E a discussão sobre alfabetização continua…

Patrícia Delázari

07 Dezembro 2017 | 16h57

No Estadão de sexta-feira, dia 10 de novembro de 2017, foi publicada uma reportagem sob o título” Escolas discordam da Base Nacional Curricular Comum”

Destaco alguns aspectos. O primeiro diz respeito à gritante divergência de posicionamento entre as autoridades responsáveis, pelos rumos dessa Reforma.

O Secretário da Educação Básica do MEC, Rossieli Soares da Silva afirma que “O documento não diz como as escolas devem ensinar, como não diz também, que os alunos têm de decorar o alfabeto, mas sim, que têm de saber o alfabeto”. Uma afirmação que se contrapõe à outra, pois saber o alfabeto é uma consequência que ocorre naturalmente, em tempos diferentes de acordo com o método usado.

Já o Presidente do CNE, Eduardo Deschamps afirma que, “As escolas que ignorarem a norma podem ser proibidas de abrir matrículas ou ter cassada a autorização para funcionar”. Total contrassenso, na medida em que, ainda vivemos uma democracia.


O integrante do CNE e Presidente da Comissão de Base, Cesar Callegari tranquiliza, esclarecendo que a Base Nacional Curricular Comum será uma “bússola” para as escolas. Aliás Callegari tem longa história na educação o que o qualifica a mais ponderações.

Em segundo lugar, salta aos olhos a radicalização entre as manifestações de educadores de escolas privadas, que fazem observações de acordo com o que acreditam e que deveria lhes ser facultado, pois são escolas que primam pela busca da excelência, pelo tanto que se aprofundam nas teorias educacionais.

Assim sendo, não deveria haver o certo e o errado. O importante é que os alunos cumpram o processo de forma prazerosa e não como um penoso desafio. Sabemos que qualquer método alfabetiza, desde o sintético, passando pelo analítico, até chegar ao construtivista. Posso afirmar isto com segurança, porque fui alfabetizada pelo único método conhecido em 1940 e, tendo pertencido às “hordas” de professores e multiplicadores voluntários de Paulo Freire, ao fundar minhas escolas, optei pela alfabetização, pois correspondia aos meus ideais libertários.

Dada minha longevidade assisti como aluna e como educadora a dezesseis Reformas de Ensino neste país, das quais, a dos Referenciais e Parâmetros Curriculares participei como Coordenadora de três Comissões do MEC.

Ao longo de minha jornada, acompanhei as discussões sobre o tema, ao redor do mundo. E hoje, realmente me causa surpresa ainda haver divergência quanto à melhor metodologia e qual a idade mais adequada para alfabetizar, quando as neurociências tratam do assunto num plano de normalidade (o que significa alfabetizar, respeitando o ritmo e as necessidades individuais) dentro da faixa etária dos cinco aos oito anos.

Há mais de seis décadas, quando Paulo Freire iniciou sua campanha por um Brasil alfabetizado, a partir dos interesses e da experiência vivencial de cada grupo, essa discussão embasada pela teoria cognitivista e do desenvolvimento de Piaget, enriquecida pela teoria sócio-construtivista de Vigotsky, foi transposta para a infância e vários aspectos foram desmistificados.

Deixou de ser importante obedecer aos critérios de maturidade neurológica do indivíduo, preconizados pelo Estado e que estabeleciam rigorosamente a idade de sete anos, como um marco definitivo para o início da alfabetização. As escolas privadas de então, cujos membros debruçavam-se e continuam a se debruçar com afã ao aprofundamento de seus estudos, sentiram-se livres para realizar um trabalho rico e de consenso, sustentado por seus conhecimentos.

Ficou claro naquela época, que a alfabetização tida como um código artificial, diferente da fala, tinha de ser desenvolvida da forma o mais próxima do natural possível, sem traumas e sofrimento. Houve pediatras que fizeram experiências bem sucedidas nesse sentido, entre eles, Glen Donan. Quando nasceu seu primeiro neto, ele o ensinou a ler ao mesmo tempo em que começava a falar, aos dois anos.

Desde então, definiu-se que a leitura poderia ocorrer a qualquer tempo, mas a escrita, esta sim, dependia da maturidade neurológica, responsável pela motricidade fina. Nos Estados Unidos, estabeleceu-se que a criança escreveria com letra bastão até o terceiro ano, mas era liberada para o uso da letra cursiva, se esse fosse seu desejo e tivesse competência para bancar sua decisão.

Nos dias de hoje, com o bombardeio dos meios de comunicação, smartphones, DVDs, “Play Stations”, games, computadores, internet e redes sociais, já não há espaço para dúvida. A aquisição do código de leitura e escrita transformou-se num ato quase tão natural quanto a fala, porque o processo de leitura concretiza-se pelo estímulo da exposição e da experiência lúdica. Quanto à escrita, resolver se bastão ou cursiva deve ser decidido de acordo com a evolução da motricidade da criança.

Não deveria caber ao Estado a ingerência em determinados aspectos. Mesmo na escola pública, ele não pode ser o condutor de uma via de mão única, principalmente num país plural como o nosso, multicultural, de dimensões continentais e tido como democrático. Aliás, não haveria necessidade do governo assumir essa posição autocrática, pois bastaria que cumprisse apenas o seu papel de provedor de conhecimentos, proporcionando cursos de atualização, que mantivessem os profissionais da educação orgulhosos de terem abraçado o magistério, como opção de vida e não como a última profissão a ser escolhida.

Seria simples! O professor precisaria ser tratado com a dignidade que merece e que tinha quando frequentei escola e isso passava pela formação no curso superior gratuito, que recebia e pelos cursos de especialização que lhe eram oferecidos. Afinal, não existe ser humano letrado neste planeta, que não tenha passado pelas mãos de um professor.

O saber mantém o homem conectado à realidade e sempre disposto a enfrentar os desafios da modernidade. O discernimento do que pode, do que deve e do que é inadequado, no que tange à educação, ocorre naturalmente na vida do professor que está em dia com os avanços da ciência e das teorias vigentes. Abastecido de conhecimentos, terá aflorada sua criatividade e se preocupará até em atender as especificidades do Estado e da Região em que trabalha.

Outro aspecto que resta a ser ponderado é o método a se eleger e a idade em que ocorreria a alfabetização. Ambos deveriam ser definidos pela instituição, em parceria com quem lida diretamente com a comunidade escolar. É o que acontece quando todos estão preparados para tanto. O importante é sentir que se está lidando com crianças felizes, que estão aprendendo de forma indolor. O resto vem como consequência, até a forma como superar dificuldades grupais ou individuais.

Na verdade, a educação reflete a alma de um povo, com seus valores e sua ética incorruptível e a alfabetização, em especial, é o pilar sobre o qual o homem escolherá e edificará o seu destino.

Temos a lamentar que o objetivo do Estado seja mais uma vez massificar.

 

Neda Lian Branco Martins

Fundadora do Grupo A Educacional e do Colégio Horizontes