Estudos do meio como experiência política

Estudos do meio como experiência política

Colégio Santa Maria

13 Outubro 2017 | 07h30

Autoria: Thiago Braz

E, por favor, não achem natural
O que acontece e torna a acontecer:
Não se deve dizer que nada é natural
Numa época de confusão e sangue,
Desordem ordenada, arbítrio de propósito,
Humanidade desumanizada
Para que imutável não se considere nada!

 (Bertold Brecht, A Exceção e a Regra)

Em minha última contribuição para este blog, tratei da dignidade da política como campo da expressão da pluralidade humana e da construção de nosso mundo comum. A negação da política, tão em voga atualmente, é a característica fundamental das sociedades totalitárias, contra as quais, mesmo os defensores do projeto Escola sem Partido o atestam, é necessário insurgir-se.


Nossos estudos do meio no Colégio Santa Maria são animados pela vocação política da educação, pois visam o conhecimento e a desnaturalização do espaço social, colocando as (os) estudantes frente às ambiguidades da atualidade.

Defrontados com as dores do mundo, alunas e alunos são assaltados pelo desejo de transformar a realidade, atividade política por excelência. Os caminhos para a consecução da tarefa são múltiplos, cabendo a cada sujeito traçar autonomamente a sua rota. Contudo, nenhuma das possibilidades existentes ou que venham a existir no futuro se beneficia do gesto de virar as costas para a sociedade em que vivemos, nem de tomar o mundo, tal como se configurou historicamente, como uma facticidade inapelável.

Seguindo a Base Nacional Comum, a equipe de Ciências Humanas do Colégio tem como um dos seus objetivos primeiros: “Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao seu projeto de vida pessoal, profissional e social, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade”. Nesse sentido, conhecer a alteridade é um exercício de abrir-se ao outro, da mesma maneira que é um exercício de autoconhecimento, visto que se encontra um elemento de comparação que permite a reflexão sobre a nossa própria cultura.

Assim sendo, o curso de Cultura Religiosa, em seu terceiro bimestre, ocupou-se da intolerância a que são submetidos os povos indígenas no Brasil, assim como do estudo de suas cosmologias, em especial, a do povo guarani mbyá, a etnia mais presente na cidade de São Paulo.

A cultura dos mbyás valoriza o contato não predatório com a natureza, o equilíbrio social fundado no respeito aos outros e uma concepção de felicidade assentada, a um só tempo, na liberdade e no cumprimento do dever. O juruá (o não-indígena na língua guarani) ocupa uma posição privilegiada na escatologia desse povo, que previa um tempo de destruição da terra e os consequentes desastres naturais; um tempo de exploração do homem pelo homem em que imperaria um mal-estar generalizado. Difícil negar que a profecia dos antigos xeramois e xejaryi se cumpriu. De uma perspectiva guarani, vivemos hoje em pleno cataclisma.

Félix Guattari lembra-nos que as palavras ecologia e economia têm o mesmo radical: derivam do grego “oikós”, palavra transliterada para o português como “eco” e que significa “casa”. A primeira casa que habitamos é o nosso próprio corpo e a nossa subjetividade; a segunda casa que habitamos é a nossa família e a nossa comunidade; a terceira casa que habitamos é o planeta e a ordem cósmica enquanto tal. É nesse sentido que esse autor falava em três ecologias, que incluiriam a preservação do meio ambiente, mas não se resumiria a isso. Não há verdadeira ecologia em uma sociedade que confunde felicidade e consumo, não existe verdadeira ecologia em uma sociedade em que o principal modo de sociabilidade é a competitividade, não existe ecologia quando cada ser é compreendido apenas como um recurso a ser utilizado.

Implicam-se mutuamente as relações intra-subjetivas e intersubjetivas; éticas e políticas; materiais e espirituais. Cabe reconhecer que os princípios orientadores de toda a cultura são diferentes entre as sociedades indígenas e as culturas ditas “ocidentais”. Na formulação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, enquanto as culturas de matriz europeia vivem de acordo com o princípio de uma “necessidade extensiva”, ou seja, “nada é suficiente, tudo é necessário”, as culturas indígenas vivem segundo o princípio de uma “suficiência intensiva”, em que “quase nada é necessário, tudo é suficiente”. Verdadeira alternativa ao caos civilizacional em que vivemos.

