Mindfulness para crianças: adquirindo consciência para uma vida longa, plena e feliz
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Mindfulness para crianças: adquirindo consciência para uma vida longa, plena e feliz

Cada vez mais comum nas escolas, a prática da atenção plena, que busca estar 100% no momento presente e naquilo que se está vivendo, tem se mostrado uma ferramenta excepcional tanto para melhorar o desempenho acadêmico como para desenvolver a inteligência emocional dos jovens

Ana Maria Diniz

04 Maio 2017 | 11h36

Na semana passada, escrevi aqui neste espaço sobre um tema muito relevante: Plenitude, e a importância de as crianças aprenderem na infância como envelhecer com qualidade. O texto teve tanta repercussão que cheguei à conclusão de que não dava para mudar de assunto; e resolvi continuar a falar mais sobre essa ideia e sobre os tópicos relacionados a ela. Ao longo do tempo, quero aprofundar a questão junto com outros especialistas.

Sabemos que a conquista de uma velhice saudável, prazerosa e digna está em nossas mãos: depende, preeminentemente, de comportamentos e hábitos que adotamos ao longo da vida. E isso deve ser ensinado o quanto antes, de preferência na mais tenra idade. O desenvolvimento dessa consciência tem uma enorme relação com a Educação.

Hoje, quero falar de atenção plena, ou mindfulness, o que significa estar 100% presente naquilo que você está vivendo em um determinado momento. Este não é um exercício trivial, já que a nossa mente, assim como a mente das crianças, tende a transitar freneticamente entre as lembranças do passado e as projeções futuras, ficando muito raramente no aqui e agora.

Descansar a mente, ou apenas “focar”, é algo que fazemos com cada vez menos frequência no mundo complexo, conectado e multitarefas em que vivemos. De todo o tempo que passamos acordados, quase a metade – 47% – é gasta com dispersão, segundo um estudo da Universidade de Harvard publicado na revista Science. É como se vivêssemos metade de nossas vidas no mundo da Lua, o que prejudica o aprendizado, as relações, o trabalho e a vida de modo geral. Enfim, nos rouba a felicidade. As crianças, por incrível que pareça, também são vítimas dessa complexidade e da desatenção que dela deriva.

Mas o que é estar ou ser mindful, de maneira prática? Para a americana Ellen Langer, psicóloga de Harvard que há quatro décadas investiga as relações entre mindfulness, saúde, bem-estar e longevidade, a atenção plena pode ser definida como o simples ato de perceber coisas novas. “O processo de perceber coisas diferentes, inclusive em situações rotineiras, nos coloca no presente e nos torna sensíveis ao contexto daquele momento, em toda a sua perspectiva. Essa é a essência do envolvimento e da consciência total”, diz Langer.

Nos Estados Unidos e na Europa, o número de escolas que dedica algumas horas por semana ao ensino da técnica é cada vez maior. Só na Inglaterra, em cinco anos, 4 mil professores foram treinados e hoje possuem qualificação para ensinar atenção plena aos alunos do ensino básico, segundo o Mindfulness School Project. No Brasil, a adoção do mindfulness em classe ainda é restrita a casos pontuais, mas tem tudo para se alastrar.

Além de se fácil de se instituir, o ensino de mindfulness em escolas tem se mostrado uma ferramenta espetacular. Pesquisa publicada no jornal Developmental Psychology mostrou que a prática da atenção plena melhorou em 15% o desempenho dos alunos em matemática. Dentre estes estudantes, 24% se mostraram menos agressivos e outros 20% se tornaram mais sociáveis. Outro estudo, realizado pela Fundação David Lynch em escolas de Los Angeles, Chicago e Nova York, revelou que o mindfulness diminuiu em 40% o estresse e aumentou em 25% as notas dos alunos. O número de suspensões nessas instituições caiu 86%.

Enquanto o mindfulness não se espalha pelas escolas brasileiras, que tal tentar ensinar alguns fundamentos da técnica para as crianças em casa ou em sala de aula?  A americana Sarah Rudell Beach, educadora e criadora do Brilliant Midfulness, programa de qualificação em atenção plena para professores, deu dicas sobre como fazer isso de maneira lúdica e divertida em seu blog Left Brain Buddha. Reproduzo algumas delas a seguir:

Em um ambiente tranquilo e silencioso, toque um sino e peça para as crianças se aterem atentamente ao som. Diga a elas para levantarem as mãos quando já não escutarem mais o sino tocar. E para, ainda em silêncio, prestarem atenção a outros sons que começaram a ouvir depois que o sino parou. A seguir, peça para que se sentem em um círculo e contem aos colegas o que escutaram de diferente, A atividade ajuda as crianças a se conectarem com o momento presente e estimula a sensibilidade às próprias percepções.

Distribua para cada criança um bicho de pelúcia. Peça para que se deitem no chão, com o boneco sobre suas barrigas, e respirem em silêncio por um minuto, observando como o “amiguinho” se movimenta, para baixo e para cima, a cada inspiração e expiração. Nesse momento, se os pensamentos insistirem em distraí-las, diga para que transformem cada um deles em bolhas que, depois de formadas, podem voar para bem longe.

Pegue um objeto perfumado – pode ser um sachê, um pedaço de casca de laranja, um ramo de lavanda ou uma flor de jasmim– e passe para cada criança. Peça para que respirem de olhos fechados e se concentrem apenas no cheiro que exala desse objeto. Este exercício, além de ajudar na concentração, é uma maneira eficiente de controlar a ansiedade.

Peça para as crianças pularem e se movimentarem rapidamente durante um minuto. Ao fim do exercício, elas devem se sentar e colocar as mãos no coração, de olhos fechados. Nesse momento, elas devem prestar toda a atenção nos batimentos cardíacos, na respiração e no que mais sentirem de diferente em seus corpos.

Enquanto as crianças estão ainda deitadas, peça para que apertem e espremam seus músculos o mais forte possível. Mas não todos de uma vez! Primeiro os dedos do pé, em seguida os pés, as pernas, quadris, abdômen, braços e mãos até chegarem aos ombros, que devem ser erguidos em direção à cabeça. O ideal é permanecer alguns segundos em cada posição e relaxar outros segundos em seguida. Esta atividade ajuda os pequenos a entenderem o significado de “estar presente”.