Autoconhecimento é chave para quem quer estudar fora

Autoconhecimento é chave para quem quer estudar fora

Andrea Tissenbaum

07 Fevereiro 2017 | 16h31

Foto: Fabrizio Verecchia, via Pexels

Foto: Fabrizio Verrecchia, via Pexels (CCO license)

“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta”. Carl Jung                                                                                                                                                       

Imagine que você chegou a um lugar desconhecido. Tudo é novo, você perdeu as referências. Não tem família, não tem amigos. Sua comunicação ainda não é fluente, você não domina o idioma local.

Estes desafios podem ser facilmente encarados se você se conhece bem. Está seguro, confiante das suas escolhas e da decisão de interromper a vida que tinha para dar lugar ao novo.

Mas se por algum motivo esse não é o seu caso, a experiência de chegar a um lugar desconhecido pode ser aflitiva e pouco agradável.

Autoconhecimento é o conhecimento que o indivíduo tem de si mesmo. É saber quais são suas principais características, seus prontos fortes e fracos. É conhecer seus desejos, suas limitações e sua capacidade de superação.

Sim, o assunto é delicado, mas necessário.

É que a experiência internacional, tão desejada por todos, é difícil para alguns. Se você não estiver ligado em quem você é, o que quer para si, e o que precisará fazer para realizar isso, seu sonho pode se transformar em um momento  conturbado.

Maria é uma brasileira da cidade de Salvador. Queria estudar fora, seus amigos estavam fazendo isso. Escolheu um intercâmbio de seis meses em Londres, sem pensar em suas características pessoais. Quando chegou lá se assustou. Um mês depois me escreveu um e-mail pedindo ajuda. “Todo mundo fala que Londres é incrível, mas não estou gostando daqui. Faz muito frio, o céu está sempre cinza e eu não falo com ninguém há dias. Estou muito ansiosa, triste e decepcionada. Quero voltar para o Brasil”.

Paulo também é brasileiro, de Ponta Grossa. Queria fazer seu mestrado no exterior e escolheu Los Angeles. Passados alguns meses, entrou em contato. Estava triste, se sentia isolado. “Los Angeles é muito grande, tudo é difícil aqui. Não tenho carro e o transporte público não funciona bem, não consigo ir aos lugares. Me sinto preso. Além disso, as pessoas não conversam, tá difícil fazer amigos, mesmo no meu curso. O que devo fazer?”.

Estas são apenas duas de várias histórias que conheço de pessoas que saíram do Brasil sem se preparar adequadamente. Não conversaram com ninguém, não levaram em conta seu perfil, não estudaram cuidadosamente seus destinos, instituições de ensino e cultura local. E a aventura foi abortada cedo, porque não foi boa. As queixas eram legítimas e as dificuldades muito claras. Foram para lugares errados, em um momento de suas vidas em que não podiam bancar a experiência.

Estudar fora exige autoconhecimento e preparo. É um projeto que demanda dedicação, capacidade de lidar com frustrações e disposição para chegar a lugar desconhecido e começar do zero.

De fato, a experiência internacional pode ser muito enriquecedora. Mas a correlação entre estudar fora, felicidade e sucesso não é obrigatória.

Nem sempre o que se deseja ou se planejou acontece como previsto. Porque não existe uma receita de bolo para todos. Estudar fora é bacana sim. Mas será bacana para você?

Cada indivíduo é diferente e essa diferença deve ler levada muito a sério quando uma viagem internacional de estudos é organizada. O conhecimento que cada um tem de si mesmo é um fator fundamental para o sucesso desta empreitada. Não importa a idade.

Se você quer ter uma experiência internacional gratificante, comece por entender quem você é e como se relaciona com o ambiente à sua volta.

Consegue ficar só por um tempo prolongado? O desconhecido te assusta ou te fascina? Gosta de viver em uma cidade grande ou prefere um lugar menor, mais acolhedor? Há limites para o desafio que quer viver? Porque quer estudar fora?

Há muitos anos atrás fui estudar em Champaign-Urbana, Illinois, no interior dos Estados Unidos. Tinha 23 anos e nunca havia vivido em uma cidade pequena e de clima absurdamente frio (inverno de menos 20o por quatro meses). Foi uma experiência difícil e penosa para mim. Eu sabia que estava em um super campus universitário americano, que tinha tudo para ser feliz, mas não conseguia aproveitar nada.

Fui sem saber para onde estava indo, sem pesquisar, sem conversar com pessoas que tinham vivido esta experiência. Fui sem saber do que eu não gostava e do quanto seria custoso para mim tentar transformar sal em açúcar. Não tinha maturidade para fazer o que estava fazendo e não foi nada agradável estar ali.

Aprender na marra nem sempre é bom ou necessário. Especialmente se você pode escolher com propriedade. Mas para isso, tem que se envolver com o processo, e aprender a definir qual experiência pode ser boa para você.

Não tenho a intenção de desencorajar seus planos. Apenas sugiro que entenda se esta é uma boa escolha para você, no detalhe. Prepare a sua viagem de uma forma customizada, não se jogue em um destino sem pensar.

Afinal, você quer que a sua experiência internacional seja inesquecível, não é mesmo?

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Siga o Blog da Tissen no Facebook e no Twitter