Preconceito e superação em uma experiência internacional

Preconceito e superação em uma experiência internacional

Andrea Tissenbaum

05 Dezembro 2017 | 17h53

Foto: Gabriela Martins Rodrigues

Conheça a história de Gabriela Martins Rodrigues e prepare-se para o que não é contado a respeito da experiência internacional.

Gabriela Martins Rodrigues, uma simpática e doce paulistana, com sorriso largo e muita garra, tem uma história e tanto para contar. Negra, teve uma trajetória permeada por racismo e preconceito, vivências raramente reveladas em uma experiência internacional.

De origem muito humilde, a mãe de Gabriela trabalhou muito para que sua filha tivesse valores sólidos e uma educação que permitisse um caminho de oportunidades. E Gabriela começou cedo. Aos seis anos foi estudar inglês. Excelente aluna, ao terminar o ensino médio foi aprovada na graduação de química tecnológica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo. Mas sua mãe ficou muito doente e faleceu. Sem condições de começar o curso, Gabriela abriu mão de sua vaga na universidade.


No ano seguinte, Gabriela fez o vestibular e passou de novo para a UFSCar. “Eu não percebia como as questões de classe e o racismo eram presentes em nossa sociedade. Fui morar no alojamento estudantil. Em uma turma de cinquenta alunos eu era a única negra. Também era a única do grupo que morava no alojamento estudantil. Era um mundo totalmente diferente do meu, percebia que ninguém fazia muita força para me incluir”, ela conta.

Durante o curso conheceu suas melhores amigas, também negras e estudantes na UFSCar. “Juntas percebemos que éramos minoria em um mundo onde não cabíamos e passamos a entender o racismo oculto que existia na universidade”. Sim, a discriminação no Brasil existe e Gabriela passou por maus bocados. “A principal questão é você ter que provar que é merecedora do que tem o tempo todo, isso é muito cansativo e triste”, ela afirma.

Terminado esse percurso difícil em São Carlos, Gabriela pensou em candidatar-se ao mestrado em biologia molecular na USP, em São Paulo. Achou que em uma cidade grande a questão do racismo estaria superada, mas se enganou. Quando foi conversar com a docente que poderia ser sua possível orientadora, se surpreendeu. “Ao invés de demonstrar interesse por meu percurso e tema de pesquisa, ela pediu para ver minhas notas no histórico escolar. Queria saber se eu tinha mesmo condições de fazer o mestrado. Ao sair da sala onde nos reunimos, dei de cara com uma pichação que dizia: a USP é racista. Fiquei atordoada. Eu participei do movimento em favor da Ação Afirmativa, foi lindo ver pessoas que não tinham acesso entrar nas universidades. Mas nosso cotidiano não era fácil. Nada era muito explícito, mas o preconceito e o racismo estavam bem presentes”, explica.

Cansada da vida no Brasil, Gabriela candidatou-se a universidades estrangeiras e foi aceita para estudar na França, com bolsa. Havia morado em Paris anteriormente por sete meses. Ficou encantada com o ambiente da cidade e da escola onde estudou francês. Viveu em um mundo de estrangeiros, bastante aberto à diversidade. “Todos ali estavam buscando a mesma coisa, uma diferença bastante gritante com o ambiente que conheci quando parti para a universidade de Havre, na Normandia”, ela conta.

“Fui iludida que lá não sofreria nenhum tipo de preconceito. Eu não sabia onde ia morar nem o que ia encontrar em Havre. Minha chegada não foi fácil, mas sou uma pessoa sonhadora, que acredita no ser humano. Eu era a primeira estrangeira a ser aceita naquele curso. Podia ver a surpresa no rosto dos professores do departamento ao me conhecerem ao vivo e em cores. Acabei enfrentando a mesma adversidade que havia vivido no Brasil. Foi um momento difícil, no qual percebi que não havia nenhuma abertura e receptividade nas pessoas. A gente parte com vários pressupostos e expectativas. Eu arrumei minha malinha e vim, feliz da vida, mas quebrei a cara. Um episódio em particular foi a gota d’água. Esqueci meus óculos no banheiro da faculdade. Uma colega de classe encontrou, mas se recusou a devolver, alegando que eu nem francesa era. Eu sabia que meus colegas faziam piadas a meu respeito. Já havia tentado me aproximar das outras alunas negras em minha classe. Mas a questão de raça era um tabu. Elas faziam questão de dizer que eram francesas, ser negras não nos aproximava”, explica.

Gabriela foi conversar com a diretoria do mestrado e a escola assumiu um posicionamento que forçou os alunos a mudarem seu comportamento, incorporando-a ao grupo. “Essas coisas machucam a gente. Eu estava ali, aberta, querendo participar, mas isso não era suficiente. Ter um estrangeiro no grupo significa ter que explicar, interromper o trabalho. No entanto, a gente percebe um desempenho muito superior dos alunos estrangeiros. Nós queremos sempre mostrar tudo de melhor. Mas o receio de ter que me corrigir por ser estrangeira, ter paciência com minhas dificuldades e gastar tempo comigo era muito forte.

