Do saber ler ao ser leitor
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Do saber ler ao ser leitor

Poliedro

29 Setembro 2015 | 11h33

O despertar da leitura como hábito cultural e a percepção da realidade que nos cerca

 

“Na época moderna, à literatura cabe um papel integrador. O papel de superar o abismo existente entre a arte e a vida, arte e ciência, na medida em que ela mesma é concebida como uma forma de conhecimento dessa totalidade, que é o homem.” (Maurício Tragtenberg, sociólogo e professor brasileiro)

Artigo-Anaiza

A todo tempo somos convidados a exercer nossa habilidade de leitura. Descrições nos rótulos dos produtos nas prateleiras, anúncios em outdoors, conversas virtuais, informações sobre as tarefas do dia a dia… Mas será que o fato de ler para cumprir nossas necessidades diárias faz de nós verdadeiros leitores?

No dicionário, a palavra leitor, em seu sentido mais amplo, é definida como “que ou aquele que tem o hábito de ler”. Então, talvez seja mais interessante interpretar a leitura como um exercício cultural, e não apenas como uma atividade mecânica e rotineira. Assim, formar leitores vai muito além de alfabetizar: envolve incentivar e instigar o gosto pela leitura como prática de aprimoramento dos potenciais do ser humano.

A criação para a leitura

O despertar para a leitura pode ser desenvolvido antes mesmo da alfabetização, ainda que a criança não tente decifrar as palavras. Inclusive, uma nova recomendação da AAP (Academia Americana de Pediatria) aconselha os médicos a indicarem que os responsáveis leiam em voz alta para os bebês, estimulando, assim, a linguagem e a alfabetização, além de estreitar as relações familiares.

“O comportamento da família será determinante nessa fase para despertar o gosto pela leitura. Um bebê que cresce na casa de leitores demonstrará gosto pelos livros desde cedo, será para ele um ato natural, os livros farão parte de sua vida”, explica Maria Sueli Oliveira Araújo, professora aposentada de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental, destacando a importância do papel familiar na criação de um indivíduo leitor.

Já a psicóloga e psicopedagoga Ana Beatriz Gaede Nogueira esclarece que, pensando na primeira infância, existem muitos recursos para fazer com que as crianças comecem a se familiarizar com os livros: “Observamos hoje muitos livros que se destacam em sua forma, trazendo diferentes desenhos, cores, texturas, várias soluções que permitem à criança compreender seu conteúdo, sem necessariamente a presença do adulto leitor. O livro, usado dessa maneira, passa a ser visto como um brinquedo e se relaciona com um momento prazeroso e divertido”.

Com o início da alfabetização, são as figuras que auxiliam no processo de leitura. A psicóloga explica que, nessa fase, a presença do adulto como mediador do conteúdo e da forma passa a ser importante e pode ser a chave na criação do hábito de ler como parte das práticas de lazer, e não apenas como atividade escolar obrigatória.

Aliás, sobre essa relação da escola com a criação de indivíduos verdadeiramente leitores, a professora Maria Sueli ressalta que “o ideal seria a criança chegar à escola já encantada com a leitura. Com esse conhecimento, os professores só teriam que dar continuidade. Porém, se o aluno não chega nesse estágio, cabe ao professor dar incentivo a fim de despertar esse interesse”.

Já com o avançar da idade, o conteúdo e a imaginação vão substituindo as figuras, tornando-as menos necessárias, uma vez que o leitor se habitua com o processo de decodificação/significação. “Ler, compreender e imaginar (de maneira pessoal e subjetiva) o que está escrito na história se torna mais natural. A forma vai complementado o conteúdo, vestida agora dos diferentes gêneros literários”, completa a psicóloga Ana Beatriz.

Literatura e a interpretação do mundo

A linguagem é um dos aspectos mais importantes do desenvolvimento humano. É através dela que o indivíduo constrói suas relações com as pessoas e com o mundo ao seu redor, admitindo a possibilidade de estruturar o pensamento, planejar, criar, refletir, imaginar e, mais do que isso, transmitir todos os seus conhecimentos e experiências. Porém, para que todo esse processo seja desencadeado, é necessário um mediador que, de acordo com as explicações da psicóloga Ana Beatriz, é representado pelo outro.

“A leitura nos traz a possibilidade de se apropriar de um mediador que não precisa estar fisicamente presente, pois temos acesso ao conteúdo por ele criado através do texto, e isso expande nossa capacidade de se relacionar com o mundo de maneira exponencial”, detalha a psicóloga. Dessa maneira, quando aprendemos a ler de maneira a compreender o que está escrito, além de simplesmente decodificar palavras, temos a chance de conhecer um novo mundo e expandir nossa percepção.

Nesse sentido, a literatura, como representante do campo das artes, permite adentrar um amplo universo de recursos subjetivos e objetivos, despertando a sensibilidade para observar a realidade e fazer associações entre o plano concreto e o abstrato. A partir dessa ideia, a professora Maria Sueli destaca a importância do estudo literário nas escolas, já que, em sua visão, para que seja transformado em leitor, o indivíduo deve conceber a prática da leitura como possibilidade de novas perspectivas, permitindo que ele reflita e se posicione criticamente diante da realidade, tendo, assim, capacidade de transformá-la.

Talvez, desse modo, encontremos um novo sentido para a palavra leitura; um sentido figurado, descrito no dicionário Houaiss como “maneira de compreender, de interpretar um texto, uma mensagem, um acontecimento” e discutido pelo autor Moacyr Scliar em seu texto “O valor simbólico da leitura”, publicado na coletânea Retratos da leitura no Brasil. Aqui, vemos então a leitura e a literatura completarem seu papel de desenvolver verdadeiros leitores, críticos de sua própria existência e do mundo ao seu redor.

Anaiza Castellani Selingardi
Jornalista e Editora de Texto do Sistema de Ensino Poliedro

 

Se quiser ler mais sobre o assunto:
AMORIM, Galeno (Org.). Retratos da leitura no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial: Instituto Pró-livro, 2008.
Disponível em:
Acesso em: 16 mar. 2015.

Fontes:
Ana Beatriz Gaede Nogueira, psicóloga, pedagoga e psicopedagoga.
Maria Sueli Oliveira Araújo, professora do Ensino Fundamental I, aposentada pela rede pública do Estado de São Paulo e da rede particular, com especialidade no ensino da Língua Portuguesa. Graduada em Ciências Sociais.

Todos os projetos e exemplos mencionados neste blog referem-se às Unidades Sedes do Poliedro.