A dinâmica de uma prova
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A dinâmica de uma prova

Poliedro

15 Dezembro 2015 | 16h54

Ver e rever: experiências e descobertas ao prestar o Enem 2015

(Crônica de Anaiza Castellani Selingardi)

Sexta-feira. Pós-expediente. “Ainda vai ter que dar tempo de passar no shopping pra comprar as canetas e um lanchinho”, pensei. Alguns amigos me chamaram para sair, tive que responder que o dia seguinte era importante. Na papelaria, uma orientação para mim e para mais um garoto: “o corpo da caneta tem que ser transparente, não pode nem ter esse cartucho amarelinho aí por dentro”. Aproveitei e dei meu conselho também: “não leva só uma caneta não, hein?”. No mercado, preferi comprar umas bolachinhas integrais, barrinha de cereal, chocolate 70% cacau e água mineral; mas vi, no caixa, um casal de estudantes passar um estoque de salgadinho, bala e refrigerante. Independente de qual fosse a preferência, eu sabia que, a princípio, mais de 7 milhões de pessoas estavam se preparando como eu.

Sábado. 24 de outubro de 2015. Seria um final de semana comum se, após ter concluído o Ensino Médio há 10 anos, eu não tivesse me proposto a prestar o Enem. Aquele momento era como uma extensão voluntária do meu trabalho, já que passei o ano desenvolvendo uma coleção de livros didáticos toda baseada nos eixos que guiam o Exame Nacional do Ensino Médio. Queria sentir, na prática, um pouco do que o estudante sente; ver se tudo o que pesquisei ao longo do ano estaria concretizado na prova; testar, ainda, se os conhecimentos que adquiri no Ensino Médio realmente me acompanham pela vida – afinal, esta é, de alguma maneira, a proposta de avaliação do exame.

Para mim, o almoço saiu cedo e light. Antes dele, ainda deu tempo de ler sobre certos assuntos que haviam ficado esquecidos em algum lugar da minha memória desde 2005: chuva ácida, biocombustíveis, seno, cosseno, tangente, áreas de atividade agrícola no Brasil, Leis de Newton … Hoje em dia ficou fácil revisar temas sem se desesperar. Os assuntos estão elencados e resumidos em dezenas de sites; no Youtube, por exemplo, podemos assistir verdadeiras aulas (curtas e práticas!).

Checklist: documento original com foto; canetas esferográficas pretas de corpo transparente; cartão de confirmação impresso; comida e água mineral. Na porta da instituição de ensino onde fiz a prova, um verdadeiro ponto de encontro de jovens amigos que compartilharam o ano de estudo. Fiquei ali, apenas como observadora daquele dia tão importante para eles. “Melhor já procurar a sala de prova e esperar com a garantia de que vai dar tempo de entrar”, percebi logo, como a maioria dos candidatos, pois meia hora antes do fechamento dos portões já havia fila para entrar na sala.

Celular no saquinho lacrado. Procurei um lugar próximo à janela; o dia estava quente, mas o céu se mantinha um pouco nublado, aliviando a sensação de perder a tarde de sol. Cada um que chegava, quieto na tentativa se de concentrar, observava o lugar mais adequado para se posicionar – perto do ventilador, ao fundo da sala, talvez mais no meio. Alimentos em cima da mesa para revista. Documento e canetas a serem conferidos pelos fiscais. Entrega das provas intercaladas entre as 4 cores diferentes. Orientações. Sinal. Pode começar!

Foto 01

Comecei na ordem certa. Era dia de Ciências Humanas e Ciências da Natureza – nesta ordem! – e, naturalmente, como graduada em um curso de Humanas (Jornalismo), minha chance de angariar pontos era maior começando pela área. Na primeira questão da minha prova (rosa) dei de cara com um tema clássico: Idade Média; fiz algum esforço para relembrar conceitos que já não estavam tão claros na minha mente, mas segui em frente. Como sabia que iria encontrar muitos textos pela frente, adotei a tática de sempre ler o enunciado antes, para depois já voltar ao texto de apoio sabendo o que deveria procurar. A tática não fez a prova menos cansativa, mas deve ter me ajudado a ganhar algum tempo.

