Neymar Faz Mal Ao Brasil Real: A Perigosa Crença Do Pouco Esforço Que Invadiu Os Pátios Escolares

Liceu Jardim

15 Setembro 2017 | 09h25

Por Daniel Contro

Diretor Presidente – Liceu Jardim

Neymar faz mal às crianças do Brasil. Não o Neymar inviso, mas aquele que vemos. Há dois neymares em um.  O primeiro – prodígio, onipotente, endeusado – está no altar. O segundo – camisa suada, joelhos exauridos, rotina rija e esfalfante – jaz irrevelado.  A mídia, fingindo desconhecer seu poder de manipular as mentes juvenis, exalta o primeiro e oculta o segundo. Olhai os pátios das escolas: após a ascensão do fenômeno, acabaram tomados de neymares, prodígio que, num piscar de olhos, pôs o mundo de joelhos, virou celebridade planetária e usurpou o sonho dos garotos.  Porque a mídia esconde o que o Neymar humano tem que fazer para tornar-se o Neymar divino, omitindo suas horas a fio de treinos exaustivos e esforços extenuantes. Ficou mais atraente ser Neymar do que bom estudante.

Nenhum menino acredita mais no esforço para elevar sua vida. Antes, acredita repetir o caminho milagroso do ídolo.

O Neymar garoto propaganda do álcool é uma ameaça. Mas, devastador mesmo, é o Neymar chuteira de ouro sem meias suadas.

Tivemos um presidente que desdenhava do estudo para chegar ao sucesso. Agora, nosso ídolo maior sentou pouco em sua carteira de escola. O fruto fácil existe, Neymar não deixa mentir.

É urgente revelar aos meninos o Neymar de tíbia trincada e disciplina rija. Eles crerão menos no enleio do sucesso mágico e mais no poder redentor dos números assimilados e livros abertos.

 

*Daniel Belluci Contro é professor de história e tem mais de 25 anos de experiência na área da Educação, com passagem pelo sistema público estadual como professor e, na esfera do ensino privado, em todos os níveis, como professor, coordenador e gestor. Foi diretor de Educação na gestão do ex-prefeito Luiz Tortorello (1989-1992) e Secretário da Educação de São Caetano do Sul (2014). É membro da Academia de Letras da Grande São Paulo.