Intercâmbio: o que muda depois de uma viagem?
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Intercâmbio: o que muda depois de uma viagem?

Poliedro

01 Dezembro 2015 | 17h27

“A viagem foi muito importante para mim, pois fez com que eu pudesse realmente sair da minha zona de conforto”, expressou o estudante Pedro Fagundes quando questionado sobre as mudanças geradas na vida dele após o intercâmbio de um ano na Dinamarca. A sensação do jovem diante da experiência talvez tenha sido a mesma de muitos outros que decidem enfrentar esse desafio de passar um tempo fora do país e conhecer um pouco mais sobre outras culturas e, acima de tudo, sobre si mesmos.

A personalidade de um indivíduo não é estática, ao contrário, pode se moldar e modificar de acordo com as situações que vivencia. “Seguindo este raciocínio, uma viagem de intercâmbio pode promover mudanças nos modos de agir e de pensar dos jovens. Ao lidar com essas mudanças, os adolescentes amadurecem e se dão conta dos diversos caminhos que podem seguir diante de uma escolha”, esclarece a psicóloga Thaís Ribeiro.

Para viver uma experiência incrível

Nos dias de hoje, o que não faltam são opções para que o jovem realize o sonho de viajar. O que observamos, inclusive, é uma procura cada vez maior por experiências de educação internacional. De acordo com dados da pesquisa “Mercado de Educação Internacional e Intercâmbio do Brasil” (2014), realizada pela associação Belta, o mercado de intercâmbio teve um crescimento de 600% nos últimos 10 anos.

Asian exchange student in London thinking and holding notebooks - education concepts

Se a vontade de ter novas experiências é comum a muitos jovens brasileiros, a consciência de que os conhecimentos adquiridos podem fazer a diferença na hora de entrar no mercado de trabalho também contribui expressivamente para a decisão de investir em uma viagem. “Desde o Ensino Médio os alunos ouvem dos professores e leem notícias relatando a importância de se adaptar a outras culturas e de ter fluência em outra língua para garantir uma boa vaga no mercado de trabalho. De certo modo, então, o sonho de fazer intercâmbio na adolescência/início da fase adulta está também ligado ao sonho de conquistar um bom emprego”, observa a psicóloga.

Mas é claro que o desejo por uma vivência internacional vai além da preocupação com a carreira. As perspectivas proporcionadas por um intercâmbio, se bem aproveitadas, são muito positivas e têm muito a ver com questões envolvidas na própria formação do indivíduo, abrangendo questões que movem o ser humano, como conhecer pessoas e lugares, aprender e conquistar maior liberdade e responsabilidade. “Os jovens vislumbram o crescimento pessoal, as novas e diferentes experiências e tudo isso gera uma disposição à adaptação”, ressalta Thaís.

Pedro, por exemplo, afirma que a ele nunca faltou vontade de passar um período fora do Brasil, já que suas irmãs mais velhas também fizeram intercâmbio e que sua família já recebeu jovens de outros países. Mesmo assim, para conseguir acompanhar as aulas do terceiro ano do Ensino Médio em um colégio da Dinamarca, o estudante teve que ter paciência e enfrentar o período de adaptação que envolvia, principalmente, não conhecer as pessoas, não dominar o idioma local e ter que se acostumar com um sistema de ensino diferente do brasileiro.

“As aulas eram em dinamarquês, então, nos primeiros meses, eu não entendia nada, mas, com a ajuda da minha família hospedeira e dos meus colegas de classe, pude aprender a língua e, então, começar a participar ativamente das aulas. As próprias salas de aula não são como no Brasil: as carteiras são conjuntas, formando um ‘U’ e o professor fica no meio. As provas são realizadas apenas no fim de cada ano, porém, existem muitos trabalhos em grupo, o que facilitou minha adaptação em aula e com os colegas!”, descreve o jovem, afirmando ainda que a viagem o fez reconhecer suas próprias capacidades e parar de “reclamar de boca cheia”.

Nesse sentido, a psicóloga Thaís ressalta que, apesar da empolgação de viver e realizar um sonho, é importante ressaltar que a maioria dos jovens enfrentam algumas dificuldades no período inicial de experiência internacional. A adaptação envolve algo a mais do que a intensa disposição para enfrentar o desafio: exige tempo. “É importante que o jovem se prepare ainda no Brasil para as possíveis dificuldades, sabendo que elas irão surgir e pensando em formas de contorná-las. Após esse período de adaptação, que costuma levar em torno de 3 semanas, o jovem já aprendeu muito – sofreu, se frustrou, teve que ser tolerante com o diferente, precisou se comunicar de diferentes modos para ser entendido – e se adaptou. A partir daí, começa a interagir melhor com o novo ambiente e com os novos círculos de relacionamento, desenvolvendo outras habilidades sociais”, detalha a psicóloga.