Ao longo da prova de Ciências Humanas, textos interessantes, quadrinhos para serem interpretados, oportunidades para refletir sobre temas atuais – sim, algumas questões mais conceituais, como as de geografia física e a que relembrava a definição de ágora. Confesso, inclusive, ter esboçado um sorriso no rosto quando vi a prova discutir a própria educação em uma questão que citava Paulo Freire e o desenvolvimento do pensamento autônomo.

Sobrou menos tempo para fazer Ciências da Natureza; ainda assim, o suficiente para, pelo menos, ler todas as questões. Aquelas que não exigiam cálculos, mas sim conceitos teóricos contextualizados, me fizeram ver que algumas teorias ainda estavam na minha memória e, mais do que isso, aplicadas ao meu dia a dia. Outra tática que adotei foi olhar os créditos/ fontes dos textos de apoio para ver se me davam dicas: uma questão de Biologia, por exemplo, consegui resolver porque, no crédito do texto, vi que tratava-se de uma pesquisa sobre moluscos e, então, lembrei de associar a doença esquistossomose aos caramujos.

Com tanta informação para ser apreendida e testada, as 4 horas e meia de prova passaram rápido demais e a sala permaneceu quase cheia até perto do horário máximo de encerramento. Nos portões de saída, sem conhecer ninguém, fiquei mais uma vez como espectadora dos comentários dos estudantes – inclusive, encontrei o menino da papelaria, aquele para quem indiquei que levasse mais de uma caneta preta. “Pronto! Agora é respirar fundo, arrumar um programa leve para finalizar o sábado e amanhã tem mais!”.

Female student is taking test in math. Fingers in focus.

Domingo. 25 de outubro de 2015. Como todos, estava ansiosa para saber o tema da redação. Desta vez, passei o almoço discutindo com meus pais alguns temas que tinham chance de cair. Checklist. Comentários sobre a prova do dia anterior. Sala de prova. Alimentos em cima da mesa para revista – desta vez, a garota do meu lado resolveu levar só chocolate (1, 2, 3 … 8! Lollo’s). Documento e canetas a serem conferidos pelos fiscais. Entrega das provas intercaladas entre as 4 cores diferentes. Orientações. Sinal. Pode começar!

Eu e 99% da sala viramos a primeira página da prova ansiosos pelo tema de redação: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. As meninas atrás de mim comemoraram com uma interjeição; não conseguiram conter a mesma emoção que senti e esbocei com um sorriso. Como muitos ao meu redor, apenas rascunhei alguns argumentos que vieram à cabeça para a redação e parti para a prova de Linguagens. O volume de textos foi ainda maior do que o do dia anterior. Senti algumas questões de interpretação complexas – mais pelas alternativas, que geravam alguma confusão, do que pelos textos em si. Ao mesmo tempo, adorei ver temas de artes, dança e sobre a tão difundida cultura do mundo digital sendo discutidos. Confesso não ter tido muito tempo (e nem conhecimento na memória) para resolver as questões de Matemática. Na correria em que estava, me concentrei em resolver as questões que me pareciam mais simples, baseadas em interpretação de gráficos e cálculos por regra de três. Usei as 5 horas e meia disponíveis e, mais uma vez, tive a companhia de mais da metade da sala até o final do tempo cronometrado.

No final daquela tarde de domingo, a tão esperada prova havia acabado, mas sua imensa repercussão estava apenas começando… Ufa! Missão cumprida. Ainda cansada, saí pelo portão satisfeita por conhecer tão de perto a dinâmica do exame que, aos poucos, tem se configurado como o futuro da educação brasileira e do acesso ao Ensino Superior no país.

Anaiza Castellani Selingardi

Jornalista e editora de texto no Sistema de Ensino Poliedro

 

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