Inovação não é só tecnologia: é pensar e agir diferente
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Inovação não é só tecnologia: é pensar e agir diferente

Recém-lançado, o relatório Innovating Pedagogy 2017 traz exemplos de como a tecnologia pode contribuir para uma inovação real no ensino, colocando o aluno no centro do processo de aprendizado e estimulando novas maneiras de se assimilar e se produzir conhecimento

Ana Maria Diniz

14 Dezembro 2017 | 09h33

Inovação virou palavra comum nas escolas, na boca de educadores e entre os profissionais de Educação porque todos sabem: se a Educação não mudar, não vamos a lugar algum. Mas quais inovações fazem a diferença, de verdade, na vida das crianças e dos jovens que estamos formando para entregar como adultos a esse país que queremos construir?

Talvez agora estejam aparecendo as primeiras respostas.

Innovating Pedagogy, produzido anualmente desde 2012 pela Open University, da Inglaterra, em parceria com centros de excelência em Educação, como o Instituto Nacional de Educação de Singapura e a rede israelense I-CORE, é sem dúvida uma fonte que vale a pena a leitura.


edição 2017 do documento, divulgado na semana passada, mais uma vez vai além do óbvio aos listar o que há de mais próspero e renovador acontecendo mundo afora no sentido de transformar as escolas e a experiência educacional como um todo.

A publicação tem a abordagem certa ao apontar metodologias e concepções capazes de transformar alunos em aprendizes eficientes e experientes. Ela também comprova que a inovação passa pela tecnologia, mas é de fato a inovação metodológica que faz a diferença.

Abaixo, selecionei dentre as dez inovações citadas no relatório as que mais acredito que tenham um impacto forte:

Aprendizado espaçado. Pesquisas sobre atividade cerebral e aprendizagem constataram: aprendemos muito mais e absorvemos muito mais informação sobre determinado assunto quando somos ensinados de maneira fragmentada e intervalada do que em uma única e longa sessão. Algumas demonstraram, inclusive, que alunos submetidos a 90 minutos de aprendizagem espaçada alcançam resultados acadêmicos muito similares aos que assistiram a aulas tradicionais por vários meses. A abordagem, em desenvolvimento, já vem sendo testada em várias escolas e pode ser uma alternativa às aulas expositivas.

Livros educacionais abertos. Criados no início dos anos 2000 com o intuito de reduzir os custos dos estudantes universitários, os livros de texto aberto têm se mostrado uma ferramenta poderosa de inovação educacional. Esses livros podem ser alterados, complementados, revisados e reescritos por qualquer pessoa, inclusive pelos alunos. Dessa forma, os estudantes passam a ser criadores do conhecimento e não meros expectadores que registram informações. Se feita de maneira estruturada e cuidadosa, a utilização de recursos abertos pode revolucionar a experiência escolar, diz o relatório.

Educação epistêmica. Ou, numa linguagem mais usual, educação verdadeira. Ela se faz imprescindível na era da pós-verdade, dizem os autores do estudo, e consiste em desenvolver nos estudantes a capacidade de avaliar quais informações são confiáveis e de compartilhá-las de forma responsável. Para isso, é preciso conscientizá-los de que o conhecimento é algo complexo, construído a partir de perspectivas particulares, assim como ensiná-los a buscar evidências e a questionar a validade das notícias que chegam até eles. Algumas escolas já incorporaram essas habilidades no currículo, algo que deve se tornar cada vez mais comum nos próximos dois anos, segundo o relatório.

Aprendizado com valores. Quando o aprendizado está vinculado a objetivos que os alunos valorizam, eles tomam posse de seu trabalho e colocam o esforço necessário. Fornecer aos alunos a liberdade de escolher o que e como eles querem estudar pode aumentar o senso de propriedade dos alunos sobre o processo de aprendizagem. Eles são menos propensos a sentir que participam de um processo que pertence ao professor ou ao sistema educacional. Muitas escolas utilizam a tecnologia para permitir que os alunos escolham o que estudar de acordo com seus interesses, permitindo que eles criem seus próprios caminhos de aprendizagem. Tais ambientes ajudam os alunos a desenvolver valores internos enquanto navegam de forma independente na aprendizagem.

Como demonstra este último Innovating Pedagogy 2017, a tecnologia é inovadora na Educação quando coloca o aluno no centro do processo de aprendizado, induz à colaboração e propõe novas maneiras de se assimilar conhecimento. Quando usada dentro das quatro paredes da sala de aula, sob o comando de um professor, servindo de apoio a um currículo fragmentado em várias disciplinas não conversam entre si, a tecnologia não traz inovação alguma, apenas propaga o mesmo sistema de ensino obsoleto que tem afastado os jovens da escola.

A grande conclusão, e que precisamos incorporar cada vez mais, é que para inovar não basta adotar novas tecnologias, é preciso pensar diferente e agir diferente!