NARRATIVAS URBANAS

NARRATIVAS URBANAS

Kika Almeida Mendes - Conteúdo Escola Viva

31 Outubro 2017 | 16h34

 

Por Carolina Mennocchi

No último dia 27 de setembro, em um recorte na rotina, os alunos do 5º ano da Escola Viva receberam especialistas que refletem diariamente sobre a cidade de São Paulo.


Nosso encontro aconteceu na Biblioteca do Fundamental 2  e desfrutamos da presença de Beatriz Kara José, doutora em planejamento urbano e regional; Giulia Patitucci, ex aluna da Escola Viva e estudante de arquitetura FAU/USP e Marcelo Vassalo, arquiteto da paisagem. Para compor nossa reflexão, também convidamos os professores da Escola Viva: Anuar Almeida, professor de Geografia do 8º e 9º ano, e Manoel Josiano dos Santos, professor de Literatura e Língua Portuguesa do 9º ano.

O debate aconteceu de forma sincronizada com as demandas e inquietações dos alunos. Alimentados pelas discussões de seus grupos, as crianças trouxeram relevantes interrogações para os profissionais: Como as transformações da cidade impactam no cotidiano paulistano? Por que é importante estudar e conhecer o comportamento humano das grandes cidades? Questões de segurança, acessibilidade, progresso?

Cada convidado teve sua experiência profissional e seu olhar de cidadão revelados na sua fala. A urbanista contextualizou a formação histórica de uma cidade pensada para carros, com a imposição da canalização de rios e dos rasgos de grandes vias urbanas. O arquiteto da paisagem defendeu sua busca por respiros e sustentabilidade em uma cidade que não aceita os vazios, que não permite a contemplação. A estudante da FAU questionou a estrondosa relação público x privado, nós x eles, e nos trouxe a mescla dessas disparidades. O geógrafo ofereceu o ritmo, o barulho e a tonicidade de uma cidade globalizada, capitalista e multifacetada. O pensador da poética urbana citou Drummond e nos ofereceu um devaneio de cidade proporcional às nossas experiências vividas nesta Pauliceia desvairada e suas tantas versões. A cidade como narrativa pertencente ao sujeito. Qual cidade queremos ter?

Os alunos trouxeram argumentos significativos. Decantaram suas reflexões e hipóteses e deixaram-se envolver pelo estudo do meio ao centro de São Paulo na semana seguinte.  Para o encerramento desse mosaico de pensamentos, oferecemos a proposta de uma escrita livre sobre desbravar um mar imenso e desconhecido chamado São Paulo. Um olhar e várias versões de uma cidade. Uma educação multidisciplinar para uma multidisciplinar cidade.

Escritas dos alunos do 5º ano:

“Vi de longe uma ilha de prédios e quando olhei estava naufragando em um mar de carros parados buzinando (…). Estava chovendo, então, formou-se uma onda gigante (…). Depois me acostumei com o ritmo desse mar, que de lá para cá vai andando aos poucos, onde alguns tripulantes te olham e te dizem bom dia, outros passam sem te notar.” Luisa, 10 anos

“Quando estou navegando avisto uma cidade brilhante e já imagino coisas belas como o cair do sol amarelo. Mas à noite não dá para ver as estrelas, pois a fumaça e a poluição cobrem o céu azulado.” Matheus, 10 anos

“- Capitāo, ilha à vista!

– Esta não é uma ilha, é uma São Paulo!

– E o que é uma São Paulo?

– São Paulo não é uma coisa. É uma loucura! Tem a 25 de março, tem o centro, o trânsito, mas lá no fundo tem um sentimento, um sentido para viver por lá. Não à toa tem muita história nesta cidade, mas também tem ódio e raiva, preconceito com todos que você acha serem menores que você. São Paulo é grande e bonita, mas se você olhar rápido para esta cidade vai achar tudo horrível. Então, reflita quando falar que SP é terrível… Ela é mesmo? Ou é você? “ Guilherme, 10 anos

“Como todo bom marinheiro navego nas águas de Sampa como um explorador. Presto atenção nos detalhes e o que eu vejo é uma cidade muito grande, desordenada e sempre movimentada. Poluição, lixo no chão, um centro abandonado, apesar de tanta história para contar. Nada disso agrada ao coração. Mas avisto também muitas pessoas, o que traz vida para a cidade e então continuo a navegar em busca de coisas belas.” Olavo, 10 anos

”  – Calma marujo, você nem sabe o que jaz atrás da densa fumaça!

– Capitão, está garoando! É ácido! A fumaça e a poluição devem afetar as nuvens!