Tornar o sonho realidade

Para o diretor do Programa de Intercâmbio Cultural Internacional de uma organização sem fins lucrativos, Benjamin Bueno, a melhor maneira de aproveitar bem uma oportunidade de intercâmbio é ter disponibilidade para aceitar e aprender outras culturas, criar expectativas viáveis com relação à experiência que será vivida e aproveitar para explorar também aspectos geográficos e históricos do país visitado.

Group of people holding a world globe outdoors

Para seguir com sucesso, o ideal é que o planejamento dessa viagem seja um processo conjunto entre o jovem e seus responsáveis, com o possível auxílio de agências de viagem ou organizações sem fins lucrativos que promovem intercâmbios entre seus associados em diversos países. Mas, afinal, qual o melhor tipo de programa para cada pessoa?

Tudo depende dos objetivos do jovem, mas, independentemente da escolha, a viagem internacional revela sempre uma oportunidade de se abrir para o conhecimento. No período do Ensino Médio, por exemplo, é interessante que o adolescente se disponha a vivenciar uma experiência de ensino regular, optando, geralmente, por cursar de seis meses a um ano do período correspondente no país de sua escolha. Porém, para aqueles que se sentem inseguros de ficar um longo período fora do país, existe a opção de viajar durante as férias escolares para fazer cursos específicos em outras áreas (como moda, gastronomia, esportes, teatro, etc.) e/ou estudar a língua do país.

Já para os jovens que concluíram o Ensino Médio e ainda estão em fase de preparação para ingressar em uma universidade, Benjamin Bueno destaca que as opções de cursos avançados de línguas tendem a ser as mais condizentes com o momento vivido. Inclusive, o especialista ressalta ainda que mesmo a experiência de viajar sem fazer um curso, apenas como passeio para conhecer lugares e culturas, é muito válida.

Seja qual for a experiência de intercâmbio, pais e jovens devem conversar bastante sobre os aspectos positivos e negativos da viagem, ponderando sobre qual a melhor decisão para aquela família. “É importante que, em conjunto, a família avalie o melhor momento para que o jovem viaje, a duração e o país de destino”, aconselha a psicóloga Thaís Ribeiro.

Para os responsáveis, que muitas vezes ficam inseguros na hora de incentivar e organizar a viagem dos adolescentes, é a hora de avaliar e confiar na educação que deram a seus filhos e aceitar que só poderão oferecer ajuda à distância, orientando para que tomem as melhores decisões e se comportem de maneira responsável. A psicóloga ressalta ainda que “os pais devem considerar os aspectos positivos e negativos da viagem para que consigam separar seus medos e inseguranças dos benefícios propiciados ao futuro dos filhos”. Nesse ponto, um fator essencial para que a experiência internacional do jovem seja extremamente positiva é a comunicação e o vínculo estabelecido entre pais e filhos ao longo da vida, com coerência, confiança e limites no momento certo.

Aos pais que gostariam que seu filho vivesse uma experiência internacional, mas não observam no adolescente a vontade de enfrentar esse desafio, vale propor uma conversa sobre como a viagem poderia ajudá-lo a crescer do ponto de vista pessoal e profissional e, ao conversar, podem perceber se o jovem realmente não quer viajar, ou se gostaria, mas está inseguro. “Se for o segundo caso e o adolescente concordar, uma possível solução é buscar ajuda de um psicólogo para que o jovem encare seus medos e aprenda a enfrentar e a lidar com suas dificuldades para que possa tomar a decisão de ir viajar. Porém, vale lembrar que, se o jovem não quer viajar agora, isso não significa que ele não possa ter essa experiência no futuro”, esclarece a psicóloga.

É muito importante ter em mente que não existem restrições de idade para que o sonho do intercâmbio seja vivido. O que mais vale é que a viagem aconteça em um momento em que o indivíduo esteja aberto a enfrentar as mudanças e desfrutar dos aprendizados e descobertas que esta experiência é capaz de proporcionar.

“O destino de alguém nunca é um lugar, mas uma nova maneira de ver as coisas.” (Henry Miller)

Anaiza Castellani Selingardi

Jornalista e editora de texto no Sistema de Ensino Poliedro

 

Todos os projetos e exemplos mencionados neste blog referem-se às Unidades Sedes do Poliedro.