Da Baixada Fluminense a Winnetka, Chicago

Da Baixada Fluminense a Winnetka, Chicago

Andrea Tissenbaum

14 Fevereiro 2017 | 10h39

Em um museu de Chicago | Foto: Lucas Martins

Em um museu de Chicago | Foto: Lucas Martins

“Um dos meus principais desafios foi sair do mínimo para aquele excesso todo”, conta o bolsista Lucas sobre seu intercâmbio.

Lucas Martins é carioca, tem 18 anos e está terminando o ensino médio no CIEP Carlos Drummond de Andrade, em Nova Iguaçu. É morador de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Cresceu em uma região pobre, violenta, com serviços deficientes e infraestrutura precária, mas nem por isso sem futuro.

Mais que simpático, Lucas é uma pessoa especial, dessas que faz a gente acreditar na humanidade. Há umas duas semanas entrou em contato comigo via facebook para me contar sua história. E que história ele tinha para contar!

Até o ano passado, ele nunca havia entrado em um avião. Esta possibilidade nem passava pela sua cabeça. Mas no final de 2015, seu professor de Sociologia viu uma matéria sobre bolsas de estudo nos Estados Unidos para alunos do ensino médio, e deu a dica. “Eu estava tão desanimado com a ideia que deixei para me inscrever no último dia. Já achava que não ia conseguir antes de tentar. É que isso não faz parte da nossa realidade aqui em Belford Roxo”, explica.

Fez todo o processo seletivo em Macaé, região norte do estado. “Para minha surpresa, fui passando nas etapas. Aqui onde eu moro as pessoas têm a ideia de que não podem concorrer a uma vaga porque não têm qualificação. Eu também achava isso”.

Lucas em Chicago | Foto: Lucas Martins

Lucas em Chicago | Foto: Lucas Martins

Mas Lucas conseguiu a bolsa e foi para Winnetka, uma região a pouco mais de 30 quilômetros de Chicago, e a segunda mais rica dos Estados Unidos. “Imagina viver em um lugar que você só vê na televisão e estudar em uma escola que é considerada a 10a melhor do país!”.

“Como foi que eu cheguei aqui, como foi que a vida deu essa volta?”, Lucas se perguntava. Fica arrepiado só de lembrar.

“Era um mundo totalmente diferente. As dificuldades eram outras, bem distantes da minha realidade. Aquele mundo era perfeito. Tive acesso a equipamentos e tecnologias que nunca imaginei existirem. Um dos meus principais desafios foi sair do mínimo para aquele excesso todo. Viver naquela comunidade e estudar naquela qualidade de escola me fez entender e valorizar a realidade da minha família. Meu pai sempre me disse que a gente tem que valorizar as pessoas independente de onde elas vem. Coloquei à prova todos os valores de simplicidade daqui de Belford Roxo”.

Lucas e seus colegas de highschool em Winnetka | Foto: Lucas Martins

Lucas e seus colegas de highschool em Winnetka | Foto: Lucas Martins

Durante seu intercâmbio Lucas recebeu acompanhamento. “Além da família anfitriã eu também tive uma família conselheira. Eles trabalham com preservação ambiental, são muito ativos na comunidade. Me fizeram pensar nos muitos problemas que Belford Roxo tem – falta de saneamento básico, rios poluídos, lixo nas ruas. Essa é a minha realidade, mas pode ser diferente”.

Foi muito bem acolhido por sua família anfitriã, com quem é claro, mantém contato. “Você abriu nosso olhar para uma nova parte do mundo, minha mãe americana me dizia”. Fez amigos de vários países. Havia muitos estrangeiros em sua escola, como também pessoas de outras religiões, com as quais ele nunca tinha convivido.

