Malas de Memórias
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Malas de Memórias

Poliedro

08 Setembro 2015 | 11h01

Desde que me tornei professora, sempre me perguntei: “Como fazer o aluno compreender que a história é feita a partir do cotidiano de todas as pessoas que já viveram? Como ensinar que a história não está somente nos livros e documentos, mas está, também e principalmente, na vida de cada um de nós?”.

Ensinar que, desde a Pré-história, o ser humano se preocupa em registrar a sua existência (seu passado, seu presente e suas projeções de futuro) ainda não me satisfazia. Faltava algo. Essa forma de valorizar exclusivamente o passado e o início das nossas civilizações acaba distanciando o aluno da questão central: o indivíduo como protagonista da história. Sentia, durante as minhas aulas, que tudo ficava lá longe e que, só lá longe, a história poderia acontecer.

Foi assim que me dediquei a levar para a sala de aula a pesquisa a partir das metodologias da história oral e da história de vida.

Dessa forma, eu me vi diante de um novo desafio: como motivar os alunos a se interessarem por uma metodologia que não aparece nos livros didáticos?

Os alunos são apegados aos métodos de ensino tradicionais e ainda acreditam que os livros didáticos são, por si só, uma verdade absoluta, assim como qualquer material escrito. Não foi fácil convencê-los de que existem outras formas de estudar história, que o cotidiano também é história, que os documentos escritos podem ser questionados e que ouvir uma pessoa que viveu a história também é conhecer a história.

Nesse processo, encontrei o livro A mala de Hana: uma história real, que me mostrou o caminho que tanto buscava. O livro traz a história de uma menina (Hana Brady) que viveu o Holocausto e o processo de pesquisa de uma estudiosa de um museu no Japão (Fumiko Ishioka).

O projeto “Malas de Memórias”, realizado com as turmas do 9º ano, tem como ponto de partida a leitura desse livro, a fim de compartilhar com o aluno a experiência de Fumiko e sua busca incansável pela história de Hana. Assim, incentivo os alunos a buscarem histórias de suas próprias famílias, a partir de um tema: pessoas que viveram situações de conflito, como guerras, exílios, migrações forçadas ou ditaduras.

Imagem 01

Os alunos, em grupos, devem encontrar a história de um antepassado que queiram contar, estudar sobre o momento histórico que essa pessoa viveu e elaborar um roteiro de perguntas que abranja tanto o aspecto histórico da vida desse parente como seu cotidiano naquele momento (por exemplo, infância, experiências pessoais, opiniões etc.). Com essa etapa concluída, os alunos partem para a entrevista. Como, muitas vezes, esse antepassado já faleceu, os alunos podem entrevistar um parente que saiba contar a sua história.

Com o estudo do momento histórico e a entrevista prontos, os grupos passam a escrever um texto, mesclando a história dos livros com a entrevista feita.

Então começa a etapa mais lúdica e poética do projeto: elaborar uma mala com objetos que contem a história pesquisada e escrita. Nesse momento, surgem ideias incríveis, objetos inesperados, formas de representar o passado que só os alunos poderiam criar.

Dizer que esse projeto é gratificante é pouco. Todas as pessoas envolvidas gostam demais do resultado: os alunos aprendem mais sobre sua história pessoal, suas famílias se emocionam com o resgate histórico e os visitantes de nossa Mostra de Projetos se encantam com a variedade, a beleza e os conhecimentos que nossas “malas” apresentam.

Imagem 02Mala de um sobrevivente do Holocausto que se refugiou no Brasil

Imagem 03Mala de uma sobrevivente da bomba de Hiroshima, bisavó de uma aluna

Imagem 04Mala de um nipo-brasileiro perseguido durante o Estado Novo

Imagem 05Vista de uma parte das malas expostas em 2014

Quem disse que a história está lá longe, em um passado distante?

 

Agradeço aos amigos Prof. Romulo Braga e Profas. Adriana Orselli e Denilse Guenka pela parceria na criação desse projeto.

Érica Turci

Professora de História do Ensino Fundamental II

 

Todos os projetos e exemplos mencionados neste blog referem-se às Unidades Sedes do Poliedro.