Sobre escolas fortes e demandas do mundo contemporâneo

Sobre escolas fortes e demandas do mundo contemporâneo

Kika Almeida Mendes - Conteúdo Escola Viva

03 Outubro 2017 | 14h53

Por Francisco Ferreira, diretor pedagógico da Escola Viva

A maioria das pessoas quer matricular seus filhos em uma escola forte. Mas o que é uma escola forte? É aquela cujos alunos têm um bom desempenho em avaliações padronizadas (como o Enem)? A que prepara seus alunos para lidar com as questões da sociedade em que vivem? A que se propõe a desenvolver o espírito competitivo dos estudantes? Para tentar responder a esta pergunta, vamos olhar para as demandas do mundo do trabalho e como elas estão impactando os saberes e as competências que precisam ser construídos ao longo do processo de escolarização.

Em um estudo publicado em janeiro de 2013 e realizado em 9 países com perfis bastante diversos (Alemanha, Arábia Saudita, Brasil, Estados Unidos, Índia, Marrocos, México, Reino Unido e Turquia), a empresa de consultoria McKinsey traça um cenário preocupante a respeito dessa relação entre escola e mundo corporativo. Intitulado Education to employment: Designing a system that works, o estudo expõe uma situação paradoxal: o volume de jovens desempregados no mundo é bastante elevado, mas não necessariamente porque não há empregos disponíveis, e sim porque há uma escassez de pessoas com habilidades profissionais essenciais.


Alguns dados são reveladores:• Na época do estudo, a Organização Internacional do Trabalho estimava que 75 milhões de jovens estavam desempregados no mundo. Esse número triplicaria se fossem incluídos na estimativa jovens em situação de subemprego.• 50% dos jovens não têm certeza se a educação superior melhorou as suas oportunidades de conseguir um emprego.• Quase 40% dos empregadores afirmam que a falta de habilidades profissionais essenciais é a principal razão pela qual as vagas de empregos para iniciantes/recém-formados não são preenchidas.

Uma conclusão inevitável emerge do estudo: a maioria das instituições e dos sistemas de ensino não está planejada e estruturada para dar conta das demandas do trabalho no mundo contemporâneo, ou seja, não forma as competências e as habilidades necessárias para os jovens conseguirem um emprego após se formarem. Em outras palavras, há um modelo educacional predominante que precisa urgentemente ser repensado.

Em uma palestra no 3º Grande Encontro da Educação, realizado em 28 de agosto deste ano, Maíra Habimorad, CEO da Cia de Talentos, falou sobre o que o mercado de trabalho espera da educação e apresentou 6 tendências nesse universo.

1. Caminhos adaptativos

Vivemos em um contexto caracterizado por sistemas complexos e processos de descentralização, exigindo capacidade de adaptação e autonomia para decidir. Neste contexto, é essencial saber fazer boas perguntas e identificar problemas: “No mundo do trabalho, parte do problema é achar o problema.”

2. Para sempre beta

A velocidade das mudanças e a imprevisibilidade fazem com que nunca estejamos 100% prontos. Experimentar/prototipar, assumir riscos e entender o erro como uma oportunidade de desenvolvimento são requisitos fundamentais.

3. Carreiras “faça você mesmo”

O significado do trabalho mudou radicalmente e as relações tradicionalmente estabelecidas entre empresas e profissionais dão sinais de esgotamento. É fundamental saber trabalhar por projeto com pessoas de diferentes áreas, assumindo uma variedade de papéis (às vezes, ao mesmo tempo).

4. Mentes do futuro

O profissional precisa ter uma visão abrangente acerca do seu repertório: não basta desenvolver o pensamento lógico e habilidades cognitivas, mas também as competências socioemocionais, ampliando e aprofundando o seu leque de experiências.

5. Pensar ecológico

Cada vez mais, é necessário desenvolver projetos de forma colaborativa, trabalhar em rede com pessoas que não são necessariamente parte da sua equipe e pensar em soluções que considerem o impacto para o coletivo.

6. Conect-Ação

Espera-se que os profissionais tenham a capacidade de vincular as pessoas aos seus projetos, gerar uma sensação de pertencimento, fazê-las sentir-se parte do todo e colocar-se no lugar do outro.

Outros dados que apontam para a velocidade das transformações e para um contexto de imprevisibilidade estão em um relatório elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, intitulado The Future of Jobs (O futuro do emprego) e publicado em janeiro de 2016. De acordo com esse relatório, em “muitos países e em muitas indústrias, as profissões ou especialidades mais procuradas não existiam há dez ou mesmo cinco anos atrás, e ritmo da mudança vai ser cada vez mais acelerado. De acordo com uma estimativa bastante difundida, 65% das crianças que entram na escola (Fundamental 1) vão acabar trabalhando em tipos de emprego totalmente novos que ainda não existem” (tradução livre).

Isto significa que precisamos colocar foco em um projeto educacional que possibilite a crianças e jovens desenvolver as competências e habilidades necessárias para serem protagonistas de sua história. Uma vez que não é preparar pessoas para um futuro que não se sabe como será, a tarefa da escola é capacitar os estudantes para construírem o seu futuro – ou seja, identificar oportunidades, fazer escolhas e dispor do repertório para poder exercê-las.

E é isso que a Escola Viva tem feito ao longo do tempo. Desafiar os alunos a investigar questões problema e elaborar possíveis soluções (em múltiplos contextos como a aula projeto, a oficina maker, o laboratório de ciências, as aulas de matemática); formar novas perspectivas acerca de um tema por meio de múltiplas linguagens, experiências e referenciais culturais (por exemplo, nas aulas de artes visuais, nos estudos de meio e nas aulas de línguas estrangeiras); desenvolver o senso de colaboração na realização de projetos; trabalhar a desenvoltura física e a expressão corporal nas aulas de artes cênicas e de corpo e movimento; exercitar a fala pública em seminários e fóruns; tocar a sensibilidade e a poesia nas aulas de música e no encontro com o texto literário; constituir o senso de responsabilidade coletiva através de rodas, assembleias e projetos de convivência e voluntariado; favorecer o protagonismo e a autonomia do aluno nas escolhas curriculares e na organização de atividades (PIs – propostas integradas sobre temas transversais e atividades como faz de conta, culinária, marcenaria e programação de jogos; SiV – fórum de debates sobre temas escolhidos pelos alunos; Cine Clube; VivaFest – Festival de Música).

Então… o que afinal é uma escola forte?  É uma escola ‘viva’, sintonizada com o seu tempo e orientada para formar pessoas competentes e sensíveis, capazes de pensar fora da caixa e construir suas trajetórias, pensando nos percursos individuais, mas também na responsabilidade que cada um tem em relação à constituição do bem comum. Orientamos as nossas práticas para que os alunos aprendam a fazer boas perguntas, lidar com questões complexas e fazer o futuro acontecer a cada dia.