Especialista explica os aspectos positivos e negativos dos games para as crianças

Especialista explica os aspectos positivos e negativos dos games para as crianças

Professor de Tecnologia tira as principais dúvidas que preocupam pais e educadores Por Jorge Farias*

Colégio Rio Branco

05 Outubro 2016 | 19h42

Jorge

Os games podem mesmo contribuir para o desenvolvimento e aprendizado das crianças? Por que?
Podem sim! O potencial de aprendizado nos jogos é grande, pois podem estimular diversas habilidades cognitivas, como leitura e compreensão, interpretação de problemas, tomada de decisões, definição de prioridades, organização espacial, foco em missões e cálculo financeiro. Essas e outras habilidades são essenciais para o desenvolvimento acadêmico e também na vida pessoal. Há jogos voltados para o aprendizado escolar, como os que treinam a formação de palavras, cálculo matemático, contextualização histórica e mapas virtuais. Porém, como pedagogo e professor, eu sempre ressalto que a mediação torna o processo eficaz, pois direciona a criança ao objetivo e torna mais palpável sua aprendizagem, principalmente em jogos não educativos.

Quais os benefícios que os jogos trazem para as crianças?
Além das habilidades cognitivas e acadêmicas, os jogos também estimulam as relações sociais entre jogadores e desenvolvem habilidades tecnológicas. Em alguns casos, o jogador precisa fazer planejamento estratégico, usar o raciocínio lógico, ter movimentos ágeis e manter o reflexo aguçado. Sem contar os jogos que precisam do corpo para interagir, como dançar ou jogar tênis, que estimulam a atividade física.

Quais tipos são recomendados e quais devem ser proibidos?
Todos os jogos estimulam habilidades cognitivas, como, por exemplo, o simples e famoso Pac­Man, que desenvolve o raciocínio rápido e movimentos ágeis, e o complexo Minecraft, febre atual da criançada, que desenvolve o planejamento estratégico, administração de recursos, construção de material e organização espacial. Mas é sempre bom procurar os jogos que têm o objetivo explícito de educar. Basta digitar em um site de buscas, a frase “jogos educativos”, ou procurar nas lojas de aplicativos virtuais, na categoria Educação. As crianças não devem ser expostas a jogos que exploram objetos, comportamentos e situações que exijam certo nível de maturidade e compreensão do jogador e podem ser inadequados para crianças, como GTA 5, onde há missões como roubar carros com armas pesadas e traficar drogas, ou God of War, com cenas de nudez e conotação sexual. É recomendável aos pais, estarem sempre sempre atentos à classificação indicativa e acompanha-los em alguns momentos durante os jogos.

Qual a idade mínima para o contato com games?
Não há uma idade mínima para que uma criança jogue, porém o contato familiar e social é indispensável para o desenvolvimento da criança, como o psicomotor, o cognitivo e o afetivo. Elas precisam passear, pular, brincar, experimentar emoções da infância que só o contato pessoal pode proporcionar e isso não pode ser delegado aos jogos, que apenas complementam o desenvolvimento global da criança.

Quanto tempo é indicado para a criança jogar diariamente? Como as famílias devem impor limites?Há uma pesquisa feita pelo psicólogo experimental Andrew Przybylski, da Universidade de Oxford e publicada na revista Pediatrics, em 2014, que indica uma hora por dia como tempo satisfatório. Mais do que isso, a influência dos jogos pode prejudicar o comportamento, como indicou a pesquisa. Esse tempo é excelente, visto que há outras atividades importantes para a infância, como brincar em parques, nadar, jogar bola, estudar e ler. A noção de tempo e organização de tarefas não são pontos fortes da criança, então, os pais devem impor o limite e o equilíbrio de tarefas, mas sempre explicando o porquê de tais limites. Se possível, os pais devem acompanhar ou até mesmo jogar com a criança, o que aumentará a resposta positiva em relação à imposição. Uma dica é permitir maior tempo de jogo aos domingos (desde que já estejam livres das tarefas escolares e outros comprometimentos familiares).