– Ahhh… estamos naufragando! Cuidado!

– Nossos corpos também foram vitimados por esse mar de injúrias e desolamento! ” Pedro, 10 anos

“São Paulo é cidade que não tem tempo, ou melhor, que o tempo passa rápido demais e nem percebemos. Mal temos tempo para começar ou acabar algo e já temos que fazer outras coisas. Parece um mar onde ondas vão e vem. E se são Paulo fosse realmente mar, ele não seria calmo. Teria muitos monstros e navios se afogariam nesse mar. Sinto que mal posso nadar neste lugar, pois um monstro pode me atropelar com facilidade. As águas são tão poluídas que me parte o coração, olhá-las. Sinto como se houvesse um perigo por perto, mas quando percebo o perigo, ele somos nós, os seres humanos!” Paloma, 10 anos

“Cheguei aqui e logo avistei a cidade. Eu me deparei com um muro de prédios erguidos, cobrindo toda a entrada. Nessa hora embarquei para dentro do mar de construções que se mostrava neste lugar que encontrei. Meu coração disparou, era muito diferente do que eu achava (…). Era algo muito triste ver toda aquela poluição naquelas águas que brilhavam. Continuei na embarcação, sentindo no coração toda aquela situação. Ao chegar no destino já havia sentido o lugar e apreciado com um novo olhar. Um olhar diferente de qualquer um que revela a cidade.” Carolina, 10 anos

“Este mar está diferente. Só tem praia, não tem nem um pouquinho de água. Só tem praia, praia e praia! Como esse povo consegue destruir esse imenso mar que chamo de lar? Coitados dos peixes, todos estão morrendo, perdendo suas casas (…). Eu preciso juntar marinheiros para acabar com isso!” Giovana, 10 anos

“Eu estava navegando por aguas tranquilas, até avistar um mar que não conhecia. Era sujo, repleto de latas, garrafas, cigarros no chão. Pessoas sem lar habitavam suas ruas e no céu havia nuvens tão escuras que me lembravam as tempestades que já vi em minhas viagens. Me disseram que aquele lugar se chamava São Paulo. Aquele lugar me deixou pasma e então pensei: Vou desviar meu barco daqui!”. Nara, 10 anos

“Estava ficando enjoada com vontade de gritar. Havia muito concreto no meu entorno. O barulho alto e a chuva forte. Aquilo era completamente desagradável. Aquilo podíamos chamar de inferno. Mas não era necessário insultar algo que nem vida tinha (…). Muralhas se desmanchavam ou aumentavam de tamanho, aquilo não era possível. Acontecia tão rápido: árvores indo embora, deitadas ao chão pedindo trégua. Carros parados, definitivamente mortos. Luzes piscando: verde, amarelo e vermelho. A cada esquina que passava, meus olhos pediam socorro. Pessoas amontoadas brigando por motivos inofensivos e pior …desigualdade. Será sempre assim? Minhas esperanças ainda estão guardadas em meu coração. E as suas? Onde estão?” Maria Teresa, 10 anos

“Ele estava lá no centro da cidade. Ele reparou que uma coisa horrível poderia guardar uma coisa maravilhosa. Na lembrança seu olhar impressionado reparou que uma coisa das trevas também tem luz. Decidiu entrar neste novo mar, com ondas grandes ou pequenas, mas o impressionante era poder chamar isso de lar.” Ian, 10 anos

“Cidades são como pessoas: todas iguais e completamente diferentes. Se você submergir em uma, acontecem coisas inesperadas. Tem gente que acha a cidade ruim, que precisa melhorar, que é fria. Tem gente que acha maravilhosa, com tudo que é necessário. Para mim, ela só precisava de uma ajuda para ter menos falhas. A cidade também acontece em um piscar de olhos e se você desacelerar o ritmo dá para ver pessoas diferentes criando sua nova forma de ver a cidade. Com grandes histórias, mudas de conhecimento, pessoas se transformando. É uma cidade que te faz submergir em uma bolha de vida e experiências. A cidade me faz sentir-me em casa, ela me acomoda, me alcança e encaixa as outras pessoas nesta vivência.”.  Beatriz, 10 anos

“Quando cheguei nada entendi

Do mar grande não vejo estrelas

Dos barcos saem lareiras

O mar está quase reto

Gente chegando

Gente saindo

Cada vez que ando

Meu coração bate mais rápido

Sinto correria nestes arredores

Meu sangue fica quente

A cada segundo

Mesmo dentro disso tudo

Dentro dessa correria

Dia a dia

Esse é o meu lugar” Fernanda, 10 anos