Aborrescente? A necessidade de “desrotular” a adolescência

Aborrescente? A necessidade de “desrotular” a adolescência

Uma reflexão para pais, educadores e toda a sociedade sobre a imagem dos jovens e adolescentes no imaginário coletivo, ao longo da história e na atualidade Por Henrique Bovo Lopes*

Colégio Rio Branco

13 Setembro 2017 | 14h26


“A visão naturalizante de adolescência, mais do que uma visão que acoberta as determinações sociais; é uma visão que impede a construção de uma política social adequada para que jovens possam se inserir na sociedade como parceiros sociais fortes, criativos, cheios de projetos de futuro.” (Bock, 2007)

Com certeza você já se identificou com histórias, personagens, situações e, principalmente, sentimentos que permeiam a adolescência e a juventude. Se você é um adulto, seguramente já se sentiu nostálgico, relembrou suas próprias histórias ou sente saudades de um tempo bom que não volta mais.

Se você é um adolescente, enquanto lê essa crônica, talvez sinta na pele a alegria, o medo, a tristeza e a insegurança de fatos que ocorrem com você.  Tanto em um saudoso passado, quanto em um vívido presente, a adolescências deixa marcas subjetivas, definindo para sempre quem somos. Como não poderia deixar de ser, este texto não faria nenhum sentido se não fosse compartilhado com alguém. Alguém adolescente ou alguém que já foi adolescente. Uma reflexão em que tudo começa com o seguinte questionamento: o que é adolescência para quem é adolescente? E para quem é adulto?

Escrevo com o olhar de um professor de História, que há 15 anos leciona para jovens. Em um processo reflexivo de minha carreira, me peguei pensando na história e no contexto de vida de vários deles. Foram muitas vivências, mas algumas me marcaram profundamente. O adolescente sempre fez parte de meu processo reflexivo, então gostaria de propor um pequeno exercício de quebra de paradigmas.


A ideia é tentar de enxergar de forma diferente essa fase de desenvolvimento que conhecemos como adolescência. Ao tentar definir o que ela é, muitos vão dizer que é a fase em que os hormônios afloram e o corpo se transforma. Ora, se estamos falando em transformações biológicas não estamos falando de adolescência, mas sim de puberdade.

Acredito que a adolescência seja um termo mais profundo, socialmente construído no imaginário da sociedade. Sabe o que Aristóteles pensava sobre os jovens gregos lá no século IV a.C.? Que eram apaixonados, irritadiços e impulsivos. Além disso, eles se imaginavam invencíveis! No entanto, para ele, o aspecto mais importante da adolescência era a habilidade do jovem para escolher e decidir por si mesmo o próprio destino e isso seria um indício de maturidade. Escolha do destino? Seria mesmo todo jovem grego livre para escolhas? Pensaria o mesmo os jovens espartanos séculos atrás? Só de pensar que aos 11 anos de idade, o menino já era preparado para servir ao exército e assim defender o seu povo e sua mãe, aceitar isso de forma natural, não nos faz pensar que a juventude nem sempre foi a mesma? Havia adolescência? Todos podiam ser livres?

Aristóteles (à direita) ensinando o jovem Alexandre, o Grande, em gravura de 1875 (imagem reprodução)

Perguntas como estas nos fazem pensar no fato de que precisamos entender a adolescência como um conceito que surge, desaparece ou se transforma no tempo. Não como predestinação, como moratória, como limite, mas sim, como significado construído socialmente em seu momento sócio, histórico e cultural. É muito importante enxergarmos a adolescência como uma fase socialmente construída como um produto.

Na sociedade contemporânea, esta que tem início com a ascensão burguesa no século XVIII, a lógica política e econômica fez surgir uma demanda por uma mão de obra especializada para as indústrias, fazendo com que a fase da juventude se transformasse no intervalo de formação para a vida profissional e adulta. A partir daí surge a escola como uma obrigatoriedade, dividida em classes, em matérias… Um lugar em que se produz e não se conhece o fruto da produção, um lugar com sinal para almoço, lanche… espere, estamos falando de escola ou de uma fábrica? Coincidência?! De forma alguma…

O desenvolvimento do mundo contemporâneo, impulsionado pelas ideias iluministas, revolucionaram o pensamento e a ciência. Com a ciência, os avanços na qualidade de vida, medicina e, consequentemente, o prolongamento da vida humana. Os desafios estavam só começando. Era preciso incorporar e criar meios de subsistência, dentro da nova lógica industrial, para uma população que crescia em escala exponencial.

Neste cenário, foi necessário tornar “inválidas” para a sociedade certas faixas etárias, que passam a ser consideradas improdutivas para o mundo do trabalho. A juventude e a velhice são marginalizadas. Para a criança, é a hora de se manter mais tempo sob a tutela familiar. Um tempo para a formação da vida adulta, produtiva. Surge a escola como instrumento de moldar e regular, com períodos cada vez mais longos de aulas e jovens distantes do mundo dos adultos.