Lucas e sua família americana | Foto: Lucas Martins

Lucas e sua família americana | Foto: Lucas Martins

“Eu frequentei o grupo jovem da sinagoga da minha amiga Rachel, onde tive meu primeiro contato com trabalho voluntário. Aprendi a cozinhar porque atendíamos moradores de rua. Chicago é uma cidade que tem questões sociais sérias, especialmente no inverno, que é muito frio. Foi a experiência que me me conectou com a realidade da minha casa.

Em uma região onde você não tem nada, seus pais se tornam suas referências. Tudo o que aprendi, tudo o que tenho veio deles. Nós rimos muito desta oportunidade que virou minha vida de cabeça para baixo. Minha mãe foi babá, meu pai trabalhava numa oficina mecânica. Hoje são professores de biologia em escolas municipais de nossa região. Eles transformaram suas vidas através da educação”, complementa.

Lucas, seus pais e sua irmã caçula | Foto: Lucas Martins

Lucas, seus pais e sua irmã caçula | Foto: Lucas Martins

“Certamente, Winnetka não representa as diferentes realidades dos Estados Unidos. Mas o que sempre me impressionou naquela comunidade eram a facilidade e a certeza de um futuro planejado e garantido para meus colegas de turma. Foi a primeira vez que despertei para entender que enquanto algumas pessoas no mundo estão escolhendo entre opções de universidades, outras, como geralmente acontece em Belford Roxo, estão se perguntando sobre os meios que um dia irão levá-las até uma. 

Eu nunca pensei que o resultado desta experiência me ligaria a uma cultura de uma maneira tão intensa. E que além de aprender uma nova língua e costumes, eu seria levado a descobrir meu real significado em um contexto mais amplo. Mais que isso, comecei a compreender o impacto, valores e marcas que a região onde vivo me ensinaram”, ele reflete.

Lucas com seus colegas do CIEP Carlos Drummond de Andrade | Foto: Lucas Martins

Lucas com seus colegas do CIEP Carlos Drummond de Andrade | Foto: Lucas Martins

Quando voltou sentiu um baque. Sua escola estava em greve e sem aulas há cinco meses. “Resolvi fazer aquilo que meus pais sempre me disseram, olhar e procurar um significado nas pequenas conquistas. Como uma aula é dada de boa maneira mesmo em uma escola com pouca infraestrutura. Como a feira de rua acontece apesar da presente violência. Como minha mãe, mesmo sem falar inglês, se esforçou para ler editais de universidades americanas. Aquele era o momento de procurar alternativas para validar a minha experiência. Se aquele intercâmbio ficasse só para mim, de nada valeria o que aprendi”, complementa.

Lucas está terminando o ensino médio e trabalha no píer Mauá, no porto do Rio de Janeiro, recepcionando turistas estrangeiros. Com o dinheiro que ganha está pagando as taxas dos exames e das inscrições para estudar nos Estados Unidos. Sim, ele está “aplicando” para 14 universidades americanas e vai tentar uma bolsa de estudos. Quer cursar Relações Internacionais.

Ele também é responsável pelo Intercultural News, o primeiro jornal online sobre o tema na Baixada Fluminense. “Eu não imaginava que esta experiência de intercâmbio fosse provocar uma reação em nossa cidade. Outros jovens, como eu, começaram a se questionar sobre a possibilidade de viajar e estudar fora”.

Lucas quer levar informações sobre oportunidades para sua região. “É daí que surge a motivação de usar um pouquinho da minha história. Para mim era o ensino médio e quem sabe a faculdade, não tinha muita perspectiva. Hoje isso mudou. Acredito que a fome está baseada no que você tem, por isso é tão importante sair para conhecer outra realidade”.

Lucas compartilhando a experiência de intercâmbio em sua escola | Foto: Lucas Martins

Lucas compartilhando a experiência de intercâmbio em sua escola | Foto: Lucas Martins

Lucas Martins Carvalho foi bolsista da British Petroleum (BP) no Programa Global Citizens of Tomorrow do American Field Services, AFS.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Siga o Blog da Tissen no Facebook e no Twitter