Como despertar o melhor em nossos jovens?
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Como despertar o melhor em nossos jovens?

Só 11% dos jovens de 30 países, incluindo o Brasil, experimentam altos níveis bem-estar e abundância de oportunidades individuais de acordo com o recém-lançado Índice Global de Bem Estar Juvenil

Ana Maria Diniz

23 Novembro 2017 | 08h57

Tenho uma lembrança muito nítida dos meus 17, 18 anos. Como a maioria das pessoas nessa idade, sonhava em me formar, conseguir um bom emprego e construir uma carreira de sucesso. Mas tinha um problema: eu não tinha uma vocação muito nítida, nem um dom especial. Imagino que boa parte dos jovens, assim como eu, não consegue identificar esse talento tão precocemente. Decidi, então, prestar vestibular para Administração e para Jornalismo. Ao final, fiquei com a primeira opção, por grande influência do meu pai. Ele achava que se tratava de uma formação mais completa, que me permitiria pavimentar melhor a minha estrada para uma vida próspera e feliz.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto certas coisas foram fundamentais para que eu tivesse a força e a motivação necessárias para fazer as escolhas que fiz. O apoio da minha família foi uma delas e também ter uma base educacional sólida, uma alimentação e uma vida saudáveis, física e mentalmente falando, e principalmente, ter a percepção de que as oportunidades estavam ali, bem ao meu alcance, só tinha que me esforçar para fazer o melhor de mim.

Nós, como humanidade, nunca fomos tão jovens. Neste momento da nossa história, aproximadamente metade da população do planeta tem menos de 30 anos. Essa juventude não só enfrenta os mesmos dilemas que eu e todos nós enfrentamos no início de nossas vidas adultas, como o faz numa situação de vulnerabilidade, instabilidade, sem o apoio da família e num clima de extrema insegurança em relação ao futuro. Eles são jovens em meio a pior crise de desemprego de todos os tempos e, portanto, não fazem a menor ideia do que será desse mundo em transformação contínua e radical daqui cinco, dez ou vinte anos, quando estiverem no mercado de trabalho.

Claramente, não estamos oferecendo as condições necessárias para que esses jovens se desenvolvam e sejam pessoas realizadas e integradas a uma atividade que lhes dê dignidade e propósito de vida no futuro. É o que mostra o Índice Global de Bem-Estar Juvenil. O ranking, desenvolvido pela International Youth Foundation, avaliou os desafios e oportunidades de jovens de 30 países nas seguintes áreas: oportunidades econômicas, educação, saúde, gênero, cidadania, segurança, tecnologia e comunicação. A principal conclusão: só 11% dos jovens que participaram da pesquisa experimentam altos níveis bem-estar e abundância de oportunidades individuais.

O Brasil foi um dos países avaliados e aparece em 21ª colocação, no terço inferior do ranking, atrás de países como Quênia e Turquia. Segundo o relatório, o país apresenta índices contraditórios. Por um lado, o Brasil ocupa o 10º lugar entre os países com maior percentual de jovens (73%) que acreditam alcançar, num futuro próximo, uma situação econômica melhor do que a de seus pais. No entanto, o país figura em primeiro lugar entre as nações com maior percentual de jovens (93%) para quem seus governantes falham em garantir as condições mínimas (como educação, saúde, segurança, crescimento econômico) para que suas aspirações pessoais e profissionais se realizem.

Isso mostra que nossos jovens são eternos otimistas e têm esperança, o que é muito bom. Também revela outra coisa importantíssima: que eles têm total consciência do descompromisso das autoridades do país com a preparação de seus cidadãos e com a criação e manutenção de um ambiente propício para que surjam oportunidades consistentes para que eles de fato prosperem.

Eu tenho muita preocupação com os milhões de jovens que estão fora da escola ou desempregados. O Brasil tem cerca de dez milhões de brasileiros entre 15 a 29 anos nessa situação, o que representa 22,5% da população nessa faixa etária.  A proporção dos chamados “nem-nem” cresceu 2,5% em relação a 2014. Não podemos nos conformar com essa geração perdida. Acredito que as carreiras profissionalizantes agora contempladas pela reforma do ensino médio podem ser uma resposta para esse problema. Precisamos, agora, partir para concretizar isso.

A juventude é peça-chave da transformação que queremos viver como nação. São os jovens que vão protagonizar o nosso futuro. Um país que pretende ser um ator relevante no cenário mundial precisa olhar para a questão do jovem de frente e ter um plano para ele. Mais importante ainda: precisa ter uma estratégia boa e um foco na execução deste plano. Espero que nosso próximo presidente entenda a real dimensão deste problema e o transforme numa grande oportunidade de crescimento para o Brasil.