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Uma bolsista que quer mudar a educação no Brasil
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Andrea Tissenbaum

11 Outubro 2016 | 07h19

Foto: Caroline Tavares da Silva

Foto: Caroline Tavares da Silva – selfie na porta de sua casa em Columbia

Conheça a trajetória de Caroline Tavares da Silva, Lemann Fellow e bolsista da Fundação Estudar no Teachers College da Universidade de Columbia.

Das coisas boas de escrever este Blog, conversar com pessoas interessantes, inspiradoras, cheias de iniciativa e sem medo de correr riscos é a melhor delas. Falo de gente jovem que já tem uma história para contar porque foi à luta e conseguiu o que queria. E que me diz, repetidamente, que o não a gente já tem. Para fazer a vida acontecer é preciso ir atrás, se empenhar e tentar.

Caroline Tavares da Silva, a Carol, nasceu em Acreúna, uma pequena cidade no interior de Goiás onde viveu até os 12 anos, quando se mudou para Goiânia.

De origem pobre, estudou em escolas públicas a vida inteira. Intelectualmente inquieta desde criança, sempre gostou de ler. “Não tinha muito para fazer em Acreúna”, ela conta. “Toda semana eu ia até a biblioteca da cidade e pegava um livro para mim e outro para a minha mãe. Quando terminei os livros da seção infanto-juvenil, passei para a de adultos”. E essa inquietação se repetia na escola. “Eu terminava as tarefas muito rápido e dava trabalho para os professores porque não sossegava. Então, eles me pediam para ajudar meus colegas com suas lições na sala de aula e em suas casas, à tarde”. E ela aceitava com prazer o desafio. “Desde pequena eu queria fazer alguma coisa que pudesse mudar a vida das pessoas, eu adorava ensinar, fazia feliz o que me pediam”.

Quando se mudou para Goiânia, Carol viu um mundo diferente. Foi aceita para a escola militar, também pública. “Eu gostava demais de estudar, era apaixonada por livros e por ensinar. Era a primeira da classe, discriminada pelos meus colegas por isso, mas eu não ligava. Tracei o meu plano de vida cedo. Prestei Letras, passei em primeiro lugar no vestibular da Universidade Federal de Goiás, entrei na faculdade aos 16. Aos 18 comecei a lecionar oficialmente na rede pública. Aos 20, montei uma escola particular com alguns colegas, o Colégio Delos, que existe até hoje e é considerado um dos melhores do município. Nossa ideia era oferecer educação de qualidade a um preço baixo. E nós conseguimos fazer isso”, ela conta.

Em 2008, Carol vendeu sua parte da escola para poder se dedicar exclusivamente aos estudos. Ela dava aula na rede pública, particular e no Delos, mas teve que se reorganizar para fazer o mestrado em Teoria da Literatura, também na Federal de Goiás. “O mestrado era divertido, tudo o que eu imaginava. O conhecimento era bárbaro, me sentia muito erudita, mas a crise existencial veio no começo do segundo ano. Trabalhava para empresas produzindo material didático e de aprendizagem sócio-emocional. Estudar era bom para mim, mas a vida acadêmica me afastava da prática e do ideal de ajudar e mudar a vida das pessoas”.

Quando terminou o primeiro mestrado, decidiu aposentar suas intenções com a Literatura. Voltou para a rede pública e foi trabalhar na Secretaria da Educação de Goiás. Foi lá que começou a colocar seu conhecimento em prática. Enquanto a Secretaria estava construindo um programa de reforma educacional, a inquieta jovem desenvolveu um projeto para as piores escolas do estado. “Essas escolas melhoraram muito. Em 2012, a rede pública de Goiás saiu do 17o lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e conquistou o quinto lugar”, ela conta.

O projeto IDEB para colocar as redes de ensino fundamental e média de Goiás entre os terceiros melhores do país ficou sob a sua responsabilidade. Um projeto que envolvia ações para melhoria da aprendizagem, redução da evasão, coordenação de avaliações, reestruturação de currículo, coaching e tutoria para toda a rede.