No contato constante com iguais, longe do mundo do trabalho, surge a adolescência, como grupo social e padrão de comportamento. A partir do século XX, as necessidades do mundo capitalista contemporâneo transformam a adolescência em um grande filão da indústria cultural. Ídolos jovens com suas ofertas de produtos criam padrões de beleza, modelos a serem alcançados… sonhos de consumo!  Como no trecho da música “A juventude é uma banda, numa propaganda de refrigerantes”.

Jovens na década de 1960 (imagem/Internet)

Isso nos fez pensar que essa imagem criada do jovem torna comum que ele seja visto como um rebelde, inconsequente ou mesmo apenas como alguém incapaz de ter responsabilidade e ser um sujeito ativo e respeitado na sociedade, capaz de somar como verdadeiro parceiro social.

Os jovens apresentam todas as características cognitivas, físicas e habilidades de trabalho para serem inseridos no mundo adulto. No entanto, com o distanciamento imposto ao mundo do trabalho, diminuem as possibilidades de autossuficiência e consequentemente o tempo de permanência do jovem com sua família aumenta. Mesmo apresentando condições e ideias para atuar de outras formas na sociedade, permanecem na dependência do adulto.

Um comentário que volta e meia se escuta de adultos pelas ruas é “essa juventude está perdida” ou “eles não querem nada com nada”, mas quem foi que os fez ter essa ideia sobre os adolescentes? E não foram eles próprios adolescentes um dia? Com comentários como esse, o adolescente acaba sendo rotulado por pessoas que, levadas por uma visão generalizada dos jovens, os inutilizam socialmente.

O fato é que, enxergando o jovem apenas como um “aborrescente” perdemos de vista o real significado do que é a adolescência e, principalmente, do quanto aquele mesmo jovem que é tão pobremente representado na propaganda de refrigerantes, ou até mesmo em alguns estilos de música, poderia agregar em seu meio, se não fosse marginalizado e taxado de incapaz pelos mais velhos.

“Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério”. O jovem no Brasil nunca é levado a sério – Não é sério’’ Charlie Brown Jr.

A beleza e o desafio está em tentar entender, sem preconceitos ou rótulos, de natureza alguma, momentos vividos por  jovens de todos os tipos de personalidades, classes sociais, épocas e religiões, assim como os temores e valores que permeiam a cabeça de adolescentes  – não os  representados pela mídia, mas os que andam pelas ruas, jogam futebol com os amigos, que lutam para entrar na faculdade, que moram nas comunidades e nas periferias, e muitos outros, e,perceber que não existe uma adolescência, mas  várias experiências, cada qual com suas particularidades, que são regidas bem mais pelo contexto em que estão inseridos, pelos círculos de amizades, classe social e mais uma série de fatores, do que o simples fato de “ser adolescente ou jovem”.

Jovens discutem problemas globais em simulação diplomática da ONU (Colégio Rio Branco)

Sobre isso, Bock (2007), com base no materialismo marxista, entende que o indivíduo se desenvolve a partir da sua relação com o mundo social e cultural. O que devemos enxergar é a dor e a delícia tão importantes! De ser quem se é, como diz um trecho da música de Caetano Veloso. E no final das contas, veja se concorda, quando concluímos que a adolescência não pode ser vista como um fenômeno padronizado, por ser tão diferente para cada um (a minha adolescência e a sua talvez em nada tenham se parecido, por exemplo).

Para alguns, incluindo as sociedades mais antigas, a adolescência não passa de um ensaio para a peça principal, que seria a vida adulta; para outros, essa fase é o clímax da história. Também há quem pense, como nós, que essa fase não passa de uma cena livre em meio a tantas cenas dessa peça que é a vida, em que nem sempre somos atores, mas simples expectadores. Sendo assim, nessa peça da qual todos nós participamos, a adolescência é uma experiência social, sendo inútil e prejudicial a todos rotulá-la. Uma vez que o fizermos, perdemos esse parceiro!

*O texto é uma adaptação do epílogo escrito por Henrique Bovo Lopes para o livro Jovens e Adolescentes em Prosa, da autora Maria Cristina Damianovic.

*Henrique Bovo Lopes é coordenador pedagógico do Colégio Rio Branco. Nasceu em maio de 1979, é historiador e mestre em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É professor de História  e participa de projetos de pesquisa voltados à inserção de tecnologias e mídias no contexto escolar. Ministra cursos, workshops e palestras sobre Educação e tecnologias e é Integrante do grupo de pesquisa Linguagem em Atividades no Contexto Escolar e pesquisador do projeto Digit-M-Ed Brasil.