Partitura do texto

Partitura do texto

Escola Morumbi

21 Novembro 2017 | 14h55

Uma boa declamação, feita com método, pode
valorizar versos e relatos em grupo, no teatro e em sala de aula

 

Por professor Arthur Blade*

A poesia, dizem muitos, é irmã da música.

Mas muita gente, quando lê ou declama um conjunto de versos, mais parece fazer a poesia irmã de um metrônomo, aquela engenhoca mecânica que marca o tempo com um tique-taque contínuo e de duração absolutamente igual, o que, na verdade, é um mero e temporário auxiliar para quem estuda música. Acabam, com isso, impedindo que a poesia respire livremente e, de imediato, colocam uma verdadeira muralha da China entre o som e o sentimento, o público e a obra.

Ler poesia ou prosa em voz alta, entre casais de namorados, para uma roda de amigos, a plateia de um teatro ou uma sala de aula, exige mais que traquejo performático da parte de quem quer compartilhar o impacto que um poema provoca na gente. Exige senso de medida.

O fato de um verso ser metrificado, por exemplo, não significa que terá de ser lido ou falado em gestos automatizados, como os de um operário apertando porcas uma após outra, numa linha de montagem. Haver rima no fim de dois versos não significa que, ao ser lida em voz alta, ela deva ser enfatizada na mesma intensidade, ou, pior, com maior intensidade.

Quando a estrutura da poesia é a metrificação em geral não há necessidade de enfatizá-la. Afinal, não importa o que você faça, nada mudará a metrificação, ela sempre estará lá. (É claro que há exceções como Trem de Ferro, de Manuel Bandeira, que pede um ritmo constante, similar ao de um trem, mas esse foi o objetivo do poema.) Da mesma maneira, se o poema é rimado, as rimas estarão sempre lá. Não importa o que se faça, elas constroem a sonoridade da poesia. Daí também não haver necessidade de ressaltá-las como quem diz “olhem, achei a rima!”

Então, do que estão falando quando comparam a poesia à música?

Movimentos da poesia

A poesia, a bem-feita pelo menos, depende muito do que está impregnado de cadência, fluência, acentuação, encadeamento e sonoridade. Em geral, não estamos acostumados a trabalhar o som na poesia como se faz em música e, por isso, acabamos cometendo erros de declamação, como o descompasso na ênfase (“que triste, que triste são consideradas as coisas sem ênfase”, versejou Drummond). Ou pior, deixamos os textos empolados, senhores de fraque, cartola, pincenê e chávena de chá.

Narrar em voz alta, em público, significa atentar para princípios musicais, como o uso funcional da duração, da intensidade, da altura, do timbre e até do silêncio. Esses são os elementos os quais devemos estar atentos até mesmo quando lemos para nós mesmos. Até na leitura que se processa apenas em nossos cérebros podem-se fazer todas as variações que o texto ou poema requer. Ao meu redor pode haver um silêncio absoluto, mas em meu cérebro posso estar gritando e fazendo mudanças de nuances, volumes e emoções. Tal habilidade deve ser cultivada, pois irá impregnar o discurso falado, sempre em exercício.

O objetivo aqui é oferecer meios e encaminhamentos para encenar poesias em grupo, para uma plateia, em especial de alunos. Não se trata de sarau ou declamação. Os alunos não devem “declamá-las”, mas interpretá-las. Em vez de apenas lê-las, pretende-se antes vivenciá-las.

Partitura textual

Nas experiências do grupo Nau da Arte, que se especializou em dramatizações de poesia que marcam a língua portuguesa do Brasil, desenvolvi um método cênico que batizei de, à falta de melhor nome, de “partitura textual”. Ele consiste em marcar ao redor dos versos e palavras uma série de símbolos que indicam determinadas mudanças de tons ou ações. Isso tornou possível, nos palcos de escolas e teatros em que o grupo se apresenta, ampliar as possibilidades de interpretação e intensificar o conteúdo das ideias enunciadas, permitindo que elas sejam mais bem assimiladas e novos caminhos descobertos, tanto para quem lê como para quem fala ou ouve.

Tais marcações podem funcionar como a série de símbolos dispostos sobre a partitura musical, os chamados sinais de expressão que orientam o músico em sua interpretação. Para poesias e qualquer outro tipo de texto, sugiro a seguir uma série de indicações que podem ajudar a orientar uma leitura.

São símbolos com pretensão apenas indicativa, não devem ser encaradas como partituras, capazes de ser usadas para o ato de musicar um poema. A ênfase aqui é a da comunicação, usar o potencial expressivo do som de nossa garganta para ajudar a quem, não sendo necessariamente ator por profissão, queira valorizar emoções e reflexões contidas nas palavras de uma obra literária.

Tentações

É preciso cuidado em iniciativas do gênero para não ceder à tentação de decifrar cada minúscula sílaba de um texto ou poema, para não arrancar significados à força. Não podemos ser médicos-legistas e realizar uma autópsia nas palavras. É preciso que o sentido profundo encontrado num poema se conjugue ao significado mais explícito ou superficial da leitura. É preciso, ainda, selecionar as poesias, textos, inteiros ou trechos, que tenham um caráter dramático mais evidente, ou seja, que conversem com o leitor/ouvinte e possuam possibilidades de encenação ou diálogos.

