De olhos bem abertos
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De olhos bem abertos

Nove entre dez brasileiros entendem que a má qualidade do nosso ensino impede o país de avançar; essa percepção é o primeiro grande passo para darmos a devida prioridade à formação do nosso povo

Ana Maria Diniz

12 Abril 2018 | 10h41

O olhar crítico e preciso de um povo sobre as reais fragilidades de seu país é um elemento fundamental para que uma sociedade rompa um ciclo vicioso de pobreza, corrupção e violência e ingresse em outro, virtuoso, de desenvolvimento, igualdade e justiça social. Sem essa percepção, não há mobilização social, e sem mobilização social e pressão pública, não há como se construir instituições que respondam aos anseios de seus cidadãos, prezem pelo seu bem-estar e ofereçam uma base competitiva justa para que todos possam ascender social e economicamente, como explicam o economista turco Daron Acemoglu e o cientista político britânico James Robinson no livro Por Que as Nações Fracassam: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza.

Nesse contexto, os resultados da pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira – Ensino Básico, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o movimento Todos pela Educação (TpE), divulgados na semana passada, revelam-se de extrema importância. Das 2 mil pessoas de 126 municípios entrevistadas para o recorte sobre a relação da Educação ofertada no país com questões relevantes da conjuntura atual, 60% acreditam que a má qualidade do ensino está na raiz da corrupção, 77% identificam a mesma causa para justificar a violência e 74% concordam totalmente que a precariedade do sistema educacional prejudica o desenvolvimento do Brasil.

Se o nível de descontentamento do brasileiro com a rede pública de ensino não surpreende – a avaliação como “ótima ou boa” caiu de 48% para 31% no caso do Ensino Médio e de 50% para 34% em relação ao Ensino Fundamental nos últimos quatro anos, segundo o levantamento –, o grau de conscientização da população sobre a relevância da Educação para que nossa sociedade trilhe o caminho do progresso salta aos olhos. Não se sabe de nenhuma outra pesquisa em que o percentual dos que percebem essa relação se apresentou tão alto. Em um estudo similar, de 2013, também conduzido pela CNI e pelo TpE, 61% dos entrevistados consideravam o ensino de baixa qualidade prejudicial para o avanço do país. Hoje, incríveis 90% – 9 entre 10 brasileiros! – têm esse entendimento.

Ainda temos muito a percorrer no sentido de informar e conscientizar a nossa população sobre problemas sérissimos que nos afligem e fazem do Brasil “o país do futuro que nunca chega”. Infelizmente, o Brasil é o segundo país do mundo que mais desconhece a própria realidade, de acordo com o último ranking Perils of Perception, divulgado no final do ano passado, que comparou as opiniões da população de 38 países com fatos e cenários reais em que vivem. Mas com certeza, como mostra a pesquisa CNI/TpE, houve uma enorme evolução no sentido de darmos, como sociedade, a devida prioridade à formação do nosso povo. Estamos de olhos cada vez mais abertos.