“Esse projeto criou todas as condições para melhorar o ensino. Era conciso e barato – nós não tínhamos dinheiro. O plano de reforma foi chamado Pacto pela Educação e envolvia a participação dos professores e da comunidade. Viajamos por um mês inteiro para discutir esse pacto com todos os envolvidos. Todos tiveram voz. O resultado desse trabalho foi que no IDEB de 2014 a rede pública de Goiás obteve a maior nota do Brasil. A prioridade da escola era ensinar. E no final de uma trajetória nada fácil, os professores disseram que tinham orgulho em trabalhar na rede pública de Goiás. Foi uma festa”, explica a jovem.

Hoje, aos 32 anos, Carol é uma Lemann Fellow. Está cursando seu segundo mestrado em Adult Learning and Leadership no Teachers College da Columbia University, nos Estados Unidos. Com bolsa de estudos integral.

Teachers College, Columbia University | Foto: EyeTunes via Flickr

Teachers College, Columbia University | Foto: EyeTunes via Flickr

“A faculdade não me ensinou a dar aula, aprendi fazendo. A formação de professores se tornou uma fixação minha. Eu sou uma nerd, gosto de estudar, gosto de ler. Entrei em contato com alguns programas aqui nos EUA e decidi cursar o mestrado para aprender a fazer formação de pessoas. Meu sonho é voltar para o Brasil e contribuir com a melhoria da educação”, afirma.

“Mas eu não tinha dinheiro. Apliquei para a bolsa da Fundação Lemann, sabendo que quem escolhe o bolsista é a faculdade, e também apliquei para a bolsa da Fundação Estudar. Consegui as duas. Ter dinheiro é importante, mesmo que seja o básico necessário para sobreviver. E olha, mesmo não sendo uma pessoa rica dá para estudar fora, dá para viver nos EUA”, ela faz questão de explicar.

Ao final do primeiro ano de seu mestrado em Columbia Carol foi convidada para participar de um projeto de uma start-up brasileira de educação, a Studo. Passou suas férias de verão aqui, trabalhando na criação de um sistema para gestão educacional que envolve alunos, responsáveis, professores, coordenadores e diretores de escola e que está em sua fase piloto. O objetivo é ajudar nos processos pedagógicos em sala de aula e na comunicação entre todos os usuários. A partir do ano que vem, o projeto será ampliado para outros estados e envolverá 3000 alunos.

“O Programa Lemann Fellowship e a bolsa da Fundação Estudar me permitiram vir estudar em Columbia. Mas o mais legal de tudo são as pessoas que você conhece e a rede que você faz. Meu assunto é educação, é disso que gosto. Por causa da Fundação Lemann fiquei conhecendo pessoas que tem poder aquisitivo e uma rede que muda tudo. Esse grupo do qual faço parte, essa rede de talentos da Lemann, fez uma diferença na minha vida. Ela tem a capacidade de empoderar as pessoas que passam a deixar de trabalhar sozinhas e podem atingir uma rede muito maior. Disponibiliza ferramentas. Temos pessoas que nos acompanham e essas pessoas nos colocam em contato com outros bolsistas da rede. E a gente mergulha em um mundo novo. Eu sei que nunca vou ser rica, sou uma educadora que nasceu em Acreúna. Mas com essa rede percebo que posso atingir os meus objetivos de melhorar de fato a educação no Brasil”, ela afirma.

Carol está começando o seu segundo ano de mestrado. Mora nos dormitórios do campus da universidade porque tinha medo de se sentir sozinha – “e aqui você faz amizade por osmose”, ela explica.

“O meu curso envolve reflexão, prática e reflexão sobre a prática. Eu acho que me tornei uma profissional melhor, sou uma líder melhor do que eu era antes, mais capacitada para desenvolver pessoas. Eu odeio ficar sentada assistindo aula. Sou uma aluna inquieta que precisa de um ambiente prático, preciso fazer. Neste mestrado consigo realizar exatamente isso”.

Hoje Carol se considera um ser humano melhor. “Percebo claramente que é importante dar voz às pessoas, envolvê-las mais nos processos, trazê-las para perto. Se eu sou um ser humano melhor e a minha intenção é provocar impacto social no Brasil, acho que vou conseguir fazer as coisas pelos motivos certos”.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Siga o Blog da Tissen no Facebook e no Twitter

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