Lembrar é resistir: provocações de uma saída de estudo

Lembrar é resistir: provocações de uma saída de estudo

Colégio Santa Maria

16 Maio 2017 | 07h35

Autoria: Sônia Brandão

 

O Colégio Santa Maria há muito tempo investe num programa de saídas de estudos pensado para cada série com o cuidado de retomar os eixos fundamentais e, sempre que possível, integrar outros componentes e áreas. Mesmo sendo um trabalho com tradição na Escola, temos o cuidado de atualizar e aperfeiçoar os métodos e temas, sempre preocupados com a necessidade de dialogar com o presente.

Assim, em 2017, a 3ª série do Ensino Médio voltará a visitar alguns recortes da cidade de São Paulo. Já o fizemos observando a arquitetura da Belle Époque e, noutra ocasião, avaliando o processo de gentrificação do centro.

Desta vez, buscaremos discutir o quanto as ditaduras do Estado Novo (1937-1945) e Civil-Militar (1964-1985) imprimiram na paisagem da metrópole uma “arquitetura da repressão” e, do outro lado, como os movimentos de resistência também inventaram espaços identificados com a luta contra esses modelos de Estado.

Vale a pena esclarecer que o eixo definidor da 3ª série é o embate entre Ditatura X Democracia, temática essencial para entender o Brasil republicano e a História Ocidental do final do XIX até esse começo do XXI. Dessa forma, palmilhar a cidade buscando os endereços dos órgãos de repressão e os de resistência, torna-se fundamental para dar concretude ao que estabelecemos como essência do curso de História.

Por outro lado, estamos trazendo para o coração da série, um debate atualíssimo e primordial sobre os “lugares de memória”.

Para esclarecer: nessa perspectiva, entendemos que o espaço geográfico é testemunha das lutas políticas e sociais. Acaba, portanto, por sofrer transformações originadas da correlação de forças, das trincheiras de lutas cotidianas no seio de qualquer sociedade, dos embates políticos. “Lugares de memória” são, portanto, logradouros identificados com um evento-tempo histórico e que alçam importância na preservação da consciência coletiva.

A abertura de uma avenida, a construção ou adaptação de um prédio, a ocupação de uma praça, o nome escolhido para uma rua – todos são exemplos desse diálogo entre as ações políticas e configuração da urbe. Quando um determinado grupo, no exercício do controle do Estado, esforça-se para derrubar um prédio que outro grupo aponta como centro de tortura, por exemplo, constatamos o poder que têm esses “lugares de memória”.

A Catedral da Sé não é só uma igreja, sede e centro do catolicismo em São Paulo. Ela foi o palco do culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelo DOI-CODI, órgão de repressão da ditadura civil-militar em 1975, que forjou um suicídio para encobrir as arbitrariedades de seus agentes.

A Praça da Sé em frente, não é só via de passagem, local do Marco Zero, e nome de estação de Metrô. Foi o palco das lutas intestinas entre integralistas e aliancistas nos anos 30, dos Primeiros de Maio – referência da causa operária – por décadas e décadas, local onde um milhão de pessoas exigia “Diretas Já” em 1984.

A Estação Pinacoteca na região da Luz não é só uma extensão do mais antigo museu da cidade datado do início do XX. Foi o espaço do DOPS criado já no final da República das Oligarquias, com poderes ilimitados no Estado Novo e auge no sistema de repressão a partir de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5. Somente sob a pressão dos sobreviventes e dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos da ditadura civil-militar que os órgãos responsáveis pelo patrimônio histórico da cidade reconheceram que aquele espaço deveria ser lembrado como “lugar de memória”.

Aqui tocamos num assunto de igual importância. Para alguns, no exercício do poder político, pode ser interessante destruir alguns espaços ou camuflá-los. Tal acontece na demolição de prédios, praças, ruas: lugares indesejáveis para uma memória que não se quer lembrada. Devemos nos perguntar: a quem não interessa que saibamos que existiram em São Paulo e em todo o país órgãos oficiais que faziam prisões irregulares, torturavam e “desapareciam” com cidadãos e cidadãs brasileiras? Por que, ao longo da História, algumas coisas merecem ser lembradas e outras não? Quem, afinal, constrói nossa memória coletiva?

Vejamos uma outra situação. Existem hoje grupos que lutam na cidade para que lugares públicos não homenageiem personagens ligadas à repressão tanto da ditadura do Estado Novo, quanto da última experiência autoritário que vivemos a partir do golpe de 1964. Foram esses militantes que pressionaram pela mudança do nome do Elevado Costa e Silva para Presidente João Goulart. Isso não é um mero detalhe. Imaginamos que os países europeus que viveram as atrocidades dos regimes totalitários nazifascistas, devem se esforçar para impedir que uma rua seja batizada de Adolf Hitler.

Estamos falando do campo do imaginário. Na verdade, estamos falando da disputa pelo imaginário coletivo. Se os valores democráticos conseguirem ser hegemônicos nesse imaginário, se conquistarem o maior espaço na narrativa histórica, entendemos que a democracia futura estará garantida.

Uma Escola que se coloque em sua plenitude, também é responsável por essa tarefa de consolidação democrática. Nosso papel também é valorizar o papel da luta pela redemocratização do país (em 1945 e 1985), salvaguardar os papéis das Constituições de 1946 e 1988, formar cidadãos e cidadãs comprometidas com a ampliação do Estado de Direito e que se esforcem por repudiar as ações que busquem o contrário.

Lembrar é exercício de cidadania.