Memória e Aprendizagem: as contribuições à luz da neurociência

Liceu Jardim

24 Janeiro 2018 | 17h24

Já imaginou se pudéssemos lembrar de tudo o que aprendemos ou vivenciamos com a facilidade em que nos recordamos dos nomes de familiares ou o que comemos na última refeição? A neurociência pode esclarecer como aprendemos e formamos memória, resgatando algumas com facilidade e esquecendo totalmente de outras.

Parte-se do princípio de que as informações do meio são recebidas através das capacidades sensoriais e motoras, e em seguida processadas no sistema nervoso. Cada novo conhecimento promove sinapses (ligações neuronais) e acessa as já existentes em busca de associações. Quando essa informação é mantida apenas enquanto a utilizamos, momentaneamente, recebe o nome de memória de trabalho. Após um novo conhecimento ser consolidado, isto é, considerado importante para ficar guardado, torna-se memória de longa duração.

Cada ser é um indivíduo único, que percebe o mundo de uma forma diferente, ou seja, o que é importante e belo para um, pode passar despercebido para o outro. Portanto, mesmo que duas pessoas passem exatamente pelas mesmas experiências, cada qual processará as informações de acordo com seu próprio entendimento, com sua atenção ou com o que lhe interessa. Isso revela que a memória é algo extremamente pessoal. A atenção ao recebermos uma informação e o valor sentimental que atribuímos a ela são essenciais para determinar o que guardaremos de forma mais reforçada.

Conservamos só uma pequena fração de toda informação que passa por nossa memória de trabalho. Imaginemos uma pessoa que pratica piano. A cada aula melhora seu desempenho e quanto mais toca determinada música, mais lhe parece fácil. Isso ocorre porque as sinapses e mecanismos envolvidos na aprendizagem desta tarefa se fortalecem com a prática. Por outro lado, se essa mesma pessoa deixar de fazer aulas e passar um período sem tocar piano, provavelmente esquecerá a ordem das teclas que deve apertar para tocar a mesma música, ou conseguirá com bem menos agilidade. Isso se deve ao fato de que as sinapses deste aprendizado foram enfraquecendo.

Para que resgatemos uma informação, por vezes, faz-se necessário recompor o cenário onde a recebemos, relembrar a sensação que tivemos e utilizar o maior número possível de vínculos, acionando ligações neuronais relacionadas à informação ou ao momento que ela foi recebida. Estímulos referentes a determinados conceitos auxiliam na evocação rápida, tais como imagem, a primeira palavra de uma poesia, certos gestos ou sons.

Estimular uma memória algumas horas após sua aquisição pode facilitar sua consolidação. No âmbito escolar, a lição de casa é um momento em que o aluno deve ser capaz de refazer os processos pelos quais aprendeu acessando as conexões neuronais recém-formadas. Esse processo é muito importante para a sistematização dos conceitos e formação de memórias perduráveis.

Não é incomum ouvirmos relatos ou mesmo passarmos por uma situação em que a pessoa dominava determinado conhecimento, mas ao ser submetida a uma prova, uma entrevista ou fala em público, as informações ficam comprometidas, vindo à tona incompletas ou com mais dificuldade. Os “brancos”, falhas repentinas que ocorrem em determinados momentos, podem ser ocasionados por estresse ou alta ansiedade que promovem a liberação de corticóides (hormônios). Estes, quando em excesso, agem em certos neurônios receptores, causando episódios de esquecimentos.

Outro dizer corriqueiro é a ideia de que o aluno precisa entender e não só memorizar os conteúdos escolares. Essa concepção torna-se equivocada, visto que alguns tipos de metodologias escolares levam o aprendiz a trabalhar de forma superficial, constituindo memórias de curta duração, e por isso, o conteúdo realmente some logo da mente. Mas, quando assimilamos, sistematizamos e formarmos conceitos, estabelecemos uma memória de longa duração. Assim, aprender e entender tornam-se sinônimo de memorizar.

Os jovens de hoje são ávidos por imagens e movimentos, acostumados com vídeos, jogos, sons e dinamismo. Portanto, inovar as estratégias de ensino como incluir recursos visuais, audiovisuais, como IPADs, games e demais mídias é uma necessidade nas escolas. Aulas dinâmicas, interessantes e desafiadoras, aliadas à repetição e ao treino como formas de reforçar as sinapses, despertam a atenção e interesse dos alunos, contribuindo para a memorização.

Para os educadores, é preciso ver cada aluno como um indivíduo com grandes capacidades a serem exploradas, capaz de consolidar memórias alicerçadas por práticas que solidifiquem os novos conhecimentos, comprometendo-se assim com um ensino de qualidade.

Mônica Sigarini é graduada em pedagogia e pós-graduada em psicopedagogia pela UMESP, pós-graduada em neuroeducação pela USCS. Especialista em gramática pela PUC e atua como Coordenadora Escola Ampliada- Colégio Liceu Jardim