Infância, mídia e consumo
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Infância, mídia e consumo

Poliedro

12 Janeiro 2016 | 16h55

A relação entre mídia e crianças tem sido alvo de discussões e estudos há algum tempo. Porém, após o Inep abordar a temática no Enem 2014, essa questão voltou, fortemente, a ter espaço nos veículos de comunicação. Trata-se de uma íntima relação, permeada por interesses diversos e inúmeras variáveis. Um fato determinante desse processo é a consolidação da criança como consumidora ativa e com alto poder de influência.

Durante os últimos anos, foram crescentes os gastos com publicidade para esse público, assim como o aumento de esforços criativos para a construção de estratégias que garantissem as vendas. Entre desenhos animados e jogos, novos brinquedos eram anunciados. Um mundo mágico, repleto de fantasia, despertava o desejo imediato por possuí-los. A ansiedade tomava conta da criança e, para manter a situação sob controle, os pais rapidamente efetivavam a compra.

Isso ocorreu até o início de 2014, quando o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, o Conanda, proibiu as ações publicitárias para esse público. Contudo, não se extinguiu a relação entre mídia e infância, que passou a estabelecer novos contornos.

Uma relação cada vez mais estreita


Por meio dos meios de comunicação, as fronteiras entre conteúdo livre e publicitário foram eliminadas.  Animações, jogos, vídeos e outros recursos passaram a se fundir cada vez mais com o objetivo de impactá-las de forma eficiente.

O tempo de contato com os canais de comunicação e com o estímulo ao consumo também aumentou significativamente nos últimos anos. Segundo dados do Painel Nacional de Televisores, divulgado pelo Ibope em 2012, as crianças brasileiras passam cerca de cinco horas e vinte minutos assistindo televisão. Nas grandes cidades, isso é agravado pelos passeios a shoppings e centros de compras, onde as crianças são imersas em um ambiente comercial.

Little girl with a big bag for shopping

A demasiada exposição desperta, nos pequenos consumidores, uma vontade crescente por possuir o que há de mais moderno, segundo especialistas. Isso acontece pelo entendimento de que esse é o caminho para serem aceitos socialmente. Essa percepção ainda é reforçada pela forma como os pais lidam com o próprio consumo e pelo fato de que elas não conseguem dimensionar uma escala monetária, ou seja, não entendem o real valor do dinheiro.

Com essas e outras justificativas, no início de 2014, o Conanda, órgão vinculado à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lançou uma resolução proibindo a publicidade direcionada a crianças. Segundo a Resolução 163/2014, “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço é abusiva e, portanto, ilegal. ”

Essa resolução torna ilegal o direcionamento de qualquer tipo de publicidade para crianças, como banners, comerciais de TV, spots de rádios, anúncios impressos, merchandising, ações em shows e em pontos de venda.

A ação do Conanda visa coibir os impactos sociais e emocionais do consumismo infantil. Mas quais são esses impactos?

Os impactos sociais do consumo infantil

O poder da mídia de influenciar é capaz de provocar consequências na organização da sociedade.

Alguns teóricos defendem que ela altera a percepção social e sua construção. Ou seja, as experiências trazidas por ela influenciam, de forma decisiva, a formação das relações sociais e a maneira como o indivíduo estabelece sua conduta na sociedade.

Para eles, ao estimular o consumo infantil, a mídia leva esse comportamento a extremos, tornando-o uma mazela social crônica.

Segundo pesquisa da World Childhood Foundation, 65% das meninas exploradas sexualmente declaram usar o dinheiro conseguido para comprar celular, tênis ou roupas.

Portanto, a sociedade entra em uma espiral crescente de acúmulo de bens, onde a importância reside na aquisição de novos produtos, como forma de aceitação social. Os que não possuem poder aquisitivo para tal e, portanto, se encontram às margens, acabam utilizando meios ilícitos para serem incluídos.

Segundo o Instituto Alana, organização não-governamental que atua no desenvolvimento de ações e pesquisas de conscientização sobre as condições de vida das crianças, “as consequências relacionadas aos excessos do consumismo são: obesidade infantil, erotização precoce, consumo precoce de tabaco e álcool, estresse familiar, banalização da agressividade e violência, entre outras.”

Consumismo e desenvolvimento infantil

Segundo Valeria Aparecida Guimarães e Silva, pedagoga, as consequências do consumismo infantil podem ser refletidas em diversas áreas.

“Essa questão traz várias consequências para as crianças como obesidade, falta de criatividade e falta de imaginação para brincar com jogos simples. As crianças passam a se comparar muito, causando bullying, além de ficarem descontroladas, pois não conseguem lidar com o ‘não’ “, diz Valéria.

Nesse ínterim, o aumento da ansiedade emerge como urgência. A criança adquire um imediatismo que, quando não correspondido, traz sofrimento. Com isso, não desenvolve a capacidade de lidar com a frustração, que fará parte de toda sua vida.

Para Valéria, o ’não’ tem que estar presente a todo momento. “Os pais precisam ter segurança de falar ‘não’ para o filho, porque a frustração faz parte do nosso desenvolvimento como ser humano. ”. Portanto, é necessário que se estabeleçam filtros no contato das crianças com o consumo, para que elas não sejam colocadas à mercê da mídia, vulneráveis ao bombardeio de informações.

Happy smiling child sitting in trolley cart with colorful shopping bags having fun

Para a pedagoga, a atuação da família é essencial nessa proteção, pois é onde os valores são construídos. “Elas (crianças) podem ser expostas (a mídia), mas quem deve fazer esse caminho de filtro é a família que está ali para educar. Como educamos uma criança para assistir a um filme inteiro sem atrapalhar ninguém, educamos para o consumo, para as posturas que pretendemos que elas tenham”, explica Valéria, que também afirma que os pais, em parceria com a escola (que pode oferecer suporte e orientação), devem ficar atentos ao que as crianças assistem, jogam ou consomem.

Reservar um tempo para os filhos é primordial nesse processo, pois uma simples brincadeira, segundo a pedagoga, já é suficiente para trabalhar valores e trazer qualidade de vida para essa criança. “Quando os pais brincam, a televisão está desligada. O bombardeio é menor. ” E ela continua dizendo que os pais devem sempre realizar os seguintes questionamentos: “O que eu quero que meus filhos sejam? Quais valores eu quero que eles desenvolvam? ”.

A especialista ainda levanta um outro aspecto dessa questão: o fator ambiental. O acúmulo constante de bens, significa também o aumento do lixo. Portanto, é necessário conversar sobre isso com as crianças e levantar esse questionamento. Para ela “é preciso explicar a relação com o planeta, com o lixo, com o tanto de energia elétrica que vai na produção, a quantidade de água. ”

Valéria alerta que é urgente a ampliação de espaços de discussões sobre esse assunto, em âmbitos diversos: na escola, na família e nos governos. E essas esferas devem dialogar em busca de estratégias que minimizem os efeitos dessa problemática.

O desenvolvimento das crianças é (deve ser) uma preocupação de toda a sociedade.

Alex Félix dos Santos

Redator Web na área de Comunicação & Marketing do Poliedro

 

Fontes:

http://www12.senado.gov.br/jornal/edicoes/2014/04/29/medida-proibe-publicidade-dirigida-ao-publico-infantil

http://criancaeconsumo.org.br/consumismo-infantil/

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/10/08/ult5772u5618.jhtm