A tirania do médio
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A tirania do médio

Os seres humanos não se encaixam perfeitamente num único molde, mas somos o tempo todo descritos, classificados e selecionados de acordo com padrões pré-estabelecidos, principalmente nas escolas

Ana Maria Diniz

09 Novembro 2017 | 11h35

Sempre me senti um pouco deslocada nos meus tempos de escola porque não me encaixava em nenhuma moldura pré-concebida. Eu me achava complexa demais, encucada demais. Não era da turma das patricinhas, as meninas de visual impecável, preocupadíssimas com grifes, futilidades e meninos. Nem do grupo das hippies, desleixadas e contestadoras, sempre dispostas a desafiar o status quo. Eu era um pouco uma, um pouco outra e, às vezes, nenhuma das duas.

Quem nunca se sentiu assim? Afinal, nós, seres humanos, não cabemos perfeitamente num único molde. Cada um de nós é único, singular. No entanto, da hora em que nascemos até o fim de nossas vidas, somos descritos, classificados e selecionados a partir de padrões pré-estabelecidos.

Descobri recentemente o psicólogo americano Todd Rose e foi um uau!  Identifiquei-me imediatamente com o que ele diz sobre a “ditadura do médio”. Diretor do Programa Mente, Cérebro e Educação de Harvard, Rose é um dos expoentes da ciência do indivíduo, ramo que se propõe a provar cientificamente que não é possível tirar conclusões sobre alguém ou definir uma pessoa com base em padrões e médias estatísticas. Ou melhor: a partir de uma concepção hipotética do que seria um indivíduo normal ou regular no âmbito pessoal, no trabalho e, principalmente, nas escolas.


“Não existe célula média, comportamento médio, Joao médio, Maria média. Ninguém é médio. Por que, então, haveria um estudante médio? A ideia do aluno médio não passa de um mito!”, provoca Rose.

Infelizmente, em nenhuma área a presunção da normalidade é tão difundida e praticada de forma tão recorrente, intensa e sistemática quanto na Educação. Todo o nosso sistema de ensino está baseado em médias: oferecemos um ensino mediano, em escolas medianas, para formar pessoas medianas. Somos doutrinados a acreditar que nossas particularidades são quase defeitos, que existe um jeito certo de agir, de fazer as coisas e que ser normal é uma coisa legal. As avaliações e provas para medir o aprendizado é um estímulo nesta direção, pois abordam somente uma dimensão da pessoa, a cognitiva, deixando de lado todos as outras características individuais.

Isso tudo mata a possibilidade de fazer cada um desabrochar como uma pessoa única, bela em suas peculiaridades, e a desenvolver todo o seu potencial. Se você for capaz de ficar na média, menos mal. Por outro lado, conheci várias pessoas que tiveram sua autoestima afetada ou desistiram de seguir a carreira dos sonhos porque não iam tão bem em algumas matérias relacionadas e que, mais tarde, se arrependeram de não ter tentado mais.

Dentre todas as tendências que estão surgindo no sentido de ajudar a Educação a se reinventar e que eu tanto tenho falado aqui neste blog, uma das que eu mais gosto é a das plataformas adaptativas. Elas possibilitam que os alunos estudem e aprendam cada um ao seu tempo, podendo visitar o conteúdo quantas vezes quiser até aprender de verdade. Sem dúvida, daqui para frente a customização das trilhas de aprendizado serão cada vez mais utilizadas e vamos, enfim, começar a diferenciar as crianças.

Olha que coisa incrível aconteceu em uma das escolas públicas adotadas por mim pela Parceiros da Educação, a Escola Costa Manso. Ela começou a utilizar a plataforma Khan Academy para os alunos do 2º ano do Ensino Médio aprenderem matemática. Depois de a plataforma ser adotada em sala de aula pelo professor Márcio, os estudantes começaram a fazer exercícios com o mesmo grau de dificuldade. Alguns evoluíram nas etapas mais rapidamente, outros mais lentamente. Mas isso não foi um problema, pelo contrário. Dessa forma, o professor conseguiu enxergar melhor o processo de aprendizado de cada um e, assim, agrupar e ensinar os alunos com maior dificuldade de um jeito diferente.

É surpreendente como uma das alunas, a Samanta, começou a fazer os exercícios cada vez mais difíceis e foi superando, sozinha, todos os graus de dificuldade. Quando ela terminou tudo o que a plataforma oferecia, queria mais desafios. Para isso, teve que ligar para os Estados Unidos e pedir ao próprio Salman Khan problemas ainda mais complexos. O professor Márcio sabia que tinha uma aluna boa de matemática, mas não tinha ideia de que tinha este fenômeno em sua classe! É a  tecnologia possibilitando a diferenciação!

Enfim, a escola falha em fazer o que deveria: reconhecer e fomentar talentos, estimular o que há de melhor em cada aluno, respeitando o tempo, o ritmo e o jeito de ser de cada um. Mas para que isso mude deve haver uma intenção de conhecer a potencialidade de cada um e de medir os alunos em outras dimensões além do conhecimento. Vamos lutar por isso!

Pois a predominância da média sobre a individualidade só alimenta estereótipos. Concordar com ela é aceitar que devemos nos esforçar para caber numa caixinha. E isso não faz de ninguém um aluno, um funcionário ou uma pessoa melhor. Como diz Rose, “só quando deixarmos de nos comparar com o que seria o ideal, o padrão, é que as coisas acontecem e os portões simplesmente se abrem”.