Incertezas, decisões e o estudo da probabilidade

Colégio Santa Maria

10 Outubro 2017 | 07h30

Autoria: André Augusto Vallado Batista

 

O nosso cotidiano está cercado de dúvidas e incertezas. Muitas vezes precisamos tomar decisões importantes e até vitais. Para nos auxiliar nessas decisões, construímos com os estudantes no curso de Matemática do Ensino Médio do Colégio Santa Maria um recurso fundamental, a Teoria das Probabilidades.

Historicamente os primeiros estudos científicos das Probabilidades remontam à segunda metade do século XVII, mais precisamente 1654, quando um jogador da alta sociedade parisiense, Chevalier de Mére, encomenda ao matemático Blaise Pascal um estudo científico que sugerisse uma fórmula para vencer no jogo de dados. A partir daí vários matemáticos se interessaram pelo assunto, que passou de um mero estudo para satisfazer um jogador a um ramo da Matemática e Estatística de extrema importância para as ciências.

Saber calcular probabilidades não significa que você se tornará um adivinho ou um grande vidente. A probabilidade “apenas” indica quais são as chances de um determinado evento ocorrer. Ainda assim pode ser de extrema utilidade. Por exemplo, ao se lançar uma moeda, que consiste em um evento aleatório (onde todos os resultados têm a mesma chance de ocorrer) a chance de se obter a face cara é de 1 em 2 ou 50%. Para chegarmos nesta porcentagem, dividimos o número de resultados que nos interessam pelo total de possibilidades. Quando o resultado da porcentagem é alto, dizemos que é muito provável que o evento ocorra, já o oposto significa que o evento é pouco provável.

Eventos muito prováveis normalmente ocorrem, eventos poucos prováveis não. Mas nem sempre é regra, haja visto que sempre que algo muito improvável acontece vira notícia. Nesses casos como exemplo, temos o indivíduo que acerta sozinho na Mega Sena com um único cartão apostado, resultado de uma única chance em pouco mais de cinquenta milhões, ou seja, 0,000002% ou quando uma pessoa é atingida por um raio. Acontece que normalmente lembramos apenas do improvável. Se a previsão do tempo “acerta” você nem percebe, agora se erra, é motivo de muita raiva. O resultado mais provável faz parte do nosso cotidiano. Os únicos casos certos, os chamados eventos certos, são aqueles em que a probabilidade é de 100% – por exemplo, quando você compra todos os números de uma rifa e o evento impossível, quando a probabilidade é zero, – como no caso em que você não compra nenhum número da rifa e fica torcendo pelo resultado. Infelizmente sua chance de vencer é zero.

No percurso dessas aprendizagens, alunos e alunas podem concluir, sem o julgamento de valores éticos e baseados apenas na Matemática, que as chances nos jogos são extremamente baixas. Se o conhecimento técnico no cálculo de probabilidades fosse receita para o sucesso nos jogos, os matemáticos iriam em massa para os cassinos em Las Vegas e voltariam milionários. Infelizmente quem lucra com o jogo são os donos dos cassinos e não os jogadores. Mas para que gosta de jogo, vale o ditado “quem não joga não ganha”. Portanto, a decisão é de cada um.

O estudo das probabilidades é usado como ferramenta direta nas ciências. Lembre que a ciência não vive de previsões, mas sim de probabilidades. Um exemplo de aspectos da História da Ciência discutidos e aula é utilização das probabilidades por  Mendel, o cientista iniciador da genética, que após ter sido ordenado monge, ingressou na Universidade de Viena, onde estudou Matemática e Ciências. Mendel continuou interessado em ciências e desenvolveu importante trabalho. Hoje Mendel é tido como uma das figuras mais importantes no mundo científico, sendo considerado o “pai” da Genética. A genética tem como ferramenta o cálculo de probabilidades.

Outro exemplo claro e atual sobre a importância do cálculo de probabilidades aplicado na Biologia e Medicina é o caso da atriz Angelina Jolie, que em 2013 passou por uma dupla mastectomia preventiva, uma cirurgia para retirada dos seios. Sua mãe lutou contra o câncer por quase uma década e morreu aos 56 anos. Angelina, na época com 37 anos,  descobriu ter um “defeito” no gene chamado BRCA1. Os médicos disseram que ela tinha 87% de chances de desenvolver um câncer de mama, e 50% de ter um câncer no ovário. “Quando soube que essa era minha realidade, decidi ser pró-ativa e minimizar o risco o quanto podia. Tomei a decisão de ter uma dupla mastectomia preventiva”, diz a atriz. Esta difícil decisão foi baseada unicamente em cálculos probabilísticos. Além da Biologia e da Medicina, temos a teoria das probabilidades presente na Meteorologia, Física Quântica, Estatística, Engenharia, Química e muitas outras áreas.

Em suma, o estudo das probabilidades que começou despretensiosamente como um “truque” para se ganhar nos jogos, hoje pode nos ajudar a tomar decisões e a seguir determinados caminhos dentro e fora das ciências. Mas lembre de que a probabilidade não prevê, nem faz adivinhações, ela mostra apenas as chances de algo ocorrer, outra coisa, além disto, é charlatanismo. Um dos aspectos mais importantes na vida é a imprevisibilidade, as chances de fato existem, porém tudo pode ocorrer, o futuro é felizmente imprevisível e incerto.