Cinema e reflexão

Cinema e reflexão

Colégio Santa Maria

05 Maio 2017 | 07h30

Autoria: Adriano Silva dos Santos

 

Talvez o maior desafio de um professor seja ajudar os alunos a verem significado naquilo que aprendem. Caso haja sucesso, sem dúvida a apreensão dos conceitos estudados será muito mais tranquila, já que todos nós rejeitamos aquilo em que não vemos significado nenhum. E numa sociedade tão rápida, em que o acesso à informação é tão fácil, esse desafio torna-se ainda maior, pois todo educador que não passe de mero reprodutor de informações será repudiado.

Na 1ª série do Ensino Médio do Colégio Santa Maria, o curso de LIP (Leitura, Interpretação e Produção de texto) lança mão de metodologias diferenciadas para trazer significado ao que é estudado. Mostrar aos alunos a necessidade de entender melhor todo texto midiático que nos cerca é uma delas. Nunca houve geração adolescente mais atingida pelas informações dos meios de comunicação do que a atual. Torna-se essencial, então, ajudar esses jovens a serem melhores leitores, para que sua liberdade de escolha seja ampliada. Se eles entendem essa necessidade, fica muito mais fácil tratar dos conteúdos a serem ensinados.

Por conta desse foco na questão da mídia, um grupo de alunos, no final de 2003, pediu que as discussões de aula continuassem mesmo ao término daquele ano letivo. Desse modo, nasceu o NEMiS (Núcleo de Estudos Midiáticos do Santa Maria), um grupo que, desde então, reúne-se semanalmente para discutir e refletir sobre os fenômenos midiáticos de nossa sociedade. Todo ano, alunos da 3ª série saem do Colégio e deixam o grupo, enquanto alunos da 1ª série passam a fazer parte das reuniões, renovando o NEMiS.

Uma das consequências das discussões foi a criação de um momento de discussão aberto a todo o Ensino Médio. Como o elemento provocador da discussão nesse evento sempre é um filme, deu-se o nome de CINEMiS a essa tarde (geralmente numa sexta-feira) que envolve cinema, lanche coletivo e reflexão. Sempre é escolhido um filme que seja suficientemente rico para provocar uma discussão produtiva e envolvente.

O CINEMiS mais recente trouxe o filme A chegada, de Denis Villeneuve, como elemento detonador. Trata-se de uma história que lida com temas como linguagem, comunicação, tempo, destino e escolhas, entre outros. Temas caros a todos nós, mas que na adolescência talvez ganhem intensidade maior ainda. O tempo foi curto para discutir sobre tudo que o filme trazia, mas as horas passadas junto àquele grupo sedento por ideias foram muito significativas para todos que estavam ali. Falou-se bastante sobre como é nossa relação com o tempo atualmente – um tempo comprimido e aprisionador – e a incapacidade que nossa sociedade vem demonstrando para ouvir, o que limita sensivelmente os processos comunicativos. Queremos falar, mas não queremos muito ouvir o outro.

A linguagem cinematográfica é um elemento poderoso junto aos jovens. A criação de um momento, fora de horário de aula, para que se veja um filme e se discuta sobre ele sempre será, sem dúvida, o motor para transformações muito importantes em relação à subjetividade desses adolescentes. Uma reflexão bem conduzida, que não deixe de fora componentes de sensibilidade, pode colocar em movimento forças que potencializarão o desenvolvimento pessoal dos alunos, a partir de uma leitura de mundo guiada pelo compartilhamento de ideias.

Numa sociedade que vem teimando em não se ouvir, é um presente termos um momento em que tantos jovens estão juntos para compartilhar ideias, dúvidas, sensações e sentimentos.