Crianças e até adultos passam cada vez mais tempo em mundos virtuais, como isso pode se refletir no futuro?
Não vejo mais separação entre o real e o virtual. Hoje se vive online. As ferramentas de relacionamento e mídias virtuais, como Whatsapp, Facebook e YouTube se tornaram necessidades básicas de convívio, e realmente têm facilitado a vida corrida nas grandes cidades e encurtado qualquer distância. Ferramentas de edição de documentos, acesso bancário e arquivamentos virtuais também têm colaborado para essa dependência digital. A tendência é que, mesmo vivendo numa complexidade tecnológica, nossa vida se torne mais simples e socialmente próxima, com a burocracia dando lugar a alguns apertos de botão. Mas o contato pessoal, o olho no olho, o abraço, o afagar de cabelos nunca podem ser substituídos. Os perigos existem quando o relacionamento pessoal dá lugar à solidão virtual.

Pode-se confiar na classificação etária que é determinada para os diferentes tipos de games?
A classificação da faixa etária para jogos é realizada pelo Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação (Dejus) e baseada em pesquisas do Ministério da Justiça e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Os três temas base para classificação são: sexo, violência e drogas. Apesar do esforço em preservar a criança, selecionando a idade certa para ter contato com profundidades diferentes de cada um dos três temas, a classificação é apenas uma referência para os pais, que sempre devem acompanhar os filhos no momento da compra e do jogar, avaliando o melhor momento para a exposição de algumas situações e informações de acordo com a maturidade da criança. Qualquer conteúdo que não seja compatível com a faixa etária da criança é negativo.

Jogos violentos podem influenciar no comportamento das crianças?
Os jogos possibilitam que as crianças entrem em contato com seus anseios, medos, frustrações e desejos. Cada fase perdida, missão fracassada ou jogo ganho permite que vivam essas emoções sem que precisem se arriscar na vida real. Os que contém violência aumentam tais emoções. Esses jogos não criam o comportamento violento, mas podem potencializar, através dessas experiências, o que a criança já tem dentro de si. Aí está a importância do acompanhamento dos pais, que devem observar o relacionamento entre seus filhos e os jogos. Deve-­se prestar atenção especial nos personagens desses jogos, que podem ser considerados heróis, mas têm comportamentos antissociais, e podem ter suas atitudes agregadas pelo jogador. Caso notem algum comportamento violento quando jogam, os pais devem conversar com a criança sobre suas emoções e, se necessário, procurar um especialista.

A programação de games e a criação de aplicativos é uma tendência muito forte entre as crianças e jovens na atualidade. Quais os benefícios dessa modalidade?
Primeiro, a programação trabalha a criatividade e o raciocínio lógico, o design e a organização de ideias, isto é, os dois lados do cérebro. Segundo, programar algo seu para servir aos outros desenvolve o empreendedorismo. Terceiro, há poucos programadores em proporção ao número de usuários, o que cria a tendência de no futuro ser uma profissão bem vista e requisitada. Quarto, a programação pode servir como ferramenta da interdisciplinaridade: o aluno pode criar um aplicativo que mostre todo o conteúdo aprendido durante o ano e que sirva de material de estudo concentrado aos colegas da sala antes das provas finais ou criar um site que explique a história do país com textos bem feitos, mapas e cálculos demográficos, por exemplo. Quinto, programar sobre um assunto do seu jeito faz com que a pesquisa sobre tal assunto seja mais intensa, o que desperta mais interesse em estudar. Sexto, ensina o planejamento de projetos, no qual a criança aprende a planejar, programar, experimentar, errar, tentar novamente, revisar, avaliar e assim por diante, reestruturando sua capacidade de organização pessoal. Sétimo, as crianças e adolescentes podem ter uma voz ativa na sociedade com ferramentas tecnológicas que ela mesma criou, incentivando mais ainda o protagonismo, Logo um profissional de programação não será mais algo difícil de encontrar, pois a geração atual está entendendo a importância de programar.

*Jorge Farias é professor de Tecnologia do Colégio Rio Branco e coordenador dos projetos Game Factory,  Robótica  e“Stop Motion…Ops!…Stop Bullying!” – contra o cyberbullying.
Tem experiência e trabalha com linguagem e programação, criação de jogos 2D, robótica e linguagem cinematográfica. É graduado em Pedagogia e Sistemas de Informação, com pós­-graduação em Psicopedagogia.

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