O principal fundamento da cultura mbyá é a terra. Em um dos dias de nossa presença na aldeia, Willian, liderança indígena que nos ajudou na elaboração e na execução do estudo do meio, ensinou às (aos) alunas (os) que é preciso ser grato à terra por aquilo que ela nos dá, e aquilo que ela nos dá é praticamente tudo o que é necessário para a vida humana. A riqueza daquilo que os mbyá chamam de nhanderekó (o modo de ser guarani), depende da preservação da natureza, donde a centralidade da questão das demarcações de terra. Ao elegermos a questão do guarani urbano, do guarani privado de suas terras, estamos diante da desagregação do nhanderekó, cuja defesa se converte em bateria moral para uma luta política.

Um dos objetivos maiores do estudo do meio é permitir que alunas e alunos vivenciem na prática o que é estudado em sala de aula. O nosso encontro com a cultura guarani mbyá revelou-se uma vivência muito intensa para a maioria dos alunos. Os indígenas da aldeia Tekoá Pyau vivem na menor terra indígena do Brasil, dentro da mancha urbana da cidade de São Paulo. São, portanto, interpelados ao menos por duas identidades: são plenamente indígenas e plenamente moradores da periferia.

Escolheu-se essa aldeia para desconstruir o estereótipo segundo o qual o indígena está no passado, que está extinto ou que vive necessariamente isolado, assim como as formas de essencialismo cultural que apenas reconhecem a identidade e os direitos dos indígenas se esses viverem em condições análogas àquelas do século XVI. Contradição canalha de uma sociedade que sempre forçou os indígenas a aderirem ao modo de vida branco e lhes nega agora o reconhecimento por pretender que estes estejam nus dentro das florestas. Dessa forma, escolhemos os trens da CPTM como principal meio de transporte para nossa pesquisa de campo.

Os indígenas urbanos estão privados da terra. Nessa condição os mbyá, cujo modo da vida tradicional garantia tudo o que era necessário para a vida, são reduzidos, em sua precária integração à sociedade nacional, à condição de meros pobres, ao menos na visão do senso comum, a qual é também compartilhada pelas autoridades públicas.

A aproximação da aldeia poderia ser confundida com a aproximação com qualquer favela nos bairros da periferia da cidade de São Paulo, onde se vive na maior vulnerabilidade. É no convívio com os ensinamentos espirituais, com as práticas de produção do artesanato e da agricultura, na relação com a mata e com os animais, na oitiva da língua complexa que todos falam entre si, é que a percepção dos visitantes se transfigura. Se está numa aldeia indígena, que tem muito a ensinar à sociedade que, buscando transformar o indígena, o relegou à condição de exclusão.

Percebe-se que a experiência do tempo na aldeia não é a mesma a que estamos acostumados em nosso cotidiano: não o tempo da produtividade, da afobação, da ansiedade de ser sempre o primeiro ou do pânico de ser deixado para trás. A temporalidade guarani nos convida a viver cada momento, a respeitar cada pessoa que está diante de nós, a nos abrir aos nossos visitados da mesma maneira como eles se abriram a nós como visitantes.

Trata-se de um tempo que convida ao contato, ao encontro. Quando o espírito da pressa tomou conta dos grupos e nos perguntamos: o que acontecerá depois? Qual será a próxima atividade? Quando alguém falará alguma coisa?, a visita perdeu muito de sua vitalidade. No entanto, para os grupos que puderam respeitar o tempo dos guaranis, foi possível vislumbrar algo da condição deles: possuir uma concepção de mundo cunhada por ao menos trinta mil anos de história, mas que tudo o que se pretende chamar de “modernidade” (o progresso, o consumo, o mercado, o Estado, a racionalidade técnica) visa aniquilar.

