Aprender, uma forma de se alimentar

Aprender, uma forma de se alimentar

Cozinhar é um ato de amor. Educar também. Ambas pressupõem transformação e partilha * Por Carolina Sperandio

Colégio Rio Branco

07 Agosto 2017 | 15h25


Apesar de serem julgadas expressões démodé, ainda é comum ouvir que “ele é um professor de mão cheia ou ela é uma cozinheira de mão cheia” para se referir à competência desses profissionais.

Celebramos o fim do primeiro semestre, um período cheio de desafios e aprendizados, com oficinas de compartilhamento de práticas pedagógicas e um lanche de confraternização na sala de refeições anexa à sala dos professores: um lugar especial cheio de histórias pra contar de “gente de mão cheia”!

O compartilhamento estava igualmente presente na troca de experiências pedagógicas e na partilha do alimento, e nesse momento cada um pôde oferecer o melhor de si para quem também estava ávido por aprender.

Nossas memórias costumam ser marcadas por lembranças relacionadas à comida: a comida de uma avó, o bolo de uma tia, uma receita especial experimentada em um lugar, em uma época. E lá se vão pensamentos e sentimentos pra dentro da historicidade de cada um.

A memória gustativa tem um poder involuntário que nos traz consciência de um sabor que leva ao passado. O aroma, o sabor e a imagem ficam em nossa memória e trazem de volta a sensação de prazer e bem-estar. Quando comemos, as papilas gustativas presentes na língua enviam mensagem ao cérebro que identifica os sabores e promove a memória gustativa.

Li recentemente que o nosso cérebro possui neurônios para cada um dos cinco gostos básicos do paladar humano: salgado, doce, amargo, ácido e umami (palavra de origem japonesa que significa gosto saboroso e agradável e que é associado aos aminoácidos presentes em carnes e legumes).

As situações didáticas que compõem o dia a dia do colégio são muito mais influenciadas pela gastronomia do que nos damos conta. Educar é trabalhar com a dimensão intelectual, mas também com a física, emocional, social e cultural, e sob o aspecto cultural, o alimento tem um importante papel na construção de nossa identidade.

Ao estudar o Egito antigo os alunos experimentaram tâmaras e os biscoitos de trigo Emmer feitos pela professora de História (quando possível eles também colocam a mão na massa); uma aluna trouxe um ramo de mirra, que tem plantada no jardim de sua casa, para que os colegas pudessem sentir seu perfume. Imagine o terreno fértil que se abriu por meio dessa experiência!

Para estudar as partes de uma célula, os alunos fizeram a célula comestível nas aulas de Ciências. Membrana, citoplasma, ribossomos e lisossomos foram degustados por alunos e professores. Lembro também do aroma adocicado que tomou conta do laboratório na aula de extração de DNA do morango. Toda vez que vejo essa fruta me lembro daquela aula em que estive apenas como observadora e imagino os alunos que vivenciaram e realizaram a experiência.

O solstício de inverno foi marcado por um festival de chocolate nas aulas de Geografia. O estudo de um povo ou de uma determinada região tem sempre a presença de sua culinária e é comum um ou outro prato típico aparecerem na aula.

Nas aulas de Química há anos os alunos são desafiados pedagogicamente pela professora e os que conseguem o melhor desempenho ganham um pão de mel. Já se tornou uma tradição.

O processo de fermentação é visto na prática quando os alunos fazem bolo de casca de banana na aula de Biologia. Cresce o bolo, cresce o conhecimento sobre o aproveitamento total dos alimentos. Abrem-se novas oportunidades, inclusive para empreender.

Estudar o ciclo do café sentindo o cheiro dos grãos, tomar caldo de cana estudando o ciclo do açúcar nas aulas de História ressignificam o aprendizado.

As lembranças desses momentos de aula ficam gravadas para sempre neles e em nós. É assim também que a escola se torna inesquecível. São as relações e aquele sabor umami (gosto saboroso e agradável) que permanece na memória. Há também as lembranças amargas, mas essas nos fazem crescer e aprender principalmente sobre nós mesmos.

A comida está sempre presente no nosso cotidiano, mas é o propósito da partilha que nos move. Bolos de chocolate feitos especialmente para cada aniversariante, carne louca ou antepasto de berinjela para uma reunião ou um momento mais festivo, torradas feitas com azeite, um chocolate como forma de agradecimento e carinho fazem nosso convívio diário mais humano.  

Ao cozinhar, planejamos o prato, e muito mais do que ingredientes de boa qualidade, colocamos na panela amor, o nosso saber, aquela dica secreta que faz a diferença, dedicamos nosso tempo e cuidado com o modo de preparo e caprichamos na apresentação porque pensamos nas pessoas que partilharão conosco aquele momento. Temos objetivo, intencionalidade e técnica. É uma forma genuína de amor e troca de energia.

  1. E educar? Substitua a palavra cozinhar por educar no parágrafo anterior e teremos a receita básica. Contudo, precisamos incrementá-la convidando os alunos a assumirem o lugar de chef ou sous chef e a criarem novas e surpreendentes receitas.  O serviço self service precisa dar lugar ao à la carte.

O segundo semestre está começando com um novo cardápio a ser criado sob a influência da  Base Nacional Comum Curricular (BNCC), da flexibilidade curricular e dos itinerários formativos previstos na proposta do novo Ensino Médio.

Mesmo que sem todas as respostas – ou receitas – precisaremos colocar a mão na massa, inovar, elaborar o melhor menu e partilhar a construção do conhecimento. E o faremos.

Bom apetite!
*Carolina Sperandio é coordenadora pedagógica do Colégio Rio Branco, unidade Granja Vianna.