Mais inovação, mais desigualdade?
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Mais inovação, mais desigualdade?

A tão esperada reinvenção do ensino já está acontecendo nas escolas de elite, mas na rede pública a realidade é outra: as inovações ainda não chegaram e a transformação é quase nenhuma

Ana Maria Diniz

15 Março 2018 | 13h46

Há cerca de cinco anos, quando todos os envolvidos em Educação se deram conta de que as escolas precisariam mudar radicalmente para serem capazes de preparar as crianças para o mundo atual, eu acreditava, assim como outros especialistas no assunto, que essa transformação se daria em no máximo uma década. O avanço exponencial da tecnologia e o acesso cada vez mais fácil ao conhecimento já estavam promovendo uma reviravolta na sociedade, em diferentes âmbitos e setores, o que justificava essa predição. Era de se esperar que tudo no ambiente escolar estivesse diferente neste meio tempo: os espaços físicos, o layout das classes, a metodologia, a atuação dos professores em sala de aula e a participação dos alunos na aquisição e construção do próprio saber.

Hoje, eu tenho dois sentimentos contraditórios. Por um lado, estou feliz em ver que essa transformação está mais rápida do que eu pensava em algumas escolas brasileiras. Muitas delas estão inserindo inovações importantes em suas metodologias e mudaram as estruturas dos currículos para absorver e envolver o aluno, garantindo um aprendizado diferenciado. Um exemplo é o tradicional Colégio Bandeirantes, de São Paulo, que incorporou as artes e a robótica a fim de desenvolver nas crianças as habilidades cognitivas e socioemocionais. O Dante Alighieri, também na capital paulista, é outro: começou a trabalhar as disciplinas de forma interdisciplinar e adotou a abordagem STEM para estimular competências como resolução de problemas e criatividade. Também estão surgindo escolas como a Avenues, a Concept e a Wish, em São Paulo, que já nasceram diferenciadas. São instituições que oferecem ensino bilíngue, holístico, focado no aprendizado por projetos, na cidadania global e no protagonismo do aluno.

Por outro lado, estou muito preocupada porque todas essas escolas são escolas de elite e estão em São Paulo. A realidade das nossas escolas públicas, que eu também conheço razoavelmente, é diferente: as inovações ainda não chegaram e elas não estão tendo transformação quase nenhuma. Ou seja, as inovações não chegam às pessoas que mais precisam. No início dessa revolução, eu acreditava que a tecnologia era um fator que iria aproximar as duas realidades, a Educação dos pobres e dos ricos, mas agora estou achando quer ela vai aprofundar esse fosso.

Algumas pesquisas recentes têm demonstrado exatamente isso: em muitos casos, a tecnologia na Educação está contribuindo para aumentar a disparidade social em vez de diminui-la. Uma delas, feita pela americana NMC no ano passado, concluiu que o letramento digital tem avançado de forma desigual pelo mundo. Segundo o estudo, focado no ensino superior, apesar de o uso da tecnologia ser cada vez maior, somente a inserção de ferramentas tecnológicas não garante a formação de estudantes preparados para um contexto produtivo cada vez mais dinâmico e diferenciado como o que se desvela. A pesquisa também notou que os esforços para que as competências digitais sejam desenvolvidas de maneira efetiva são bastante desequilibradas entre os países e que clima político e econômico de cada nação exerce grande influência – negativa ou positiva – sobre o progresso ou do letramento digital. Várias outras publicações, que abordam outras etapas de ensino, vislumbram situações semelhantes.

Acho que todos nós que, de alguma forma, estamos envolvidos com Educação no Brasil deveríamos nos dedicar a achar soluções que aproximem essas duas realidades e aproveitar este ano para eleger pessoas realmente comprometidas com esta causa.

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