Vários grupos testemunharam a complexidade do saber guarani, assim como os sofrimentos a que são submetidos quando os seus direitos lhes são negados. Em uma das visitas, em razão do que estava sendo relatado, todos os presentes se emocionaram profundamente. A imagem que se vê abaixo é o registro desse momento carregado de significado e que certamente ficará para sempre na memória dos que viveram essa experiência.

Uma das preocupações presentes no relato que despertou tamanha emoção são as crianças guaranis. A luta pela demarcação é também uma luta pelo futuro das crianças, que são criadas no clima da mais absoluta liberdade: brincando, brigando, correndo, sujando-se, apreendendo com todos os adultos e com seus pares.

No Ceci (Centro de Educação e Cultura Indígena) se ensinam as brincadeiras tradicionais que emulam os movimentos da natureza, em um processo de desenvolvimento que garante um enorme vigor físico e capacidade intelectual para as crianças. A sabedoria guarani tem muito o que dizer sobre a educação.

Em nossa sociedade, crianças com o comportamento libertário das crianças guaranis seriam reprimidas das mais diversas maneiras. Uma delas consiste em rotular a criança como hiperativa, justificativa para o uso de substâncias químicas altamente controladas e que visam moldar o comportamento infantil às expectativas sociais. Há aqui um interessante paradoxo: a cultura que permite que as crianças vivam em grande liberdade, forma homens e mulheres com enorme senso de responsabilidade e dever; enquanto que a cultura que desde muito cedo normatiza o comportamento infantil, enfrenta as maiores dificuldades para desenvolver em seus jovens e adultos o sentimento de plena autonomia.

A despeito desse enorme sucesso pedagógico, em um dos momentos mais dramáticos de nossa pesquisa de campo, a educadora indígena Jaxuká nos relatou que existiram vários casos de problemas com o conselho tutelar, por razões que são fundamentalmente etnocêntricas. A imagem acima é apenas um registro pálido da energia e alegria das crianças da aldeia que foram uma grande alegria para nossas (os) estudantes. Não conseguimos pensar em destino mais inadequado para elas do que apartá-las de sua comunidade para entregá-las aos “cuidados” (sic) do Estado.

Uma das etapas de nossa pesquisa de campo consistiu em uma trilha no parque do Jaraguá, o qual está em disputa com o governo de Estado de São Paulo. A terra demarcada em 2015 passou por um processo inédito de (des)demarcação, quando, em razão da judicialização promovida pelo governo estadual, o atual ministro da justiça suspendeu a portaria declaratória.

Foi nessa trilha, que os guaranis não podem penetrar plenamente como se eles fossem a verdadeira ameaça à natureza, que vi e ouvi uma das mais profundas exposições da cultura guarani que já presenciei. Nosso educador encontrou uma pegada de onça, animal sagrado, dono da mata, capaz de perscrutar o espírito de todos que cruzam o seu caminho; contou dos remédios feitos de plantas mas também de animais e mostrou (com suas palavras e atitudes) como a relação guarani com a natureza é diferente da nossa, a começar pelos modos de percepção. Se para nós a mata é um amontoado disforme de plantas e animais, para ele era um conjunto vivo de singularidades em relação.

Na formulação de um dos meus alunos, o saldo de nosso estudo do meio consiste na certeza de que os indígenas fariam um uso muito melhor da terra do Jaraguá do que a iniciativa privada ou o Estado. E se o estudo do meio é uma atividade de caráter político, como não se posicionar e gritar: “O Jaraguá é guarani”.

 

Ps.: Como professor de Sociologia e Cultura Religiosa, escrevo este artigo da perspectiva de minha disciplina. Os resultados a que esse texto se refere, na verdade, são apenas um ponto de partida, ao longo desse último bimestre. Os demais resultados de nossa pesquisa de campo serão retomados pelas disciplinas de Geografia (a questão da demarcação), da Filosofia (a organização política interna dos guaranis e suas relações com o Estado) e História (continuidades e rupturas, tendo em vista os primeiros contatos e a sua relação com a contemporaneidade).