artistas estão sendo oferecidos a você. Surpreenda-se com artistas novos e tente desconstruir essa tal World Music, afinal de contas, devemos consumir Música do Mundo, e não nos restringirmos às restrições impostas pelo Mundo da Música.

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