Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na Ciência!
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Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na Ciência!

Segundo o estudo Gender in the Global Research, quase metade da produção científica nacional provém de mentes femininas. Mas ainda temos muito a avançar nessa questão

Ana Maria Diniz

15 Junho 2017 | 09h36

Vamos derrubar o mito “mulher não gosta e não tem habilidades naturais para estudar Ciências”.

Na semana passada, participei de um evento do Worldfund, em Nova York, em homenagem ao meu querido amigo Fábio Barbosa. Ele é presidente do Itaú Social e participa de várias outras instituições educacionais de excelência, como o Insper e o Todos Pela Educação (TPE).

Conheci o Worldfund em 2014, quando fui a homenageada do ano. Trata-se de uma instituição muito ativa na América Latina, onde desenvolve programas educacionais, um deles para a formação para professores em STEM, sigla para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Em 15 anos, o WF já impactou 8 000 educadores e 4.4 milhões de estudantes.


O mais incrível é que o Worldfund não foi criado por ninguém de origem latina, mas por uma genuína americana, Luanne Zurlo, uma bem-sucedida executiva do mercado financeiro. Durante uma viagem ao México, à trabalho, Luanne sensibilizou-se com a péssima Educação dos países da América Latina.  A certa altura da vida, depois de ganhar dinheiro atuando em bancos como Credit Suisse e Goldman Sachs, ela concluiu que seu trabalho não lhe dava mais prazer. Decidiu, então, dedicar a vida a fazer a diferença no mundo por meio da Educação e criou o WF.

Uma das crenças de Luanne é a de que um país educacionalmente subdesenvolvido precisa dramaticamente de investimentos nas áreas de Física, Química e Matemática para produzir conhecimento e avançar. No fundo, Luanne acredita, como eu, que precisamos elevar a barra, equipar professores e exigir mais das crianças para que conheçam e aprendam essas disciplinas. Principalmente, em relação às meninas.

Há mais mulheres do que homens cursando uma faculdade no Brasil – 60% dos concluintes de cursos de graduação no país são do sexo feminino. Mas quando as estatísticas se referem aos formandos de Matemática, Computação, Biologia e Engenharias, a situação se inverte: 59% são homens. Só nas Engenharias, eles são 70,7%. Os dados são do Censo de Educação Superior.

O tabu de que as meninas não têm gosto ou habilidade para atuar nessas áreas mais “duras” precisa ser derrubado. As mulheres, com sua criatividade e flexibilidade, têm muita condição de fazer a diferença na Ciência e ajudar o país. E já estão fazendo isso! Apesar de minoria nas universidades onde o Clube do Bolinha impera, quase metade da produção científica nacional provém de mentes femininas.

É o que revela o estudo Gender in the Global Research, realizado pela Elsevier. A pesquisa traz outro dado surpreendente: na comparação com 12 países, o Brasil é o país que mais progrediu em igualdade de gênero em Ciências em vinte anos, superando Estados Unidos e Reino Unido. O total de artigos científicos assinados por brasileiras cresceu 11% no período.

Poderia ter aumentado mais. Como a pesquisa deixou claro, não nos faltam talento e habilidade para as Ciências. Faltam incentivo e apoio.

A discriminação contra a mulher nas Ciências não é recente, nem só brasileira. Existe há tempos, em todos os lugares do mundo, inclusive dentro das casas e das escolas. É tão arraigada que, muitas vezes, não nos damos conta de que desencorajamos nossas meninas de se tornarem cientistas e inventoras brilhantes.

Quantos pais não limaram a vocação de suas filhas dizendo que brincar de construir foguetes ou entrar no mato era coisa de moleque?  Quantos professores não desistiram de explicar um problema às suas alunas antes mesmo de tentar ensiná-las?

Ou disseram a elas para não investirem tanto na carreira, pois cuidar da casa e dos filhos seria o seu principal papel?  Segundo o estudo da Elsevier, mais preocupante do que o número de mulheres ingressantes nas Ciências são as taxas de abandono da carreira – em todos os países, a proporção de mulheres diminui consideravelmente a cada etapa de evolução profissional.

Infelizmente, o rótulo ainda é maior do que a vontade de mudar essa história. Precisamos reverter isso, e logo! Afinal, lugar de mulher é onde ela bem quiser, inclusive nas Ciências!