Literatura em língua estrangeira: uma janela para o mundo

Literatura em língua estrangeira: uma janela para o mundo

COLÉGIO SANTA MARIA

13 Abril 2018 | 07h30

Autoria: Claudia Mendes

Infelizmente o ensino de literatura em Língua Inglesa na educação básica é raro. Tradicionalmente escolas públicas e particulares priorizam o estudo da gramática como forma de apresentar a língua estrangeira. Porém, no Colégio Santa Maria, a realidade é outra. A literatura tem ganhado espaço nas aulas de língua estrangeira, pois entendemos que ela proporciona um estudo mais abrangente da língua, se considerarmos as quatro habilidades: fala, leitura, escrita e compreensão auditiva. Ademais, é um elo entre diferentes componentes curriculares, promovendo a transdiciplinaridade, como sugerem os PCNs.
A língua estrangeira amplia horizontes culturais e, graças aos textos literários, os educandos têm a oportunidade de repensar o mundo a sua volta preocupando-se com questões morais e éticas em relação à sociedade (LAZAR, 1993).
Assim, pensando em como trazer a literatura para dentro da sala de aula, foi proposta para a 1ª série de 2017 a leitura de um texto literário. Como eles já haviam sido expostos em diferentes momentos da sua trajetória na escola aos cânones da literatura inglesa, como Oscar Wilde, Sir Arthur Conan Doyle, entre outros, buscamos uma expressão literária moderna que fugisse das esperadas fontes americanas e inglesas.
Foi na Literatura Inglesa Africana, ainda marginalizada, que encontramos nosso objeto de estudo, um conto da ganhadora do prêmio Nobel de Literatura, a escritora sul-africana Nadine Gordimer. “The Ultimate Safari” ou “O Safari Definitivo” é uma ficção ambientada durante a Guerra Civil Moçambicana, onde uma família fugia da luta entre o governo de Samora Machel e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) para a África do Sul. Para que a pequena família chegasse ao seu destino, precisariam atravessar o Parque Krugger, com todos os seus perigos. Esse enredo permitia interdisciplinaridade com história, geografia e filosofia.
O conto é muito rico linguisticamente falando, pois traz a linguagem conotativa, que é um desafio para jovens leitores de língua estrangeira. Assim, desenvolvemos na fase de pré-leitura atividades que ajudassem a construir o conhecimento prévio dos alunos sobre o tema. Durante a fase de leitura, desenvolvemos o pensamento crítico dos alunos ao destrinchar as alegorias e simbolismos presentes no texto, através de rodas de discussão.
A fuga das personagens nos remeteu à discussão da situação dos refugiados Sírios na Europa e também Haitianos, aqui no Brasil. Finalmente, demos asas ao processo criativo dos alunos ao confeccionarmos cartazes de “procura-se” para as personagens da história. Finalmente, na fase da pós-leitura, os alunos criaram uma narrativa ficcional ambientada em algum contexto histórico real e que igualmente retratasse uma fuga. Inicialmente os jovens autores acharam uma tarefa fácil até que lancei o desafio: a narrativa deveria conter uma ou mais alegorias.
As produções foram interessantíssimas do ponto de vista criativo, e para parecer verossímil, demandou o estudo de acontecimentos históricos, reconhecimento das estruturas geográficas que ajudassem ou dificultassem a fuga, além de uma questão filosófica: a busca da liberdade.
Esse trabalho possibilitou a ampliação de horizontes, já que muitos não tinham se dado conta de que na África também há países cuja língua-mãe é a inglesa e que eles também produzem literatura, que no caso do conto, tem uma ideologia política, uma vez que a autora retratava um período conturbado na história moçambicana e os reflexos na África do Sul. A Literatura vai além da arte de escrever, ela retrata o mundo e leva o leitor a refletir e possivelmente se tornar um agente de mudanças.

Ilustração de Aletah Masuku