Uma janela de oportunidade para  a educação
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Uma janela de oportunidade para a educação

Um número expressivo de professores do ensino básico irá se aposentar em dez anos. Podemos dar um salto de qualidade no ensino se investirmos na formação de profissionais e na valorização da carreira

Ana Maria Diniz

19 Maio 2016 | 15h11

Janelas de oportunidade são períodos raros, em que várias condições convergem numa combinação incomum, criando ambientes perfeitos para grandes transformações. Com começo e fim bem definidos, esses portais podem levar pessoas e países a novas e promissoras dimensões se acionados na hora certa e do jeito certo.

Aqui está a oportunidade. Em breve, se abrirá no Brasil mais uma dessas brechas – e será na educação.


Em dez anos, metade dos professores do ensino básico terá idade para se aposentar. Boa parte deles também terá cumprido o tempo mínimo de serviço, outra exigência para se ter direito ao benefício.  Essa movimentação cria uma necessidade de uma renovação maciça do quadro docente brasileiro num espaço de tempo muito curto.

É uma chance única para formarmos melhor os futuros professores – mais preparados para os tempos atuais, mais profissionais e com foco na eficiência em sala de aula.

Obama como professor de Direito da Universidade de Chicago, onde lecionou de 1992 a 2004:  foto foi usada em campanha recente para a valorização da profissão. Crédito: Divulgação

Obama como professor de Direito da Universidade de Chicago, onde lecionou de 1992 a 2004: foto foi usada em campanha recente para a valorização da profissão. Crédito: Divulgação

Outro fator relevante desta conjuntura favorável é que agora temos no ministério da Educação um ministro e uma equipe técnica com capacidade e vontade de mudar de fato a educação brasileira.

Mas quero me concentrar naquilo que eu mais posso colaborar que é falar da formação desses novos professores.

Conseguir formar esses profissionais com as competências necessárias para impactar positivamente o ensino do país não será tarefa fácil. Os problemas que atrapalham a formação de nossos docentes podem ser resolvidos com determinação e vontade política, mas são muitos e complexos.

Os gargalos que mais interferem no processo formativo brasileiro foram destrinchados pelo cientista político Fernando Abrucio, da FGV, no recém- lançado Formação de Professores no Brasil – Diagnóstico, agenda de políticas e estratégia para mudanças. O livro é resultado da pesquisa mais abrangente sobre o assunto no país, uma iniciativa do movimento Todos pela Educação, com apoio do Instituto Península e Itaú BBA.

De acordo com Abrucio, há sete entraves principais:

A falta de integração entre universidades, escolas e redes de escolas. Essa falha gera enormes distorções. A principal delas é o despreparo dos docentes em sala de aula. As faculdades não contemplam a prática escolar em seus currículos.

O baixo nível socioeconômico dos alunos que querem ser professores. A maioria é oriunda de famílias de baixa renda e de escolas públicas, com falhas no aprendizado básico. Boa parte estuda à noite e trabalha de dia e não tem tempo para os estudos.

O currículo da educação básica. Ultrapassado e focado na transmissão excessiva de conteúdo, está sendo discutido dentro da Base Nacional Comum e deve ser adaptado para estar conectado com mundo de hoje.

O currículo dos cursos de formação de professores. Ao desconectar a teoria da prática interfere no desempenho em sala de aula.

Educação à distância. Hoje, 90% dos alunos de pedagogia optam por esses cursos, muitos de baixa qualidade, desconectados da realidade e pouco inovadores. O modelo registra altas taxas de evasão.

Processo de profissionalização. É precário e mal articulado no que diz aos programas de estágio, pouco valorizado, de formação continuada, que não é adaptada às necessidades da escola e do professor.

A falta de atratividade da profissão e a baixa motivação para se tornar professor. Os salários pouco atraentes, falta de perspectivas e de planos de carreira afastam candidatos mais bem preparados da profissão.

Há duas semanas eu tive a oportunidade de ter uma conversa olho no olho com professor Lee Sing Kong, diretor do Instituto Nacional de Educação de Singapura, o homem por trás da revolução do ensino de seu país em um evento do Itaú Social. Foi inspirador.

Sei que Singapura não tem nada a ver com o Brasil. É um país minúsculo, do tamanho da metade do município de São Paulo, com uma população de 5,4 milhões e apenas 360 escolas.  Mas muito do que foi feito lá para elevar o nível do sistema educacional está acima dessas comparações óbvias e pode, sim, servir de inspiração e ser replicado aqui, com devidos ajustes.

A maior lição que o país de Kong pode dar ao Brasil diz respeito aos professores: é preciso valorizá-los, enfatizar que têm o poder de transformar a vida de cada um de seus alunos. E recompensá-los por isso, não apenas com bons salários, mas com reconhecimento, valorização e oportunidades de desenvolvimento profissionals.

Os problemas brasileiros são complexos, mas não são difíceis de resolver com vontade política de colocá-los como prioridade para a nação e com um bom planejamento. Estou muito otimista e acredito que podemos mudar a nossa história de educação sofrível para uma história de sucesso. Só não podemos perder o timing!