O cérebro adolescente e a importância da reforma no Ensino Médio
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O cérebro adolescente e a importância da reforma no Ensino Médio

Como prova a neurociência, todo adolescente é predisposto a aprender, mas de maneira interativa, intensa e desafiadora, o oposto do que as escolas em geral fazem. A aprovação no Senado da proposta do governo para o Ensino Médio é o primeiro passo na direção de um redesenho completo na formação dos jovens

Ana Maria Diniz

16 Fevereiro 2017 | 08h23

Pense num adolescente típico – impulsivo, ávido por novidades, cheio de energia, contestador, que odeia receber ordens e ter a sua liberdade de escolha e de ação restringida. Agora, pense numa escola típica, onde os jovens passam a maior parte do tempo trancafiados numa sala, sem nada para fazer a não ser ouvir os professores discorrerem sobre várias disciplinas de forma enfadonha e pouco prática, à revelia de seus interesse pessoais e aptidões.

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Pois a insistência em misturar duas coisas que se repelem como água e óleo por décadas a fio resultou numa verdadeira catástrofe! O ensino médio no Brasil não é só engessado e ineficaz. Ele é totalmente desconectado da vida e, principalmente, da mente dos adolescentes!

É o que diz a neurociência. Estudos recentes, como o publicado no ano passado na revista científica Neuron, revelam que a irritabilidade, a falta de bom senso e de interesse dos jovens pelos estudos não são causados pela invasão hormonal ou pela emersão de um “gênio ruim”, escondido atrás das fofuras da infância, como se pensava até pouco tempo, mas são resultado de uma remodelação cerebral profunda.

Como explica Daphna Shohamy, da Universidade de Columbia, autora do estudo, nessa fase da vida há um desequilíbrio entre o córtex pré-frontal, que envolve planejamento e raciocínio lógico, ainda em formação, e o sistema de recompensa, que libera dopamina em excesso. Daí o imediatismo, a irresponsabilidade, o gosto pelo risco e a propensão ao vício que tanto preocupam pais e professores.

O que poucos sabem é que essa instabilidade, que faz parte do processo de maturação do cérebro, também tem um lado bom e está ligada a uma enorme capacidade de aprendizado. “Essa plasticidade faz com que cérebro adolescente se abra, se molde e responda à maioria dos estímulos. Isso claramente favorece a absorção de informações”, explicou Laurence Steinberg, da Temple University, um dos maiores especialistas em cérebro jovem do mundo, durante a conferência Learning and Brain.

Segundo Steinberg, o cérebro adolescente é predisposto a aprender, mas de maneira interativa, intensa, participativa e desafiadora, o oposto do que as escolas em geral fazem. “A adolescência é a última vez na vida de uma pessoa que o cérebro pode ser tão drasticamente reformulado. Não podemos perder essa oportunidade com sistemas de ensino entediantes”, diz o especialista.

A aprovação no Senado da reforma no Ensino Médio proposta pelo governo, na semana passada, é o primeiro passo na direção de um necessário redesenho completo desta etapa na formação dos jovens. E por isso precisa ser comemorada e, em seguida, passar para a fase de plano de ação para implementação.