Fui me isolando, até que percebi que aquele não era o lugar onde queria ficar. Fiz amizades com outros estrangeiros na cidade, o que me ajudou a ter garra para tentar permanecer. Mas passei por momentos bem tristes em Havre. A cidade foi destruída na 2a guerra, totalmente devastada. Acho que esse clima de tristeza e melancolia ficou ali e foi incorporado pelos estudantes, que são duros e muito fechados a estrangeiros”, complementa.

Então, no segundo ano do programa, Gabriela resolveu se transferir para outra universidade. “Na França você pode fazer o segundo ano em uma outra universidade, desde que tenha sido aprovada. Eu fui aceita em três boas escolas, sou uma pessoa corajosa e persistente. Escolhi a universidade de Caen, também na Normandia”, explica. “Ali encontrei algo que cola totalmente com minha personalidade, a Química Ambiental e Nuclear. Além disso o ambiente era muito mais aberto do que o da universidade de Havre. Fiz minha tese em herbicidas e apostei na humanização da química – 90% da nossa comida é produzida por mulheres que tem contato com herbicidas que produzem anomalias. Acrescentei o feminismo, por meio da sociologia à química. O mundo se abriu para mim’, Gabriela afirma com grande contentamento.

Devagar, ela mergulhou em seu trabalho e esqueceu dos outros, até que perceberam o que ela esta fazendo, independentemente de ser negra ou estrangeira. Mas o percurso…

“Não venha achando que as pessoas vão te receber de braços abertos porque não será bem assim”, afirma Gabriela. “Minha experiência é um ótimo exemplo de falta de informação e de uma fantasia que cultivamos no Brasil de que tudo no exterior é melhor. Todas as vivências que tive no primeiro ano foram muito frutíferas. Hoje sei exatamente o que não devo fazer. Nós somos latinos, não temos os mesmos valores que os europeus. E muitas vezes somos tratados de forma diferente por conta de nossa nacionalidade ou cor da pele. Estar bem informado antes de vir é muito importante. Ninguém deve jogar-se em uma experiência internacional de forma inconsequente”, ela afirma.

Hoje Gabriela está trabalhando em sua proposta de doutorado para a escola de sociologia da universidade de Caen.  Sua intenção é dar continuidade à pesquisa sobre o risco ambiental de formulação de produtos herbicidas, ou seja, a toxicologia de risco com uma visão mais humana. “Aqui em Caen consegui fazer amigos, há mais estrangeiros na universidade e consequentemente, mais abertura. Também acho que meu ambiente de trabalho, a área ambiental, é mais receptivo.  Aprendi como é bom estudar na França. A qualidade de vida é incrível. Do sistema de saúde ao transporte público, tudo funciona. As vantagens são imensas. Mas não pense que há espaço para ser mediano aqui. Tem que estudar e se dedicar, não tem alternativa.

Acho que hoje estou bem adaptada à minha vida na França. No entanto, com tudo que aprendi a meu respeito e a respeito do ser humano nestes últimos anos, sinto que posso viver em qualquer parte do planeta. Tenho consciência e orgulho de minhas origens, de ser negra e de todas as minhas conquistas. Consegui me tornar de fato uma cidadã do mundo”, conclui.

Gabriela deixa algumas dicas para quem quer viver uma experiência internacional rica e menos turbulenta. “A informação é a sua melhor arma.

Fale com todas as pessoas que puder, pesquise tudo sobre a cidade e a universidade onde vai estudar. Confira se recebem estrangeiros – especialmente latinos – e se oferecem bons serviços aos alunos. Idealize menos esta experiência. Coloque os seus pés no chão e prepare-se para situações de xenofobia. Prepare-se também para situações em que a sua competência será colocada a prova por ser estrangeiro ou negro. Procure não se fechar diante dessas situações. Envolva-se com outros estudantes estrangeiros, conheça gente de várias partes do mundo. Entenda que estrangeiros têm diversos benefícios para os quais podem se candidatar nas universidades francesas, como o auxílio para o pagamento de um aluguel. Declare a sua chegada e cumpra com todos os caminhos burocráticos que devem ser seguidos. Procure a área de recepção a estudantes estrangeiros em sua universidade para que eles ajudem você. Não se perca de suas raízes, celebre sempre as suas origens”.

Por hora Gabriela fica na França por mais um ano. Se for aprovada para o doutorado com bolsa, esticará a sua estada.

Boa sorte Gabriela, você é uma inspiração!

Reprodução de cartaz francês | Liberdade, Igualdade e Fraternidade = Laicismo (laico)

Reprodução de cartaz: Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Estado laico

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais. 
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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