Poesia que é poesia é enxuta o suficiente para não haver outro modo de dizer algo, mas escrita de forma aberta o bastante para permitir tantas interpretações quanto leitores existem. Cada leitor estabelece um sentido ao que lê. Deixe que o eventual mistério ou sentido encontrado por você num poema ou numa determinada passagem se estabeleça tranquilamente. Depois, ele poderá ser desvendado por quem o escuta, mas no momento em que o recita, faça com que ele seja, apenas, desfrutado. Valorize o poema que recita. Talvez as indicações destas páginas possam ajudá-lo. “Atrapalhe” o poema o menos possível. Conte com a possibilidade de toda boa poesia ser capaz de operar mudanças profundas sem a pessoa que a lê ou a escuta sequer desconfiar.

Princípios musicais da declamação 

Mais do que qualquer outro gênero literário, a poesia carrega a marca histórica da comunicação oral. É bom, por isso, partirmos de alguns princípios do som, da maneira como é pormenorizado em música:

 Altura

É a condição de ser grave ou agudo. Identicamente, pode-se usar essa característica para provocar uma enormidade de variações. Uma poesia séria e profunda não deve, necessariamente, ser falada num tom grave. Poesias que têm um conteúdo cômico precisam muito de variações nesse aspecto, do contrário ficam sem graça alguma.

Intensidade

É a condição de ser forte ou fraco (volume do som). Conta-se que Magdalena Tagliaferro, famosa pianista, passava um longo tempo estudando a intensidade de um toque em uma única tecla desde o mais fraco até o fortíssimo, passando por dez pontos de graduação entre um e outro. Ao transpor para a poesia essa característica podemos convencionar que haverá variações de intensidade (volume) tantas quantos forem as mudanças de emoções.

 Timbre

É a condição que permite reconhecer a sua origem. (Quando, no escuro, alguém o chama e você reconhece quem é, foi o timbre que permitiu a descoberta.) Variar esta característica não é fácil. No entanto, aqui estaremos falando de uma pequena variação quando surgir um texto em que, no seu conteúdo, houver a possibilidade de diálogo.

Silêncio

Na leitura, o silêncio se materializa em elemento funcional por meio de pausas. Não apenas aquelas já determinadas por vírgulas e outros sinais de pontuação, mas as que preparam todo um conteúdo por vir, permitindo que o leitor ou ouvinte assimile o que já foi transmitido para poder ir à frente. São aquelas pausas que deixam o ouvinte ansioso e mais atento ainda antes de prosseguir.

Duração

É o tempo de emissão de som. Da mesma maneira, as palavras e sílabas lidas ou faladas podem ter durações diferentes conforme o conteúdo de emoções.

Montando o material

Iniciar o estudo de poesia com crianças e adolescentes demanda uma certa estratégia e logística básica, para melhor orientar declamações.

 

  • Digitar os textos (poesias inteiras ou trechos, por exemplo) com letras ampliadas e com maior espaçamento entre palavras.
  • Cada texto, uma folha.
  • Se o texto permitir, separar os versos por conteúdo. (Apenas para estudo preliminar, pois o modo como o escritor redige e posiciona os versos e palavras é premeditado, devendo o texto original ser mostrado aos alunos.)
  • Colocar numa parede da sala de aula cartazes com abreviações, sinais e palavras da partitura textual, para que os alunos fixem e treinem em outras poesias ou texto.

Estilos abreviados

 Os compositores italianos foram os primeiros a dar “instruções” por escrito em certos lugares das partituras e tais palavras acabaram se universalizando entre os compositores de outros países. Partindo do mesmo princípio, teremos as palavras e abreviações ao lado. Os termos são referência para o início da poesia mas também podem aparecer na frente de algum verso ou após uma pausa. Obviamente, esta lista é apenas uma amostragem. Inúmeras outras palavras podem ser adicionadas.

 Andamento (velocidade)

Largo – vagaroso

Adagio – não tão vagaroso

Andante – em passo tranquilo

Moderato – moderadamente

Allegro – acelerado

Vivaci – depressa

Volume de voz

Pianissimo (PP) – voz baixa (nunca usar para platéias grandes)

Piano (P) – voz suave

Mezzo piano (MP) – voz um pouco acima de suave

Mezzo alto (MA) – voz meio alta

Alto (A) – voz alta

Altissimo (AA) – voz altíssima (nunca a ponto de agredir as cordas vocais; só para momentos raros)

Expressão

Agitato – agitado

Animato – animado

Apassionato – apaixonadamente

Brillante – brilhantemente

Deciso – firmemente

Dolce – docemente

Doloroso – dolorosamente

Energico – com energia

Glissando – deslizando

Leggiero – agilmente

Maestoso – majestoso

Mesto – triste

Misterioso – misterioso

Piacevole – agradavelmente

Risoluto – resolutamente

Scherzando – brincando, gracejando

Semplice – com simplicidade

Vivo – com vivacidade

*Arthur Blade é professor de Teatro da Unidade Moema da Escola Morumbi